Capitã de navio foi falsamente acusada por bloqueio do Canal de Suez

Em entrevista à BBC, Marwa Elselehdar se disse surpresa com rumores de que estaria envolvida no encalhe do Ever Given e que já foi vítima de sexismo mais de uma vez

Primeira mulher capitã de navio do Egito, Marwa Elselehdar foi surpreendida, no mês passado, com rumores na internet de que ela era a culpada pelo incidente envolvendo o cargueiro Ever Given, que encalhou no Canal de Suez, bloqueando uma das principais rotas de navegação do mundo, ligando o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo.

Em entrevista à BBC, Marwa se disse surpresa com as mensagens:

— Fui falsamente acusada pelo bloqueio ao Canal de Suez — afirmou a capitã, que, na época do incidente, estava trabalhando como primeira oficial da embarcação Aida IV, que navegava a centenas de quilômetros da Alexandria.

Depois de seis dias encalhado no Canal de Suez, equipes de resgate finalmente conseguiram
liberar o navio Ever Given na madrugada da última segunda-feira, dia 29 de março. O incidente interrompeu o tráfego em uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo, chegando a causar um congestionamento de mais de 400 embarcações.

De acordo com a BBC, o navio no qual Marwa trabalha, de propriedade da autoridade de segurança marítima do Egito, transporta suprimentos para um farol no Mar Vermelho. Além disso, é usado para treinar cadetes na Academia Árabe de Ciência, Tecnologia e Transporte Marítimo (AASTMT), uma universidade regional administrada pela Liga Árabe.

 

Fake news

Na reportagem publicada em seu site, a rede britânica informa que os rumores sobre o papel de Marwa no incidente do Ever Given foram em parte alimentados por imagens de uma notícia falsa, supostamente publicada pelo site de notícias Arab News, que dizia que ela estava envolvida no encalhe do navio na passagem marítima.

A imagem manipulada parece ter vindo, segundo a BBC, de um artigo verdadeiro publicado pelo Arab News em 22 de março, que descreve o sucesso da jovem de 29 anos como a primeira capitã de navio do Egito. A imagem foi compartilhada dezenas de vezes no Twitter e no Facebook.

Centenas de contas no Twitter usando seu nome também espalharam falsas afirmações de que Marwa estava envolvida no incidente do Ever Given.

Na entrevista à BBC, Marwa diz não ter ideia de quem foi o primeiro e o motivo que levaram alguém a espalhar a história.

— Senti que era o alvo desses rumores, talvez porque sou uma mulher de sucesso neste campo ou porque sou egípcia, mas não tenho certeza — diz ela, acrescentando que sempre amou o mar e que foi seu irmão que a incentivou a entrar para a marinha mercante depois de se inscrever na AASTMT.

Vítima de sexismo

Esta não é a primeira vez que Marwa enfrenta desafios em uma indústria historicamente dominada por homens, diz a BBC. Durante seus estudos, Marwa disse que sempre foi vítima de sexismo.

—A bordo, todos eram homens mais velhos com mentalidades diferentes. Não havia pessoas com as quais pudesse trocar ideias. Foi um desafio passar por isso sozinha sem que minha saúde mental fosse afetada — contou a capitã à rede britânica.

E acrescentou:

— As pessoas em nossa sociedade ainda não aceitam a ideia de que mulheres trabalhem no mar longe de suas famílias por muito tempo. Mas quando você faz o que ama, não precisa buscar a aprovação de todos.

Após a formatura, Marwa ascendeu ao posto de primeira oficial e capitã do Aida IV quando este se tornou o primeiro navio a navegar no Canal de Suez após sua expansão, em 2015. Naquela época, ela se tornou a capitã egípcia mais jovem e a primeira mulher a cruzar essa rota.

Atualmente, as mulheres representam apenas 2% dos marinheiros do mundo, segundo dados da Organização Marítima Internacional (OMI).

Ela contou ainda que temeu pelo impacto que os rumores teriam em seu trabalho e carreira, lembrando que o artigo falso estava em inglês, e se espalhou para outros países:

— Tentei de várias maneiras negar o que estava no artigo porque estava afetando minha reputação e todos os esforços que fiz para chegar aonde estou agora.

Marwa disse à BBC que os comentários sobre o artigo foram muito ásperos e negativos, mas que ficou feliz com o apoio que recebeu após fake news, tanto de pessoas comuns quanto daquelas com quem trabalha.

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