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Smart Money: nos vinhos ou nas startups, o conhecimento faz a diferença

Nos momentos de escassez, o capital intelectual se torna essencial para as empresas superarem as adversidades
Estabilidade financeira e crescimento estão sempre no horizonte (scyther5/Getty Images)
Estabilidade financeira e crescimento estão sempre no horizonte (scyther5/Getty Images)
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Orlando Cintra*

Publicado em 08/08/2022 às 20:48.

Última atualização em 09/08/2022 às 14:49.

O bom vinho costuma vir das parreiras plantadas em terrenos áridos. Bons exemplos são as vinícolas da França, Itália, Chile, Argentina, Califórnia e diversas regiões de todo o mundo. As plantas têm de buscar água nas camadas mais profundas do solo. Se a água está logo na superfície, a vinha fica preguiçosa, como dizem os especialistas, e a uva sofre.

Essa analogia cai como um gole aveludado de vinho para as startups que enfrentam o atual clima dos mercados atuais, com taxas de juros nas alturas, alta volatilidade e investidores receosos.

No primeiro semestre deste ano, houve uma queda do investimento total em startups brasileiras de 44% na comparação com igual período do ano anterior, para US$ 2,92 bilhões, segundo a plataforma Distrito. Mas é preciso lembrar também que a base de comparação estava inflada.

Em 2021, o investimento de venture capital no mundo alcançou o recorde histórico de US$ 621 bilhões, com alta de 111%,  segundo relatório da CBInsights. No Brasil, a situação não foi diferente, com recorde de investimento em startups de US$ 9,4 bilhões, segundo relatório Inside Venture Capital, da Distrito. O volume foi 2,5 vezes maior do que o registrado no ano anterior.

Com todo esse dinheiro jorrando nas rodadas de investimento, estava fácil captar e vimos valuations encharcadas de otimismo. Para se ter uma ideia, só no último trimestre do ano passado foram criados 959 novos unicórnios no mundo, alta de 69% na comparação com igual período de 2020.

Diante de umidade excessiva, a vinha fica mais suscetível a fungos e pragas. Muitas empresas, irrigadas com o dinheiro abundante, saíram contratando demais e tiveram de demitir quando o cenário virou porque viram que as expectativas de crescimento anunciadas não se realizaram.

Ilusão nos momentos de fartura

Sem o excesso de capital nas rodadas é que se pode ver melhor quais são as empresas de qualidade, com planos de negócios realistas com condições de buscar recursos em qualquer cenário.

As vinhas em solo com características corretas são mais resistentes às intempéries do clima. Startups que montem modelos de negócio que tenham unity economics, ou seja, custo inferior à receita, também resistem às reversões do mercado. É preciso ter o objetivo de atingir a lucratividade sem depender eternamente de novos aportes.

O equilíbrio entre estabilidade financeira e crescimento está sempre no horizonte. Muitas vezes o mercado se ilude nos momentos de fartura.

A meta e o foco das empresas devem estar sempre em resolver as dores dos seus clientes e gerar valor. Esse cliente final pode ser outra empresa, o consumidor ou até mesmo governos. Mas é neles que se tem de pensar. Os valuations são consequência do trabalho, não inspirações. Mais racionalidade, menos criatividade.

Capital intelectual faz a diferença

Por isso, nessas horas de escassez, é que vamos ver o diferencial das boas startups. O smart capital, o capital intelectual, se torna ainda mais essencial para as empresas superarem as adversidades.

No BR Angels, acreditamos que o aconselhamento feito pelos membros do nosso grupo, formado por CEOs, Board Members e empreendedores experientes, tem tanto ou mais valor do que o capital financeiro investido. Imagine uma vinícola que receba a consultoria de um enólogo experimentado. O produto dessa colaboração tende a ser muito mais elaborado.

É bom lembrar que o Smart do BR Angels não interfere nas decisões da startup.

A prerrogativa continua nas mãos do time de founders.

Temos nove grupos Smart, que englobam áreas como Tecnologia, Vendas, ESG, Customer Success, Financeiro, além de outras. Oferecer mentorias por meio desses grupos é uma das obrigações contratuais dos nossos mais de 250 associados, todos profissionais de companhias como Amazon, HP, Movida, Rappi e outras líderes de mercado. Ou seja, é uma verdadeira imersão no universo dos negócios, assim como uma possibilidade de abertura de portas com clientes, fornecedores e parceiros

Dados do Report Investimento 2022, estudo realizado pelo BR Angels em parceria com a Associação Brasileira de Startups (Abstartups), mostram que as startups também reconhecem o valor do smart money. Segundo o levantamento feito com 257 empresas, 31,7% dos empreendedores esperam que a relação com os investidores-anjo ajude a abrir portas em potenciais clientes e aproveitar a rede de relacionamentos.

Outros 24,9% acreditam que a parceria trará benefícios de aconselhamento em áreas específicas (como tecnologia, vendas e recursos humanos).

A pesquisa mostrou ainda que 49,88% dizem preferir obter recursos com grupos de investidores-anjo. Em segundo lugar vêm os fundos de venture capital, com 19,71% das preferências.

Claro que isso depende da fase em que a empresa se encontra na jornada de captação. O investimento-anjo costuma ser um dos primeiros cheques a chegar para as startups. Já os fundos de VC vêm em estágios posteriores. Mas o dado indica uma preferência dos empreendedores pelo expertise que podem obter dos grupos de investidores-anjo.

Não há motivos para pânico

Outro dado a se destacar é que as startups em estágio inicial também não foram tão afetadas pela redução da liquidez dos mercados e mostraram crescimento neste ano. Na comparação do primeiro semestre de 2022 com igual período de 2021, que já tinha sido recorde, as captações de startups em estágios seed e early stage no Brasil tiveram alta de 21,5%, para US$ 1,68 bilhão, segundo dados do próprio Distrito.

O maior crescimento veio entre as startups que captaram rodadas anjo, pré-seed e seed: alta de 86%, passando de US$ 151 milhões entre janeiro e junho de 2021 para US$ 282 milhões no mesmo período de 2022. Nas séries A e B, o avanço foi de 14%, saindo de US$ 1,23 bilhão para US$ 1,39 bilhão.

Isso também reforça a avaliação de que o cenário atual não é motivo para pânico generalizado. Não temos uma crise concentrada em startups ou venture capital e não existe um motivo para que o ecossistema todo deixe de funcionar.

Existe sim uma situação macroeconômica que alterou vários fundamentos, o que é super positivo, pois trouxe racionalidade para pressões de crescimento (e valuations) absurdos.

Boas startups sempre contarão com bons investidores-anjo e fundos de venture capital dispostos a apoiá-las. Os bons vinhos sempre têm apreciadores, mesmo que em uma ou outra safra ele não esteja em seu ponto mais alto.

Assim como as vinhas, as empresas não podem se tornar preguiçosas. É na aridez que crescem as melhores. Quanto maior o potencial de guarda do rótulo, mais satisfação traz a quem apostou nele. Um brinde ao mercado da inovação!

*Orlando Cintra é founder & CEO do BR Angels, grupo de investimento anjo formado por CEOs e empreendedores

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