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Por Marcelo de Sá*

Recentemente um gerente comercial em Brusque (SC) foi reconhecido como o recordista mundial de permanência num mesmo emprego: aos 100 anos de idade, trabalha há 84 anos na mesmíssima indústria têxtil. Quando Walter Orthmann entrou lá, a Segunda Guerra Mundial ainda não tinha ocorrido e a CLT nem existia!

Seu Walter conviveu com várias gerações de colegas de trabalho, para a maioria dos quais, trabalhar em uma mesma empresa por anos era razão de orgulho. Frases como “o trabalho dignifica o homem”, “deixe sua vida pessoal do lado de fora quando chegar para trabalhar”, “não misture profissional e pessoal” foram repetidas por gerações. Essa dinâmica mudou.

Atualmente, muitos jovens recusam empregos se percebem desequilíbrio entre profissional e pessoal. Buscam na carreira um propósito que vai além dos boletos a pagar.

Eles são mimados ou têm razão? Questionado sobre o segredo para tamanha longevidade profissional, seu Walter deu uma resposta singela: gostar do que faz. A grande tragédia para os jovens no Brasil está na pouca escolha. Vivemos uma década de empregabilidade declinante em uma economia menos industrial e mais de serviços, instabilidade, escolaridade e renda média para baixa.

De acordo com o Ministério do Trabalho, a cada 10 jovens empregados 9 ocupam cargos com baixa remuneração e qualificação, ou seja, trabalhos pouco desafiadores para gerar a motivação e o engajamento pregados por pais e avós. Considerados emocionalmente frágeis, preguiçosos ou pouco resilientes, os membros da geração dos desengajados no trabalho culpam a realidade brasileira. O pouco caso com o emprego não seria voluntarismo, mas falta de perspectiva de um futuro próspero.

Atualmente, 35% dos brasileiros entre 18 e 24 anos estão sem trabalho (por baixa qualificação) e sem estudar (porque é caro), elevando o país ao segundo lugar no ranking da geração ‘nem-nem’. Os dados – extraídos do relatório Education at a Glance 2022, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – apontam para esta porcentagem como o dobro da média dos países membros da OCDE, que é de pouco menos de 17%. Nossa falta de oportunidades é crônica!

A falta de dinheiro para estudar e a falta de confiança dos jovens no governo devido às dificuldades para ingressar no mercado de trabalho e obter oportunidades educacionais em busca de novas habilidades e competências, são um visto de entrada para o Vale dos ‘nem-nem’.

Faltam oportunidades aos jovens, sobram desafios

Entre 14 e 29 anos, quase um terço dos nossos jovens não têm oportunidade de estudo nem de trabalho, aponta outro levantamento, feito pelos institutos Cíclica e Veredas, sobre o futuro do trabalho para as juventudes brasileiras. Segundo o estudo, 39% destes meninos e meninas somente trabalham, outros 15% somente estudam e 14% estudam e têm empregos. Por fim, 5% estudam, mas estão desempregados. Só estudar ou só trabalhar tem mais a ver com as condições socioeconômicas desfavoráveis e com a falta de incentivo à educação.

O Brasil tem cerca de 35 milhões de jovens, 21 milhões deles desocupados, o que os deixa mais expostos à exclusão social, pobreza, baixa autoestima e menor desenvolvimento de habilidades e conhecimentos. Vejo isso como uma perda para o Brasil, que poderia se beneficiar das contribuições desses jovens em diferentes setores.

Crise de ansiedade no trabalho

A instabilidade econômica global nos últimos anos deixou ansiosos os jovens empregados. Pesquisa recente com 12 mil trabalhadores globais detectou que 91% dos jovens de 18 a 24 anos se sentem estressados. No Brasil, com as perspectivas de crescimento econômico lento e os salários baixos agravam o desengajamento no trabalho.

Pesquisa da McKinsey, focada em médias e grandes empresas, mostra que cerca de um terço da força de trabalho brasileira considera deixar seus empregos nos próximos 3 a 6 meses, motivada principalmente pela falta de oportunidades de desenvolvimento e remuneração inadequada. Esse movimento pode gerar um impacto de 10 a 15% sobre as receitas das empresas decorrente de custos de recrutamento, desenvolvimento e perda de produtividade.

Por conta da pouca vivência no ambiente profissional e inseguranças típicas da idade, desentendimentos no escritório, pouca flexibilidade da empresa e imposição de limites na forma de se expressar também geram ansiedade e afetam a motivação. Os dados da McKinsey indicam que, entre aqueles com emprego em tempo integral, os jovens entre 18 e 35 anos têm 40% mais chance de sair – em cargos de liderança, chega a +120%.

O mundo do trabalho precisará ser criativo para lidar com as novas perspectivas dos jovens. Estamos diante de um momento provocador, que pede mudança de paradigma.

É hora de os incentivarmos os jovens a se manterem curiosos, para que sigam acelerando e pavimentando o caminho para um futuro com mais possibilidades.

*Marcelo de Sá é CFO do Grupo Petrópolis

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