Presidente Lula cumprimenta o premier da Índia, Narendra Modi, antes da foto oficial da Cúpula do Brics no Rio (AFP)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 06h01.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca em Nova Déli nesta quarta-feira, 18, para uma visita de Estado à Índia. A missão brasileira, que contará com 11 ministros e uma comitiva de empresários, buscará demonstrar que os países vivem uma nova fase em sua relação, com mais trocas tecnológicas, industriais e com a meta de uma corrente comercial de US$20 bilhões até 2030 ante os atuais US$ 15 bilhões.
A agenda combinará três eixos centrais: a participação de Lula na Cúpula de Impacto em Inteligência Artificial, reuniões bilaterais com o primeiro-ministro Narendra Modi e a realização do Fórum Empresarial Índia–Brasil 2026 — que reunirá líderes empresariais e autoridades dos dois países.
Entre os acordos que podem ser assinados durante a visita estão:
Também há expectativa de um anúncio de colaboração entre a Embraer e a empresa indiana Adani Defence & Aerospace no setor aeronáutico.
O pano de fundo é um comércio bilateral que atingiu recorde histórico em 2025 e uma tentativa de Lula e Modi de alinharem os interesses do chamado Sul Global diante de uma perceptível fragmentação da ordem global por ambos os países.
Em 2025, o fluxo comercial entre Brasil e Índia alcançou cerca de US$ 15 bilhões, crescimento de 25% sobre 2024 e o maior valor da série histórica.
Exportações brasileiras: US$ 6,9 bilhões (recorde em vinte anos)
Importações brasileiras: US$ 8,4 bilhões
A Índia é hoje o 10º destino das exportações do Brasil e 6ª maior origem de importações, segundo o governo. Em 2005, o país asiático era o 23º destino das exportações nacionais.
Os dois governos estabeleceram meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030 e iniciaram negociações para ampliar o Acordo de Comércio Preferencial Mercosul–Índia.
Hoje, o acordo cobre cerca de 450 linhas tarifárias e apenas uma fração do universo comercial indiano, o que abre espaço para expansão.
A pauta exportadora brasileira segue concentrada em commodities. Em 2025, os principais produtos vendidos à Índia foram, segundo o Itamaraty:
Do lado das importações, o Brasil compra principalmente combustíveis derivados de petróleo, compostos químicos, inseticidas e medicamentos.
Segundo levantamento da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), há 378 oportunidades identificadas para produtos brasileiros no mercado indiano, em setores como combustíveis minerais, máquinas e equipamentos de transporte, alimentos, tecnologia e saúde.
Durante a visita, a ApexBrasil inaugurará um escritório de representação em Nova Déli.
Líderes do Brics durante foto oficial na reunião de cúpula no Rio de Janeiro, em julho (Pablo Porciúncula/AFP)
Antes do Fórum Empresarial, Lula participa da Cúpula de Impacto em Inteligência Artificial, quarta reunião do chamado “processo de Bletchley” sobre governança global da IA.
A edição de Nova Déli marca um ponto político relevante: é a primeira vez que um país do Sul Global lidera o enfoque do processo.
"O processo, de alta relevância política para o fragmentado debate multilateral sobre governança de IA, terá, pela primeira vez, um país do Sul Global ditando seu enfoque", diz trecho de documento do governo brasileiro.
A presidência indiana organizou os debates em três pilares — Pessoas, Planeta e Progresso — com foco em desenvolvimento econômico e social.
O Brasil apoiará a iniciativa e realizará evento paralelo para apresentar sua experiência em transformação digital do Estado e políticas públicas baseadas em tecnologia.
Na sexta-feira, 21, Lula vai participar do Fórum Empresarial Índia–Brasil 2026.
O encontro reunirá autoridades e lideranças empresariais com foco em energia e transição energética, indústria e infraestrutura, transformação digital e cooperação Sul–Sul.
Está prevista também a primeira reunião do Fórum de Líderes Empresariais Brasil–Índia, coordenado pela CNI e pela FICCI, homólogo da CNI na Índia.
A Índia é hoje o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes, e tem a quarta maior economia global, um PIB de US$ 4,2 trilhões -- com potencial de se tornar a terceira maior economia até 2030.
Nos últimos anos, o país tem crescido em ritmo acelerado, acima de 6% ao ano -- em 2023, a economia indiana deu um salto de 9,3%, segundo o Banco Mundial.
Do ponto de vista da agricultura, é o segundo maior produtor mundial em valor de produção, atrás apenas da China.
Para o Brasil, trata-se de um parceiro com escala demográfica, apetite energético e demanda crescente por alimentos e tecnologia — combinação rara.
Brasil e Índia mantêm parceria estratégica desde 2006 e atuam conjuntamente em fóruns como BRICS, G20, IBAS e BASIC.
Na visita de Estado, Lula e Modi devem discutir temas como a reforma da governança global e do Conselho de Segurança da ONU, além de defender o multilateralismo como forma de interação entre os países -- e fechar acordos de cooperação tecnológica e energética.
Ao lado do presidente Lula, participam da missão os ministros Mauro Vieira, do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Esther Dweck, da Gestão e Inovação no Serviço Público (MGI), Alexandre Padilha, da Saúde (MS), Camilo Santana, da Educação (MEC), Marina Silva, do Meio Ambiente (MMA), Luciana Santos, da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário (MDA), Fernando Haddad, da Fazenda (MF), Alexandre Silveira, das Minas e Energia (MME), Carlos Fávaro, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Márcio França, do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), e Frederico de Siqueira, das Comunicações (MCom).