Mansueto Almeida, do BTG: "Mesmo com essa arrecadação extra, o gasto elevado fez com que os juros subissem drasticamente. O serviço da dívida explodiu.” (BTG Pactual/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 16h52.
O crescimento acelerado dos gastos públicos federais nos últimos quatro anos tornará inevitável um ajuste fiscal centrado em cortes de despesas a partir de 2027. Essa é a avaliação de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional, feita nesta terça-feira, 10, durante o CEO Conference Brazil 2026.
Segundo ele, a estratégia adotada pelo atual governo — que consiste em aumentar a arrecadação para cobrir o avanço expressivo das despesas — não é sustentável.
“De 2014 a 2022, com a pandemia no meio, o crescimento real dos gastos públicos federais foi de 9%. Agora, em apenas quatro anos, deve ultrapassar 20%”, afirmou. "Grande parte da melhora no resultado primário veio do aumento da carga tributária, e não de cortes nas despesas", afirmou.
O economista alerta que, como resultado, o Brasil enfrenta hoje a maior taxa de juros real do mundo, atualmente em 15% ao ano, e um déficit nominal médio de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB) — um número elevado até mesmo para países com desequilíbrios fiscais crônicos, como França, Inglaterra e EUA.
“Isso não é equilíbrio. Isso não é sustentável”, disse. “Mesmo com essa arrecadação extra, o gasto elevado fez com que os juros subissem drasticamente. O serviço da dívida explodiu.”
Para Mansueto, independentemente do vencedor da eleição presidencial deste ano, o próximo governo terá de conter o crescimento das despesas como estratégia central para o ajuste fiscal. “Não podemos repetir nos próximos quatro anos o que foi feito nos últimos.”
Ele citou o exemplo do governo Temer, onde foi secretário do Tesouro entre 2016 e 2018, quando o crescimento real das despesas federais foi de apenas 2,1%. O controle de gastos, disse ele, abriu espaço para o corte de juros: “A inflação caiu, as expectativas reduziram, e a Selic caiu de 14,25% para 6,5% em dois anos.”
“Segurando as despesas, houve redução do déficit nominal, queda nos juros e melhora na percepção de risco. Foi um ciclo virtuoso doméstico, que não dependia de fatores externos favoráveis.”
Mansueto também criticou o atual arcabouço fiscal, que inicialmente teve boa aceitação do mercado, mas perdeu credibilidade com o tempo. “O problema foi a criação de programas fora da regra. O resultado? Não deu certo.”
Segundo o economista, a melhora recente da inflação e a valorização do real não foram reflexo de políticas internas. “A valorização do dólar foi consequência de políticas erráticas nos EUA, que provocaram rotação de portfólio e entrada de capital estrangeiro no Brasil. Não foi por mérito nosso.”
“Em janeiro deste ano, as três bolsas que mais subiram no mundo foram Colômbia, Brasil e Peru. Nenhuma delas passou por reformas estruturais no último ano.”
Ao projetar os próximos anos, Mansueto reforçou que o crescimento econômico observado desde o fim da pandemia partiu de uma base muito fraca. “O desemprego era de 12% e havia espaço para reabsorver mão de obra. Agora, com desemprego a 5,1%, crescer 2% ao ano já será difícil.”
“A força de trabalho cresce 0,8% ao ano, e a produtividade, com otimismo, 1%. Sem ajuste fiscal, mesmo que gradual, não há espaço para cortar juros. A dívida seguirá crescendo muito rápido", disse.