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No retorno de Trump, pedidos de falência no agro dos EUA crescem 46% em 2025

Dados são da American Farm Bureau Federation (AFBF), uma das principais entidades agrícolas dos Estados Unidos

Agro dos EUA: Centro-Oeste dos EUA, com estados como Illinois, Iowa e Missouri, e o Sudeste, com Flórida, Geórgia e Carolina do Sul, lideraram os pedidos de falência, com 121 e 105 solicitações, respectivamente (Freepik)

Agro dos EUA: Centro-Oeste dos EUA, com estados como Illinois, Iowa e Missouri, e o Sudeste, com Flórida, Geórgia e Carolina do Sul, lideraram os pedidos de falência, com 121 e 105 solicitações, respectivamente (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 06h00.

Os pedidos de falência no agronegócio dos Estados Unidos cresceram 46% em 2025, na comparação com 2024. Os dados são da American Farm Bureau Federation (AFBF), uma das principais entidades agrícolas do país.

Segundo a AFBF, os tribunais dos EUA registraram 315 solicitações de falência no ano passado. No país, os processos são fundamentados no Capítulo 12 da legislação americana, criado exclusivamente para produtores rurais e pescadores familiares. O mecanismo funciona como uma recuperação judicial simplificada, adaptada à realidade do agronegócio.

Embora o número ainda esteja abaixo dos picos registrados em 2019 e 2020, este é o segundo ano consecutivo de alta nos pedidos.

“A economia do setor enfrenta extrema pressão financeira, com poucas perspectivas de alívio. Perdas significativas são esperadas em todos os segmentos de cultivo por mais um ano, e muitos setores pecuários também estão vendo suas margens de lucro encolherem”, afirma Samantha Ayoub, economista da AFBF e autora do relatório.

A deterioração de um dos principais setores da economia americana ocorre no primeiro ano do retorno de Donald Trump à presidência. Em 2025, agricultores dos EUA alertaram para os impactos da guerra tarifária iniciada pelo republicano sobre a economia rural.

Um dos efeitos foi a perda de competitividade da soja americana frente à brasileira, especialmente no mercado chinês.

Como resultado, o Brasil elevou seus embarques de soja para a China de 80 milhões de toneladas em 2024 para 104 milhões de toneladas em 2025. Já os EUA exportaram pouco mais de 8 milhões de toneladas — historicamente, o volume gira em torno de 25 milhões de toneladas.

O levantamento da AFBF mostra que o Centro-Oeste dos EUA, com estados como Illinois, Iowa e Missouri, e o Sudeste, com Flórida, Geórgia e Carolina do Sul, lideraram os pedidos de falência, com 121 e 105 solicitações, respectivamente, superando qualquer outra região. Isso representa um aumento de 70% nos pedidos no Centro-Oeste e de 69% no Sudeste.

As perdas significativas em commodities, comuns nas duas regiões, se intensificaram após anos de queda na receita e aumento das despesas, afirma Ayoub.

O Arkansas, principal estado produtor de arroz dos EUA, liderou o ranking de pedidos de falência em 2025, com 33 solicitações, mais que o dobro de 2024 e o maior número registrado no século XXI, segundo a AFBF.

A Geórgia ocupou o segundo lugar, com 27 pedidos, um aumento de 145% em relação ao ano anterior. Outros estados do Sudeste americano com falências em dois dígitos incluem Texas e Louisiana, com 12 cada, e a Flórida, que viu um aumento de 200% em relação a 2024, somando 16 pedidos.

No Centro-Oeste, as perdas nas principais culturas agrícolas, somadas ao enfraquecimento dos mercados de laticínios, suínos e aves, impulsionaram os pedidos de falência.

Em Iowa, principal produtor de milho dos EUA, foram 18 solicitações, um salto de 220%. Em Nebraska, houve 17 pedidos, alta de 29%. Já no Missouri, foram registrados 16 casos no período.

"Os pedidos de falência de fazendas são um indicador tardio que dispara quando pressões financeiras prolongadas levam as fazendas a explorar recursos de última instância", diz o estudo da entidade.

Agro dos EUA

As perspectivas para o setor em 2026 não são otimistas. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que a dívida agrícola total aumentará 5,2%, atingindo o recorde de US$ 624,7 bilhões no próximo ano — o que reforça a necessidade de apoio financeiro aos produtores nas condições atuais.

Uma pesquisa do Federal Reserve (Fed) mostra que os empréstimos agrícolas cresceram 40% no último trimestre de 2025.

Além disso, o valor médio desses financiamentos foi 30% maior do que no ano anterior, indicando que os produtores estão tomando empréstimos mais elevados para cobrir custos operacionais, segundo o banco central americano.

O sentimento no campo também piorou. De acordo com levantamento da Universidade Purdue em parceria com o CME Group, a proporção de agricultores que esperam enfrentar dificuldades financeiras no próximo ano subiu de 47%, em dezembro, para 59%, em janeiro.

Na semana passada, o presidente da Comissão de Agricultura do Senado dos EUA afirmou que os produtores rurais do país enfrentam grandes prejuízos.

Além disso, líderes do setor alertaram para o risco de um “colapso generalizado da agricultura americana”, provocado pela escalada nos preços dos insumos e pela guerra tarifária liderada pelo presidente Donald Trump.

Nem mesmo o pacote de US$ 12 bilhões anunciado em 2025 pelo governo republicano deve aliviar de forma significativa os custos para os produtores.

“Esse apoio servirá como uma tábua de salvação para aqueles que estão apenas tentando chegar ao próximo ano. Mas é apenas uma tábua de salvação, não uma solução de longo prazo”, afirmou Mike Stranz, vice-presidente de relações governamentais da National Farmers Union, quando Trump anunciou o pacote.

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