Colheita de soja nos EUA: culturas especiais” — como frutas, hortaliças e outras lavouras com alta intensidade de trabalho (Getty Images/Getty Images)
Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 07h10.
Uma redução de 10% no emprego agrícola doméstico nos Estados Unidos pode levar a um aumento médio de 3% nos preços de alimentos produzidos a partir de culturas que exigem mais mão de obra. A conclusão é de um estudo da Universidade Estadual de Michigan (MSU).
As chamadas “culturas especiais” — como frutas, hortaliças e outras lavouras com alta intensidade de trabalho — movimentam cerca de US$ 115 bilhões por ano, segundo reportagem do Iowa Capital Dispatch, citada pelo portal agrícola Successful Farming’s.
Segundo a pesquisa, uma elevação de 2,94% nos preços desses alimentos, provocada pela escassez de trabalhadores, poderia gerar um impacto de quase US$ 3,4 bilhões (R$ 18,4 bilhões) para os consumidores.
Apresentado em um webinar promovido pela campanha Grow It Here, o estudo foi conduzido pelo pesquisador Zach Rutledge, que desenvolveu um modelo econômico para avaliar a relação entre a oferta de mão de obra e os preços dos alimentos.
“Nossas descobertas indicam que reduções moderadas no emprego agrícola poderiam aumentar os custos dos alimentos para o consumidor em bilhões de dólares”, afirmou Rutledge durante o evento.
A pesquisa revelou que mais da metade dos agricultores dos EUA entrevistados em 2021 relataram enfrentar algum grau de escassez de mão de obra, com déficit médio de 21% em relação à força de trabalho necessária para manter as operações em ritmo normal.
Entre os fatores apontados para o problema está a redução da população de imigrantes mexicanos nos EUA — principal origem da força de trabalho no campo — além de mudanças no comportamento dos trabalhadores, que têm evitado migrar para regiões com maior demanda, agravando a falta de pessoal.
O produtor de mirtilos Brandon Raso, de Nova Jersey, relatou que precisava de entre 600 e 700 trabalhadores para colher seus 263 hectares, mas conseguiu contratar apenas 200. Como resultado, estima ter perdido 1,1 milhão de quilos de mirtilos na última temporada.
“O resultado disso é um êxodo enorme de fazendas familiares”, disse Raso, citando os altos custos e a escassez de mão de obra como os principais fatores por trás da redução no número de propriedades produtivas.
Os produtores também discutiram os impactos do programa de vistos temporários H-2A.
O salário médio por hora no programa passou de pouco mais de US$ 11 em 2011 para mais de US$ 18 em 2025, segundo dados do Conselho Nacional de Empregados Agrícolas.
Em outubro de 2025, uma nova norma publicada pelo Departamento do Trabalho dos EUA ajustou a metodologia de cálculo dos salários.
Os produtores reconheceram que a mudança ajudou a conter custos, mas se disseram “cautelosamente otimistas” quanto aos efeitos no longo prazo.
Para Lisa Tate, produtora de frutas cítricas e abacates na Califórnia, a falta de mão de obra tem impactos profundos e silenciosos.
“A escassez de mão de obra pode não causar falta imediata de alimentos ou aumento de preços, mas enfraquece silenciosamente a resiliência do nosso sistema alimentar, aumentando nossa dependência de importações estrangeiras”, afirmou.
Ela também alertou que melhorias no sistema de vistos não bastam para garantir a competitividade dos EUA em relação a países com mão de obra mais barata.
Além disso, apontou mudanças culturais entre trabalhadores imigrantes, que se sentem mais inseguros devido ao aumento na fiscalização e ao clima político hostil dos últimos anos.
“Devemos valorizar as pessoas que colhem nossas plantações, cuidam da nossa comida e a entregam para nós. Elas não deveriam ter medo de estar em suas próprias comunidades”, afirmou.