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Crise da carne piora nos EUA com incêndios nos pastos e aumento da demanda

Desde a semana passada, incêndios já consumiram mais de 114 mil hectares no norte de Oklahoma e no sul do Kansas

Incêndio em pastagens nos EUA: chamas destruíram áreas utilizadas para alimentação do boi, provocaram mortes de animais (OKLAHOMA HIGHWAY PATROL)

Incêndio em pastagens nos EUA: chamas destruíram áreas utilizadas para alimentação do boi, provocaram mortes de animais (OKLAHOMA HIGHWAY PATROL)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 25 de fevereiro de 2026 às 10h55.

Última atualização em 25 de fevereiro de 2026 às 11h09.

A crise da carne nos Estados Unidos se agravou nos últimos dias após incêndios florestais atingirem áreas de pastagem em Oklahoma e Kansas, dois dos principais estados pecuaristas do país.

Desde a semana passada, os incêndios já consumiram mais de 114 mil hectares no norte de Oklahoma e no sul do Kansas, segundo o Departamento de Agricultura, Alimentos e Florestas de Oklahoma — área equivalente a cerca de 114 mil campos de futebol oficiais, considerando aproximadamente um hectare por campo. Até segunda-feira, 23, o incêndio estava cerca de 65% contido.

As chamas destruíram áreas utilizadas para alimentação do boi, provocaram mortes de animais e ampliaram a pressão sobre um rebanho que já está em nível historicamente baixo.

Diante do cenário, pecuaristas passaram a buscar doações de feno para alimentar os rebanhos. Na sexta-feira, 20, o governador de Oklahoma, Kevin Stitt, assinou uma ordem executiva flexibilizando por 14 dias regulamentações de transporte para agilizar a entrega de água, feno e outros alimentos para o gado.

Autoridades estaduais e representantes do setor confirmaram a morte de animais, mas ainda não há estimativa oficial das perdas.

“Houve muitas perdas de gado. Também houve grande perda de feno. Muitos dos produtores que ainda têm animais não têm pasto para alimentá-los neste momento”, afirmou Bryce Boyer, porta-voz do Departamento de Agricultura de Oklahoma.

A situação adiciona pressão ao setor de carne bovina dos EUA em um contexto de menor oferta de gado, aumento da demanda e, consequentemente, preços mais elevados.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que o consumo doméstico de carne bovina aumente de 26,8 quilos por pessoa em 2025 para 27 quilos por pessoa neste ano, mesmo com os preços em patamares recordes.

Em janeiro, o preço da carne bovina e da vitela subiu 15% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Ainda assim, a projeção do USDA indica que, em 2026, os consumidores americanos deverão registrar o maior consumo per capita de carne bovina em mais de 15 anos.

Além disso, os Estados Unidos devem ampliar as importações de carne bovina em 2026 diante da crise estrutural que atinge a pecuária local, segundo o USDA.

A nova estimativa, divulgada em fevereiro, elevou as compras externas para 2,53 milhões de toneladas, alta de 22,7 mil toneladas em relação ao relatório anterior, enquanto as exportações seguem projetadas em 1,1 milhão de toneladas.

No início deste mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva para ampliar as importações de carne da Argentina — a expectativa é de que o aumento contribua para conter os preços no mercado doméstico.

Crise da carne nos EUA

A crise enfrentada pelos pecuaristas se intensificou nos últimos cinco anos. O setor vive uma contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e menor oferta de animais para confinamento.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos está no menor nível desde 1952, segundo o USDA.

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.

Em 2025, a produção da proteína americana recuou 4% em relação a 2024, para 11,8 milhões de toneladas, o que fez o país perder o posto para o Brasil como o maior produtor mundial de carne bovina.

No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo maior acesso a áreas de pastagem.

Ainda assim, muitos produtores seguem optando por vender os animais para abate, em vez de mantê-los para reprodução, diante de secas prolongadas e altos custos de insumos.

Mesmo com sinais recentes de recomposição, a recuperação é lenta e pode levar de dois a três anos entre o nascimento do bezerro e o abate.

“Esse é um processo lento, pois leva de dois a três anos para criar um bezerro até o abate”, afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.

O ambiente de oferta restrita e margens pressionadas também tem provocado reestruturações na indústria frigorífica.

Neste mês, a Cargill anunciou o fechamento definitivo de sua fábrica de processamento de carne bovina em Milwaukee, Wisconsin, com a eliminação de 221 empregos — a unidade interrompe a produção em meados de abril e encerra as atividades no fim de maio.

A decisão se soma a movimentos recentes de concorrentes. Em dezembro de 2025, a JBS Foods, braço americano da brasileira JBS, informou o encerramento permanente de uma unidade nos arredores de Los Angeles.

Antes disso, a Tyson Foods fechou uma fábrica em Nebraska, citando dificuldades no abastecimento de gado.

Apesar da retração atual, há sinais de ajuste no médio prazo. A projeção de produção para 2026 foi revisada para cima e agora está estimada em 11,76 milhões de toneladas — incremento de 83,9 mil toneladas em relação à previsão anterior, segundo o USDA.

A revisão considera aumento líquido no abate e pesos médios de carcaça acima do esperado no início do ano.

O cenário indica que, mesmo com a continuidade da contração do rebanho, ganhos de produtividade e ajustes no ritmo de abate podem sustentar uma leve recomposição da oferta em 2026 — ainda que o ciclo pecuário siga como o principal vetor de volatilidade do setor.

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