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Crise da carne bovina pode custar até US$ 500 milhões à Tyson Foods em 2026

Alerta da empresa vem em meio a um dos períodos mais delicados para o setor de proteínas nos EUA, que deve registrar queda de 1% em sua produção neste ano

Tyson Foods: Segundo o Departamento de Agricultura americano (USDA), a produção doméstica de carne bovina deve recuar 1% em 2026, totalizando 11,7 milhões de toneladas. (Adam Shrimplin/Reuters)

Tyson Foods: Segundo o Departamento de Agricultura americano (USDA), a produção doméstica de carne bovina deve recuar 1% em 2026, totalizando 11,7 milhões de toneladas. (Adam Shrimplin/Reuters)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 15h59.

As perspectivas para o mercado de carne bovina nos Estados Unidos seguem pouco animadoras — e a Tyson Foods já se prepara para um ano desafiador. A companhia projeta um prejuízo entre US$ 250 milhões e US$ 500 milhões em sua divisão de carne bovina, pressionada pela menor oferta de gado no país.

O alerta da Tyson ocorre em um dos períodos mais delicados para o setor de proteínas nos EUA. Segundo o Departamento de Agricultura americano (USDA), a produção doméstica de carne bovina deve recuar 1% em 2026, totalizando 11,7 milhões de toneladas.

Em 2025, a queda já havia sido mais acentuada: 4% em relação a 2024, com produção de 11,8 milhões de toneladas — o que fez os Estados Unidos perderem para o Brasil o posto de maior produtor mundial de carne bovina.

A projeção do USDA também indica retração nas exportações: a estimativa é de queda de 5,6% neste ano, para 2,4 milhões de toneladas em equivalente carcaça (TEC). Se confirmado, será o segundo ano consecutivo de recuo nas vendas externas da proteína americana.

A divisão de carne bovina da Tyson foi o principal fator de pressão sobre os resultados da companhia no primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, divulgado nesta segunda-feira, 2.

A unidade encerrou o período com prejuízo operacional ajustado de US$ 143 milhões. A margem operacional caiu de 0,1% para −2,4%, refletindo o descompasso entre custos elevados e menor volume de abate.

“O segmento de carne bovina continua enfrentando desafios significativos devido ao fornecimento limitado de animais e à pressão de custos”, afirmou a companhia em comunicado.

Segundo a Tyson, a menor disponibilidade de gado nos EUA compromete a diluição dos custos fixos nas plantas frigoríficas, o que afeta diretamente a rentabilidade da operação.

Mesmo diante desse quadro, a Tyson afirma que segue focada em medidas de eficiência operacional, ajustes de capacidade e disciplina financeira para atravessar o período adverso.

“Estamos concentrados em melhorar os aspectos controláveis do negócio, enquanto navegamos por um dos momentos mais difíceis do ciclo da carne bovina”, disse o CEO Donnie King, em mensagem aos investidores.

Apesar do desempenho fraco na divisão de carne bovina, a Tyson Foods superou as expectativas do mercado no primeiro trimestre do ano fiscal de 2026. A empresa reportou lucro ajustado por ação de US$ 0,97 e receita de US$ 14,31 bilhões — ambos acima das projeções dos analistas.

O resultado foi impulsionado principalmente pela forte expansão da divisão de alimentos preparados, que registrou alta de 7,9% nas vendas, e pelo quinto trimestre consecutivo de aumento no volume de frango.

A receita com frango somou US$ 4,21 bilhões, enquanto a divisão de carne suína apresentou lucro operacional ajustado de US$ 111 milhões.

Carne bovina nos EUA

Um relatório do Santander, divulgado nesta segunda-feira, aponta que o mercado ainda projeta margens relativamente estáveis para a divisão de carne bovina da Tyson Foods em 2026 — uma estimativa que os analistas consideram excessivamente otimista.

“Acreditamos que a visão mais positiva para a divisão de carne bovina da Tyson não se justifica, dado o histórico de margens similares entre Tyson e JBS”, escrevem os analistas Guilherme Palhares e Laura Hirata.

A avaliação do banco destaca que a escassez de gado nos EUA, somada à intensificação da retenção de fêmeas, tende a manter os custos elevados e as margens pressionadas.

“Mesmo com o fechamento de plantas anunciado em novembro de 2025 — uma medida que poderia beneficiar as margens —, a baixa disponibilidade de gado deve continuar prevalecendo”, afirmam.

O Santander adota uma posição neutra para as ações da Tyson, com preço-alvo de US$ 64 ao fim de 2026, praticamente alinhado com a cotação atual de US$ 65,33.

A recomendação reflete a percepção de que os riscos operacionais ainda não estão totalmente incorporados ao preço do papel. “Vemos espaço para uma revisão negativa das estimativas de lucro, especialmente na divisão de carne bovina nos EUA”, reforçam os analistas.

No contexto da crise da carne bovina nos Estados Unidos, a Tyson anunciou, no ano passado, o fechamento de sua unidade em Nebraska, com a previsão de demissão de 3.200 funcionários nos próximos meses.

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