Colheita da soja: a trabalhos da safra 2025/26 alcançou 16% da área cultivada até quinta-feira. (Wenderson Araujo/CNA/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 11h19.
A colheita da soja no Brasil segue em ritmo acelerado, mesmo com o El Niño no radar. Segundo dados da AgRural, a colheita da safra 2025/26 alcançou 16% da área cultivada até quinta-feira, 5, avanço em relação aos 10% registrados na semana anterior e ligeiramente acima dos 15% observados no mesmo período do ano passado.
Os trabalhos foram impulsionados principalmente por Mato Grosso, maior produtor do país. Apesar das chuvas mais intensas na semana passada, os produtores do estado conseguiram avançar com a colheita nos períodos mais firme, mantendo o bom ritmo das operações.
O estado, inclusive, deve voltar a colher uma safra robusta, estimada em 50,5 milhões de toneladas, de acordo com projeção atualizada do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea).
A produtividade média esperada foi reajustada para 64,73 sacas por hectare, alta de 7,06% em relação à estimativa anterior.
Para as próximas semanas, o cenário climático em Mato Grosso continua majoritariamente favorável, com expectativa de manutenção no ritmo da colheita.
As preocupações, no entanto, se concentram no Rio Grande do Sul, um dos principais estados produtores do grão.
Segundo a AgRural, a estiagem e o calor intenso seguem preocupando o estado e também o sul de Mato Grosso do Sul, onde as condições climáticas em fevereiro serão decisivas para o desempenho da safra.
O El Niño entrou no radar do agronegócio brasileiro e do mercado para a safra 2025/26.
Segundo estimativas da StoneX, consultoria de commodities, a La Niña fraca instalada em outubro de 2025 deve perder intensidade ao longo do verão, com retorno à neutralidade do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENSO) previsto para março deste ano.
O El Niño é um fenômeno climático global caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera os padrões de vento e a circulação atmosférica. Essas mudanças afetam diretamente o clima no Brasil e, consequentemente, a agricultura e o desempenho das safras.
No Sul do país, o El Niño costuma provocar chuvas acima da média, o que pode atrasar o plantio e a colheita, além de aumentar a incidência de doenças fúngicas e o encharcamento do solo. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul são um exemplo recente desses impactos.
No Norte e no Nordeste, por outro lado, o fenômeno tende a reduzir as precipitações, favorecendo períodos prolongados de seca que afetam lavouras como milho, feijão e mandioca, além das pastagens destinadas à pecuária.
Para o BTG, o El Niño pode se tornar um dos principais vetores de pressão sobre a inflação de alimentos no primeiro semestre de 2026. Em seu relatório Macro Mensal de janeiro, o banco afirma que o fenômeno climático está no radar dos analistas para a safra brasileira.
“As condições climáticas causadas pelo El Niño seguem como ponto de atenção para a safra 2025/2026”, diz o documento.
Combinado à incerteza fiscal e à volatilidade cambial, o El Niño passa a ser monitorado também sob a ótica dos preços.
“A instabilidade climática gerada pelo El Niño pode representar um vetor altista adicional para os preços de alimentos ao longo do 1º semestre de 2026”, diz o documento.
O impacto, segundo o banco, deve ser mais perceptível em produtos in natura e grãos, cujas cadeias produtivas são mais sensíveis a choques de oferta.