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Com crise da carne, exportações dos EUA caem 95% em 2026 — e a tendência é piorar

Ao mesmo tempo, o país tem ampliado as importações para equilibrar a oferta interna

Carne nos EUA: como consequência, a projeção anual de exportações foi revisada para 1,07 milhão de toneladas, uma queda de 8% na comparação anual. (Getty Images)

Carne nos EUA: como consequência, a projeção anual de exportações foi revisada para 1,07 milhão de toneladas, uma queda de 8% na comparação anual. (Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 16 de abril de 2026 às 12h51.

As exportações de carne bovina dos Estados Unidos enfrentam uma forte queda neste ano, puxadas principalmente pelo colapso das vendas para a China. Em janeiro e fevereiro, os embarques da proteína para o país asiático caíram 95% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgados nesta quinta-feira, 16.

Segundo o relatório, as exportações caíram para 1,86 mil toneladas no período após entraves regulatórios que afetaram a habilitação de plantas norte-americanas — o impacto foi imediato no desempenho geral do setor externo.

Além disso, a imposição de cotas chinesas para importação mexeu com a dinâmica do setor pecuário americano. Em dezembro de 2025, o país asiático impôs tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos, caso os embarques ultrapassem os limites estabelecidos.

Segundo o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), a cota total para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao país asiático, ficou com a maior fatia: 41,1%, o equivalente a 1,1 milhão de toneladas, enquanto os EUA ficaram com 164 mil toneladas.

E a tendência é de piora. Como consequência, a projeção anual de exportações foi revisada para 1,07 milhão de toneladas, uma queda de 8% na comparação anual. Outros mercados relevantes para os EUA, como Japão, Coreia do Sul e México, também registraram recuo nos embarques.

Ao mesmo tempo, o país tem ampliado as importações para equilibrar a oferta interna. Nos dois primeiros meses de 2026, o volume importado foi 13% maior que no mesmo período do ano passado. A expectativa é de que as compras externas alcancem 2,63 milhões de toneladas, quase 6% acima de 2025.

O avanço das importações tem sido impulsionado por fornecedores alternativos. Países como Paraguai, Argentina e Nicarágua mais que dobraram suas vendas para os Estados Unidos, contribuindo de forma significativa para o aumento do volume total.

Apesar da retração nos principais destinos, alguns mercados apresentaram crescimento relevante. As exportações para Taiwan avançaram 19%, enquanto Hong Kong registrou alta de 110% no período analisado.

Além disso, países fora do grupo dos principais compradores também ampliaram suas aquisições, incluindo Indonésia, Emirados Árabes Unidos e países da União Europeia. O movimento indica uma tentativa de diversificação diante das perdas no mercado chinês.

Tyson Foods

A situação adiciona ainda mais pressão ao setor de carne bovina dos EUA em um contexto de menor oferta de gado, aumento da demanda e, consequentemente, preços mais elevados.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que o consumo doméstico de carne bovina aumente de 26,8 quilos por pessoa em 2025 para 27 quilos por pessoa neste ano, mesmo com os preços em patamares recordes.

Em 2025, a produção da proteína americana recuou 4% em relação a 2024, para 11,8 milhões de toneladas, o que fez o país perder o posto para o Brasil como o maior produtor mundial de carne bovina.

Como resultado, a Tyson Foods, gigante de proteínas, anunciou no final de março que fechará sua fábrica em Rome, na Geórgia. Ao todo, 168 demissões ocorrerão no processo. O encerramento das atividades está previsto para 31 de maio. Em nota, a multinacional lamentou a situação.

Em novembro de 2025, a companhia anunciou que fecharia o frigorífico de Lexington, em Nebraska, em 20 de janeiro. Neste ano, a empresa iniciou o processo de demissão de cerca de 3.200 funcionários que trabalhavam na unidade.

Além da Tyson, JBS e Cargill também interromperam sua produção.

Segundo o USDA, a produção de carne bovina foi revisada levemente para baixo. O órgão estima um total de “11,70 milhões de toneladas, 20 milhões abaixo da projeção anterior”.

A redução está associada ao ritmo mais lento de abates observado nos últimos meses. Ainda assim, o impacto tem sido parcialmente compensado pelo aumento no peso das carcaças, que atingiram níveis recordes.

O relatório destaca que “cerca de 91% mais gado foi mantido por mais de 180 dias”, o que contribui para elevar o volume produzido mesmo com menor número de abates.

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