Painel do SuperAgro 2026, realizado na Exame em 11 de agosto. (Eduardo Frazão/Divulgação)
Jornalista
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 09h52.
O Brasil reúne condições para ampliar sua participação no mercado global de biocombustíveis, apoiado pela disponibilidade de matérias-primas, tecnologia e capacidade de produção. Mas, para transformar essa vantagem em investimentos e conquistar novos mercados, o setor ainda precisa enfrentar dois desafios: dar maior previsibilidade ao ambiente regulatório doméstico e superar barreiras não tarifárias no exterior. A avaliação foi compartilhada por participantes de painel sobre o futuro dos biocombustíveis no evento SuperAgro 2026, promovido pela Exame e conduzido por Luciano Pádua, editor de macroeconomia da revista.
Para Filipe Alvarez de Oliveira, sócio de Sustentabilidade da União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), o potencial vai muito além do mercado tradicional de biodiesel e etanol. O combustível sustentável de aviação (SAF), o biocombustível marítimo e novas aplicações do etanol podem abrir importantes avenidas de crescimento.
Filipe Alvarez de Oliveira, sócio de Sustentabilidade da União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) (Eduardo Frazão/Divulgação)
O SAF, porém, exige investimentos elevados. “Uma planta SAF, na média, custa US$ 1,5 bilhão”, afirmou Oliveira. Segundo ele, o tamanho do investimento torna fundamental a existência de contratos de longo prazo de compra do combustível. “Se o produtor não tem o off-take na mão para ir ao banco para ser financiado, não consegue o recurso.”
O executivo, que já foi head de sustentabilidade da Azul Linhas Aéreas, lembra que as companhias no Brasil não teriam capacidade de demandar todo o combustível produzido em plantas que, necessariamente, precisam ser maiores. “Teríamos que olhar para o exterior, achar locais para exportarmos o excedente, mas as barreiras não tarifárias são um obstáculo relevante, especialmente na Europa.” O executivo defende que o Brasil amplie a discussão técnica e científica sobre a sustentabilidade de suas matérias-primas e fortaleça a estratégia de inserção internacional. “Brasil tem lição de casa em trazer a discussão técnica de política pública para o advocacy internacional”, disse.
A disponibilidade de matérias-primas e o avanço da produção de segunda safra colocam o Brasil em posição privilegiada, segundo Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa. A empresa atua em diferentes mercados, incluindo óleo vegetal, etanol e matérias-primas para combustíveis renováveis. “O Brasil tem vantagem absurda, a safrinha é ativo nacional”, afirmou. Segundo Zicardi, cerca de 40% da soja plantada já ocorre na segunda safra, enquanto a produção de milho cresceu fortemente na última década.
Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa (Eduardo Frazão/Divulgação)
O executivo vê no mercado marítimo uma das principais oportunidades de expansão para o etanol. Segundo ele, testes com motores capazes de utilizar o combustível apontam para uma alternativa de descarbonização do transporte marítimo. A dimensão potencial desse mercado é expressiva. De acordo com Zicardi, se o transporte marítimo utilizasse 10% de etanol, seria criada uma demanda adicional de cerca de 60 bilhões de litros. “Não conseguiríamos hoje atender. Teríamos que nos esforçar para produzir mais.”
Para Carlos Cogo, sócio-diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio, a discussão sobre biocombustíveis também mudou de natureza. Além da questão ambiental, o combustível renovável passou a ser visto como um ativo estratégico diante das tensões geopolíticas. “Não há conflito entre alimentação e biocombustível”, afirmou Cogo. Na avaliação dele, guerras e instabilidades no mercado internacional reforçaram a importância da segurança energética e ampliaram o papel dos biocombustíveis.
O Brasil, segundo o consultor, possui uma estrutura produtiva capaz de sustentar esse avanço. São 368 usinas de etanol, incluindo unidades de milho e cana, além de 58 usinas de biodiesel, com produção anual de aproximadamente 63 bilhões de litros de etanol e 16 bilhões de litros de biodiesel.
Carlos Cogo, sócio-diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio (Eduardo Frazão/Divulgação)
Cogo também destaca os efeitos econômicos indiretos da expansão dos biocombustíveis. O aumento da produção de biodiesel amplia a demanda por soja e, consequentemente, a oferta de farelo para a produção de proteína animal. No etanol de milho, o DDG, coproduto da produção, também agrega valor à cadeia. “Está se criando uma riqueza ao redor”, afirmou.
Apesar das oportunidades, os participantes apontaram a instabilidade regulatória como um dos principais riscos para a expansão do setor. O debate em torno das misturas obrigatórias de biodiesel no diesel, como B15, B16 e B25, pode afetar a percepção de risco dos investidores. Hoje, a mistura está em B15, com 15% de biodiesel adicionado ao diesel, e os debates sobre avançar para B16 se arrastam. Para Oliveira, a questão é especialmente relevante para atrair capital internacional. “O problema é que caminhamos para um terreno de insegurança jurídica e institucional, o que afeta o apetite de investimento”, afirmou, referindo-se ao cenário regulatório.
Segundo ele, o Brasil precisa transformar sua vantagem produtiva em uma narrativa sustentada por evidências técnicas. “Não vai existir transição energética sem biocombustível”, disse.
Ao mesmo tempo, o avanço do setor dependerá da capacidade de encontrar novas fontes de demanda. Zicardi cita o uso do etanol de milho para finalidades químicas, produção de bioplásticos, além do chamado álcool-to-jet, tecnologia que transforma álcool em SAF. No curto prazo, porém, ele considera o transporte marítimo a principal nova fronteira para o combustível.
O cenário externo adiciona outra camada de incerteza. Para Cogo, além das barreiras não tarifárias, o Brasil terá de acompanhar mudanças nas políticas comerciais de grandes compradores. “O risco é marco regulatório, barreiras não tarifárias, estratégicas, vem crescendo”, afirmou.