Tecnologia

Por que a geração Z trocou os smartphones pela câmera digital

Categoria que os smartphones quase extinguiram cresceu até 148% em remessas globais e virou aposta de Sony, Canon e Fujifilm

Câmera digital: gen Z voltou a usar aparelho que era moda nos anos 2000 (Imagem gerada por IA/Exame)

Câmera digital: gen Z voltou a usar aparelho que era moda nos anos 2000 (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 10 de julho de 2026 às 06h01.

A câmera digital compacta, dada como morta pelos smartphones, voltou a crescer. Em 2025, as vendas globais dessas digicams de lente fixa alcançaram 2,44 milhões de unidades, o maior patamar desde 2021, segundo a Camera & Imaging Products Association (CIPA), associação que reúne fabricantes como Sony, Canon, Nikon e Fujifilm.

Foi uma alta de cerca de 30% ante 2024, em um mercado que vinha encolhendo havia mais de uma década.

O motor da retomada é a geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), que transformou um aparelho de segunda mão em item de desejo.

A demanda ficou tão concentrada nesse público que revitalizou um mercado inteiro — de lojas de usados a lançamentos das grandes marcas —, movido por um paradoxo: os jovens querem exatamente a imagem imperfeita que a indústria passou 20 anos tentando eliminar.

Quando a imperfeição vira o produto

O que atrai a geração Z é justamente o que, pelos padrões técnicos atuais, seria considerado defeito.

As câmeras antigas produzem imagens de alto contraste, cores levemente distorcidas e um efeito de névoa natural sob o flash forte — resultado dos sensores CCD, mais velhos, que equipam esses aparelhos.

Enquanto o smartphone cristaliza o momento em altíssima resolução, a câmera digital quase o envelhece na hora. Para uma geração cujas fotos de infância são quase todas granuladas e pixeladas, esse visual soa mais autêntico do que qualquer imagem tratada por algoritmo. A foto deixa de ser um registro perfeito e vira um objeto afetivo.

Longe do auge, mas em plena recuperação

Os números ainda estão longe da era de ouro do formato. Em 2010, mais de 108 milhões de compactas foram embarcadas no mundo — as vendas de 2025 representam uma fração disso.

Mas a direção mudou. Depois de anos de queda livre, 2024 marcou a primeira alta, com 1,88 milhão de unidades, e 2025 confirmou a retomada.

A recuperação tem sotaque jovem e viral. As Américas se tornaram o maior mercado de compactas, e modelos como a Fujifilm X100 e a linha Ricoh GR passaram a esgotar e a acumular meses de fila de espera, empurrados pela popularidade nas redes sociais.

A tendência que nasceu nas redes

O movimento se espalhou pelo TikTok, onde as hashtags #digitalcamera e #digicam acumulam milhões de vídeos e bilhões de visualizações de jovens exibindo suas máquinas e os resultados granulados.

O curioso é que boa parte deles sequer nascera quando essas câmeras dominavam festas e viagens.

O apelo, nesse caso, não é a memória pessoal, mas a estética Y2K — a onda retrô dos anos 2000 que tomou a moda, a música e agora a fotografia.

Uma pesquisa da consultoria GWI mostrou que metade da geração Z afirma sentir nostalgia por formas de mídia do passado, o que ajuda a explicar por que um dispositivo obsoleto voltou às prateleiras.

As marcas voltam a apostar no antigo

De olho na tendência, as fabricantes passaram a lançar modelos que privilegiam a estética retrô em vez dos recursos de ponta. A Fujifilm apresentou a X half, uma digicam minúscula de US$ 849 com simulações de filmes antigos.

A Ricoh anunciou uma nova câmera de rua compacta, com presets retrô, por quase US$ 1.500.

O mercado de usados também aquece. Em polos como a região da Santa Ifigênia, em São Paulo, modelos antigos voltaram a dividir prateleiras com câmeras de última geração e vendem rápido, mesmo com preços altos. Uma Sony Cyber-shot pode custar algumas centenas de reais, e há até quem venda máquinas quebradas apenas para decoração.

Uma tecnologia que faz só uma coisa

No fundo, o retorno da câmera digital se conecta a um desejo maior da geração Z: o de cortar distrações. Sem aplicativos, sem notificações e sem rolagem infinita, a digicam faz uma coisa só — tirar foto. Para quem cresceu sob o bombardeio de telas, essa limitação virou um atrativo, não um defeito.

É o mesmo raciocínio que explica a volta dos fones de ouvido com fio.

Em um mundo em que todo dispositivo tenta virar plataforma, o aparelho que faz exatamente o que fazia há 20 anos passou a soar, para a geração mais nova, como a escolha mais moderna de todas.

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