Câmera digital: gen Z voltou a usar aparelho que era moda nos anos 2000 (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 10 de julho de 2026 às 06h01.
A câmera digital compacta, dada como morta pelos smartphones, voltou a crescer. Em 2025, as vendas globais dessas digicams de lente fixa alcançaram 2,44 milhões de unidades, o maior patamar desde 2021, segundo a Camera & Imaging Products Association (CIPA), associação que reúne fabricantes como Sony, Canon, Nikon e Fujifilm.
Foi uma alta de cerca de 30% ante 2024, em um mercado que vinha encolhendo havia mais de uma década.
O motor da retomada é a geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), que transformou um aparelho de segunda mão em item de desejo.
A demanda ficou tão concentrada nesse público que revitalizou um mercado inteiro — de lojas de usados a lançamentos das grandes marcas —, movido por um paradoxo: os jovens querem exatamente a imagem imperfeita que a indústria passou 20 anos tentando eliminar.
O que atrai a geração Z é justamente o que, pelos padrões técnicos atuais, seria considerado defeito.
As câmeras antigas produzem imagens de alto contraste, cores levemente distorcidas e um efeito de névoa natural sob o flash forte — resultado dos sensores CCD, mais velhos, que equipam esses aparelhos.
Enquanto o smartphone cristaliza o momento em altíssima resolução, a câmera digital quase o envelhece na hora. Para uma geração cujas fotos de infância são quase todas granuladas e pixeladas, esse visual soa mais autêntico do que qualquer imagem tratada por algoritmo. A foto deixa de ser um registro perfeito e vira um objeto afetivo.
Os números ainda estão longe da era de ouro do formato. Em 2010, mais de 108 milhões de compactas foram embarcadas no mundo — as vendas de 2025 representam uma fração disso.
Mas a direção mudou. Depois de anos de queda livre, 2024 marcou a primeira alta, com 1,88 milhão de unidades, e 2025 confirmou a retomada.
A recuperação tem sotaque jovem e viral. As Américas se tornaram o maior mercado de compactas, e modelos como a Fujifilm X100 e a linha Ricoh GR passaram a esgotar e a acumular meses de fila de espera, empurrados pela popularidade nas redes sociais.
O movimento se espalhou pelo TikTok, onde as hashtags #digitalcamera e #digicam acumulam milhões de vídeos e bilhões de visualizações de jovens exibindo suas máquinas e os resultados granulados.
O curioso é que boa parte deles sequer nascera quando essas câmeras dominavam festas e viagens.
O apelo, nesse caso, não é a memória pessoal, mas a estética Y2K — a onda retrô dos anos 2000 que tomou a moda, a música e agora a fotografia.
Uma pesquisa da consultoria GWI mostrou que metade da geração Z afirma sentir nostalgia por formas de mídia do passado, o que ajuda a explicar por que um dispositivo obsoleto voltou às prateleiras.
De olho na tendência, as fabricantes passaram a lançar modelos que privilegiam a estética retrô em vez dos recursos de ponta. A Fujifilm apresentou a X half, uma digicam minúscula de US$ 849 com simulações de filmes antigos.
A Ricoh anunciou uma nova câmera de rua compacta, com presets retrô, por quase US$ 1.500.
O mercado de usados também aquece. Em polos como a região da Santa Ifigênia, em São Paulo, modelos antigos voltaram a dividir prateleiras com câmeras de última geração e vendem rápido, mesmo com preços altos. Uma Sony Cyber-shot pode custar algumas centenas de reais, e há até quem venda máquinas quebradas apenas para decoração.
No fundo, o retorno da câmera digital se conecta a um desejo maior da geração Z: o de cortar distrações. Sem aplicativos, sem notificações e sem rolagem infinita, a digicam faz uma coisa só — tirar foto. Para quem cresceu sob o bombardeio de telas, essa limitação virou um atrativo, não um defeito.
É o mesmo raciocínio que explica a volta dos fones de ouvido com fio.
Em um mundo em que todo dispositivo tenta virar plataforma, o aparelho que faz exatamente o que fazia há 20 anos passou a soar, para a geração mais nova, como a escolha mais moderna de todas.