Facebook enfrenta dilema entre agradar seus funcionários ou seus usuários

Mark Zuckerberg vem sendo pressionado internamente para tomar ações mais duras contra o governo de Donald Trump. E isso não agrada quem usa a rede social

No dia 16 de julho deste ano, Mark Zuckerberg precisou dar aos funcionários do Facebook uma resposta atípica da que estava acostumado. A questão não era em relação ao futuro da rede social no que envolvem mudanças de comportamento dos internautas e a crescente onda de notícias falsas que é disseminada digitalmente por suas plataformas. Também não tinha qualquer relação com o papel da companhia na corrida presidencial americana. A dúvida era quase banal: o fim das comidas gratuitas.

Desde que a companhia de Menlo Park anunciou que seus funcionários passariam a trabalhar remotamente como forma de evitar a propagação do vírus SARS-CoV-2, responsável pelo novo coronavírus, os empregados de uma das maiores empresas de tecnologia do planeta passaram a conviver com um problema incomum. Antes, quando trabalhavam nos escritórios da companhia, podiam se servir de comida gratuita quando bem sentissem vontade.

O problema é que com o isolamento social, não há mais escritório para ir e, consequentemente, não existe mais almoço grátis (e nem café da manhã, lanche ou jantar). “Um grande atrativo para os candidatos é que nossas vantagens de escritório incluem comida de graça. Com o trabalho de casa, perdemos uma grande parte financeira do nosso pacote. Qual é o plano sobre isso?”. Essa foi a pergunta, selecionada por votação entre diversas outras, para ser respondida pelo executivo.

“Certamente não vi nenhum dado que sugira que comida de graça está perto da lista das principais razões pelas quais as pessoas vêm para trabalhar nesta empresa. Espero que não. Espero que se você estiver assistindo a isso, e imagino que esteja aqui por alguma combinação de razões em torno da missão da empresa, o impacto que podemos ter no mundo”, disse Zuckerberg durante uma videoconferência para os funcionários do Facebook, algo feito semanalmente.

O problema é que se Zuckerberg está tão próximo de resolver questões mais sérias em relação ao futuro da empresa como de dar um fim na crise da falta de comida grátis aos funcionários que se instaurou no Facebook. Publicada nesta quarta-feira (23), uma reportagem do site americano The Verge mostra que a rede social que se tornou a principal plataforma de interação digital da atualidade precisará fazer escolhas importantes em um futuro não tão distante. E elas não irão agradar a todos.

Muito além do almoço grátis

Nos últimos meses, os encontros virtuais semanais de Zuckerberg com seus funcionários tem sido tomados por questões que envolvem, por exemplo, o papel da rede social no combate ao racismo. Meses atrás, o executivo não apagou uma postagem polêmica do presidente Donald Trump na rede social em que ameaçava os manifestantes do movimento Black Lives Matter, que ressurgiu após a morte de George Floyd, asfixiado durante uma ação policial nos Estados Unidos.

Os funcionários se preocuparam. A dor de cabeça era de que seus trabalhos estariam contribuindo para que comportamentos como o de Trump fossem tolerados na internet. A resposta de Zuckerberg sobre o caso, não deletando a postagem do presidente americano, não agradou seus subalternos. Vale lembrar que a postagem foi inicialmente feita no Twitter (e replicada automaticamente no Facebook), que informa que o conteúdo infringe as regras da plataforma, mas é de interesse público.

Ao The Verge, funcionários do Facebook, que permanecem anônimos, relataram o sentimento de tomar um golpe duro com a decisão. Um deles afirmou que é “muito difícil levar a sério as palavras de apoio de nossa liderança se permitirmos conteúdo com este em nossa plataforma”. A justificativa do Facebook se baseia em uma premissa de imparcialidade. “Temos que ser uma plataforma neutra e tomar essas decisões partindo de regras e princípios”, disse Sheryl Sandberg, aos funcionários, em um encontro anual da executiva nº2 da companhia com os trabalhadores.

A perigosa política de neutralidade adotada pelo Facebook não agrada quem trabalha na companhia e nem quem usa. Ao mesmo tempo em que lida com reclamações de funcionários sobre a falta de um papel moderador mais atuante, Zuckerberg sabe que as decisões da companhia sobre o conteúdo publicado na plataforma são vistas como rigorosas demais por um público mais conservador que utiliza o Facebook. A principal reclamação feita à companhia se dá em relação às postagens deletadas na rede social.

“A comunidade que servimos tende a ser, em média, ideologicamente um pouco mais conservadora do que nossa base de funcionários. Talvez “um pouco” seja um eufemismo”, disse Zuckerberg aos seus funcionários em uma das reuniões semanais.

As críticas dos funcionários são também as de grupos ativistas que não concordam com as políticas adotadas pelo Facebook e pedem um maior controle em relação ao que pode ou não ser publicado. Grupos passaram a pressionar empresas para boicotarem a rede social, o que poderia afetar a receita da companhia, que ganha dinheiro basicamente com a venda de anúncios na plataforma. Mais de 150 empresas já aderiram ao movimento. Entre elas, gigantes como Coca-Cola e Unilever.

Mas este movimento é ainda ínfimo. Mesmo com cortes de mais de 1 milhão de dólares dessas gigantes, o Facebook, que tem mais de 9 milhões de anunciantes, mal sentiu o golpe. “Não vamos mudar nossas políticas ou abordagem em nada por causa de uma ameaça a uma pequena porcentagem de nossa receita ou a qualquer percentual de nossa receita", disse Zuckerberg, conforme reportado pelo site The Information. “Meu palpite é que todos esses anunciantes estarão de volta à plataforma em breve.”

Zuckerberg se apoia em números. E os números são positivos. Os anunciantes irão voltar para a plataforma porque a plataforma atrai cada vez mais consumidores. Nos resultados trimestrais da companhia no segundo trimestre deste ano, o Facebook viu sua base de usuários – contabilizada em todas as plataformas em que opera – aumentar 14% para 3,1 bilhões de pessoas. Ao mesmo tempo, dobrou o lucro e viu a receita subiu 11% em relação ao mesmo período do ano passado e chegou em 18,7 bilhões de dólares.

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