Com inteligência artificial e força chinesa, vigilância cresce no mundo

Do descaso à privacidade aos avanços da tecnologia, mercado global de monitoramento se torna aposta de empresas de tecnologia

São Paulo – Sorria, você está sendo filmado. E continuará a ser por muitos anos. E em cada vez mais lugares. Estudos de consultorias internacionais estimam um aumento na venda de dispositivos de monitoramento equipados com recursos de inteligência artificial. Principalmente aqueles fabricados na China e que hoje já são vendidos e utilizados em dezenas de países de todo o planeta.

Segundo dados da consultoria americana IDC, o mercado chinês de vigilância movimentou 10,6 bilhões de dólares em 2018. Mais da metade deste valor veio dos cofres do próprio governo da China – criticada no ocidente por abusos cometidos contra direitos humanos e de privacidade de seus cidadãos.

Entre as vendas, destaque para as câmeras de segurança. Mais modernas e equipadas com recursos de inteligência artificial, esses dispositivos de monitoramento devem rechear o bolso de suas fabricantes nos próximos anos, conforme aponta a empresa de pesquisas britânica IHS Markit.

Antecipada pelo The Wall Street Journal, a pesquisa mostra que o número de câmeras de segurança deverá superar a marca de 1 bilhão de unidades até o fim de 2021. É um aumento 30% em relação às 770 milhões de câmeras disponibilizadas atualmente.

“A cobertura do mercado de vigilância está fortemente concentrada na implantação massiva de câmeras e de tecnologia de inteligência artificial desenvolvida na China”, diz Oliver Philippou, analista da IHS Markit. O temor do mercado é que um debate rigoroso sobre o uso desses dispositivos em relação à privacidade das pessoas impacte as vendas negativamente.

Entre os compradores há uma curiosidade. O percentual de países de que utilizam técnicas de inteligência artificial para realizar o monitoramento de seus cidadãos varia de acordo com os regimes políticos adotados. A tecnologia é mais adotada em países com estado democrático de direito do que em nações com regimes autocráticos, como na Rússia. No primeiro caso, o percentual de uso é de 51%, enquanto no segundo a fatia é de apenas 37%.

Vigilância nacional

O estudo da IHS Markit traz outra curiosidade: países em desenvolvimento e que observam um rápido crescimento populacional também devem se tornar importantes mercados para as indústrias do setor. É o caso de Índia, Indonésia e Brasil.

Por aqui, as fabricantes seguem aproveitando a maré alta do setor de segurança eletrônica. Nos últimos cinco anos, as vendas de produtos como câmeras, microfones, alarmes, entre outros, cresceram 40% no País, o que registrou faturamento de 6,5 bilhões de reais em 2018.

Há potencial para crescer mais. Apenas 1% dos mais de 300 mil condomínios contam com equipamentos deste tipo, segundo Selma Migliori, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança, em reportagem veiculada em agosto deste ano pela revista Exame.

As empresas do setor sabem disso. E a Intelbras talvez seja a principal delas. Do faturamento de 406 milhões de dólares em 2018, a companhia catarinense investiu 6% deste valor em desenvolvimento e pesquisa de novos produtos, divisão que conta com mais de 300 engenheiros.

Parte deste valor foi incorporado em produtos que utilizam inteligência artificial. Nesta área, a fabricante fundada em 1976 e com sede na cidade de São José trabalha com câmeras capazes de identificar informações de placas, cores e tipos de veículos, movimentos anormais que podem caracterizar o início de uma briga e até mesmo o comportamento suspeito de pessoas paradas ou circulando com frequência na frente de escolas e bancos.

"Por fabricamos os produtos no Brasil, eles são muito mais eficientes para o cidadão brasileiro", afirma Thiago Henrique, analista de negócios da Intelbrás ao ser questionado sobre a ameaça chinesa. "Queremos ter a melhor câmera de reconhecimento facial para o brasileiro."

A competição em território nacional se dá justamente com uma rival chinesa, a Huawei. Conhecida como "lobo chinês", a companhia é uma das gigantes deste mercado. Com faturamento de 8,6 bilhões de dólares nos primeiros nove meses deste ano, alta de 24,4% em relação ao mesmo período do ano passado, a fabricante de Shenzhen já disponibiliza produtos de monitoramento para pelo menos 50 países em todo o planeta.

Para efeito de comparação, de acordo com dados da Carnegie Endowment for International Peace disponibilizados pela plataforma Statista, empresas americanas como IBM, Palantir e Cisco exportam seus dispositivos de monitoramento para 11, 9 e 8 países respectivamente.

Em dezembro do ano passado, a fabricante chinesa recebeu 18 milhões de reais para fornecer tecnologia de monitoramento em inteligente em Salvador. O investimento tinha o objetivo de reduzir a taxa de criminalidade da cidade, que em 2018 registrou 1.245 mortes, tornando-se a nona capital mais perigosa do País.

A tecnologia empregada atua com reconhecimento facial e big data. Um banco de dados com fotos de mais de 65 mil pessoas é comparado com imagens capturadas pelas câmeras de segurança. Caso os equipamentos visualizem algum suspeito, o sistema envia um alerta para autoridades policiais informando o local e as características da pessoa filmada.

Até o começo de setembro deste ano, graças a tecnologia, a polícia soteropolitana foi capaz de prender 63 pessoas acusadas de crimes de homicídio, tráfico de drogas e estupro.

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