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Um salto de fé: por que investir em renda variável nos próximos anos

Há 12 anos o Ibovespa perde para CDI, poupança e inflação. É hora de reconhecer erros, ajustar posições e ir em frente

Criamos nossa borracharia em novembro de 2009. Não foi um período propriamente fácil para falar de ações. Desde a criação da Empiricus, há 12 anos, o Ibovespa acumula alta de 70,32%. O CDI, benchmark da renda fixa, sobe 173,37%, enquanto a inflação, medida pelo IPCA, marca 98,53%. A tão criticada poupança, cujos rendimentos são isentos de IR, oferece retorno de 122,25% no período. O principal índice de ações do Brasil perde para a inflação no período e para a renda fixa tradicional. Veja: 12 anos é longo prazo. Isso fere a noção típica de que ativos de mais risco, como as ações, deveriam oferecer maior retorno no longo prazo diante daqueles de menos risco, como a renda fixa.

Sob a abordagem lógica dedutiva típica do método científico, podemos oferecer três possíveis explicações para o fenômeno. A primeira estaria ligada à baixa qualidade do Ibovespa. Ele seria uma má representação do comportamento médio das ações brasileiras. Com efeito, com peso excessivo em bancos e ­commodities, o benchmark, de fato, não corresponde exatamente à média de todo o mercado acionário.

Contudo, se pegássemos outros índices de ações não chegaríamos a conclusões muito diferentes de que, na média, a renda variável ofereceu retornos insuficientes para compensar seu maior risco. O ­IBX-100, por exemplo, sobe 126% no intervalo. Ademais, embora impreciso, o Ibovespa ainda é nossa principal referência em ações. Apesar de suas imperfeições, não podemos descartá-lo. Pelo menos ele oferece uma boa simplificação do comportamento das ações que o compõem, por construção.

Uma segunda possível explicação seria: ações não são um bom investimento no Brasil, pois carregam mais risco e pagam menos do que a renda fixa, mesmo no longo prazo. Qual é o problema desse argumento? Em sendo o caso, estaríamos ferindo a ideia de que os mercados são minimamente eficientes. A bolsa brasileira estaria em desarranjo ao comportamento prescrito por toda a teoria moderna de finanças. Seríamos uma espécie de aberração. Somente mercados muito ineficientes poderiam ter prêmios de risco negativos. Ou seja, ativos de maior risco pagando menos do que ativos de menos risco no longo prazo.

Em mercados eficientes, essa distorção seria percebida e não haveria demanda pelo tal ativo de risco. Ele ficaria muito barato e voltaria a oferecer bons retornos no futuro. Pode ser que a bolsa brasileira seja estruturalmente ruim. Mas, como um defensor dos mercados e da atividade empresarial, que vê o valor de uma sociedade sendo gerado no setor privado e no empreendedorismo, não consigo acreditar no argumento. Suspeito também de que não seja a crença dos leitores da EXAME, cuja tradição estimulou o desenvolvimento dos mercados.

Assumindo, portanto, que não somos uma anomalia global, até porque há interconectividade entre os mercados, chegamos à terceira possibilidade: esse foi um período circunstancialmente ruim, em que as ações ficaram defasadas e estariam agora descontadas. Eu sei, caro leitor: não é simples convencê-lo da atratividade da bolsa neste momento. Infelizmente, olhamos para o passado para tentar antever o futuro. Se foi ruim antes, estamos condenados à frente? Com todos machucados pela queda das ações, ninguém quer saber delas. Mas uma ação em baixa não estaria agora mais barata e, portanto, mais atraente? A lição elementar das finanças não é comprar barato e vender caro?

Havemos de nos libertar do passado, sem nos prender às cicatrizes. Nas apresentações de sua peça As Moscas aos alemães, Jean-Paul Sartre foi perguntado se esse povo poderia seguir em frente depois da tragédia do Holocausto. Respondeu de maneira que nos pode ser útil: “Para os alemães, também, penso que o remorso não faz sentido. Não digo que devam simplesmente varrer da memória os erros do passado. Não.

Mas tenho certeza de que não ganharão o perdão que o mundo lhes pode dar apenas mostrando um arrependimento obsequioso. Irão ganhá-lo com o engajamento total e sincero num futuro de liberdade e trabalho, com o firme desejo de construir esse futuro e com a presença do maior número possível de homens de boa vontade entre eles. Talvez a peça possa, se não levá-los a esse futuro, pelo menos encorajá-los nessa direção.”

O mercado não é um muro de lamentações. O bom investidor aceita as imposições do destino e olha para a frente. Amor fati. A vida, em si, é um salto de fé, como nos lembra Kierkegaard. Assim também é o mercado de ações. Não um salto de fé cego, desprovido de fundamentação. Mas uma perspectiva arejada de que não estamos condenados a repetir erros e prejuízos do passado.

Ray Dalio, gestor do gigante Bridgewater, insiste em que os mercados caminham em ciclos, tradicionalmente invertendo tendências a cada dez anos. George Soros faz uma autoanálise identificando não possuir nenhuma habilidade especial para acertar mais do que os outros; sua grande virtude, segundo o próprio, está na capacidade de reconhecer erros e ajustar posições, sempre olhando para a frente.

Rocky Balboa oferece uma lição valiosa: “Não importa quanto você bate, e sim quanto aguenta apanhar e continuar. Quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha.” Resiliência é uma virtude rara. E a mais essencial ao investidor neste momento.  

 (Arte/Exame)

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