Revista Exame

O poder da recuperação: maiores empresas do país viram o lucro crescer, sem queda de receitas

Em meio às turbulências do mercado brasileiro no ano passado, as 1.000 empresas de MELHORES E MAIORES mostraram poder de recuperação: os lucros cresceram, e nenhum setor teve queda de receitas

Moda e vestuário: setor foi um dos campeões de crescimento em MELHORES E MAIORES, com avanço de 14,2% e receita total de 102 bilhões de reais (Leandro Fonseca/Exame)

Moda e vestuário: setor foi um dos campeões de crescimento em MELHORES E MAIORES, com avanço de 14,2% e receita total de 102 bilhões de reais (Leandro Fonseca/Exame)

LM
Luciano Manenti

Jonalista colaborador

Publicado em 24 de setembro de 2026 às 21h00.

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O ranking das 1.000 maiores empresas do Brasil de EXAME MELHORES E MAIORES funciona como um retrato da capacidade das empresas brasileiras de se adaptar às condições de cada ano — seja para conviver com as adversidades, seja para aproveitar os bons momentos. O ano de 2025 foi um desses períodos em que o ambiente ofereceu pouca folga, com uma taxa básica de juros que permaneceu boa parte do tempo em 15% anuais, crescimento econômico de 2,4%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e um cenário internacional repleto de incertezas. Apesar das dificuldades, as maiores empresas do país fizeram mais do que apenas sobreviver — e saíram muito bem na foto. “Foi um ano de transição para muitas empresas”, diz Samuel de Jesus Monteiro de Barros, pró-reitor do Ibmec no Rio de Janeiro e coordenador técnico do MELHORES E MAIORES. “Alguns setores importantes cresceram menos do que o esperado, mas no geral os resultados foram muito bons, quando se consideram as circunstâncias.”

Os números do conjunto surpreendem pela solidez. As 1.000 empresas da lista fecharam 2025 com receitas líquidas somadas de 10,5 trilhões de reais, 10,4% acima de 2024 — uma expansão bem mais robusta do que a do PIB. O crescimento também foi mais generalizado do que na edição do ano passado: desta vez, nenhum dos 22 setores que dividem o ranking encolheu em receita. O menor avanço, ainda assim positivo, foi de 3,3% para as empresas de Siderurgia, Mineração e Metalurgia. Na edição passada, houve recuo em três setores: Agronegócio; Siderurgia, Mineração e Metalurgia; e Petróleo e Químico.

Agronegócio: depois de quebra de safra e um período de preços baixos em 2024, o setor teve avanço de 48% no lucro (SLC/Divulgação)

O quadro geral de recuperação se confirma quando se olha para a rentabilidade do conjunto. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) das 1.000 empresas subiu cerca de 1,6 ponto percentual, de aproximadamente 12,1% para 13,7%. É um número agregado — e, como faz questão de frisar Barros, cada setor tem uma realidade específica, de modo que comparar o ROE de um banco com o de uma transportadora diz pouco. Ainda assim, fica bastante claro que as empresas terminaram 2025 remunerando melhor o capital dos acionistas do que no ano anterior.

Talvez sejam os dados sobre a lucratividade que melhor caracterizem 2025 como um ano de travessia, o que naturalmente significa uma mescla de aspectos positivos e, em certos casos, pontos de preocupação. Uma das boas notícias é que, somados, os lucros líquidos das 1.000 empresas aumentaram 16,6% sobre 2024, chegando a 786,6 bilhões de reais. É um resultado melhor do que o do ranking do ano passado, em que as participantes do estudo tiveram em conjunto um crescimento de receitas, mas viram a lucratividade geral encolher. Os prejuízos seguem bem menos frequentes do que os lucros: das 1.000 empresas, 152 fecharam o ano no vermelho, com um prejuízo conjunto de 106 bilhões de reais, enquanto as 848 restantes somaram 893 bilhões de reais de lucro. Trata-se de um sinal de melhora, ainda que tímido, em relação a 2024, quando 162 empresas do ranking fecharam no vermelho.

A recuperação das margens, contudo, veio de forma concentrada. Alguns poucos setores puxaram o resultado para cima. Um deles foi o de Combustíveis, Petróleo e Químico, cujo lucro líquido conjunto saltou 89% de 2024 para 2025, saindo de 60,9 bilhões para 114,9 bilhões de reais. Sozinha, a Petrobras respondeu por 110,6 bilhões de reais de lucro, o maior dentre todas as empresas do ranking. Os motivos para esse desempenho — receitas fortes e lucros em recuperação, mas de forma desigual — estão muito relacionados a um ambiente doméstico que em nada facilitou a vida das empresas. O país conviveu com uma inflação difícil de domar e que manteve a taxa básica de juros em dois dígitos por um período prolongado. “Não estamos falando apenas do nível da Selic em determinado momento, mas de um período prolongado de condições financeiras restritivas”, afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian. “Para as empresas mais alavancadas, isso significa um custo maior para carregar e refinanciar suas dívidas.”

Papel e Celulose: o prejuízo de 3 bilhões de reais em 2024 virou um lucro de 20,8 bilhões em 2025 (Germano Lüders/Exame)

Ao lado dos combustíveis, outro peso-pesado da lista ajudou a puxar o resultado para cima: o setor de Alimentos e Bebidas. Com receitas de 1,5 trilhão de reais — atrás apenas de Bancos e do bloco de Combustíveis, Petróleo e Químico —, o setor cresceu 14,6% e viu o lucro somado avançar 21,6%, para 42,4 bilhões de reais, com um dos melhores retornos sobre o patrimônio da lista (16,9%).

Poucas áreas ilustram melhor a lógica da “transição” do que a do Agronegócio. Depois de ter o pior desempenho em receitas na edição de 2024, quando enfrentou uma quebra de safra e um período de preços baixos, o setor voltou a crescer: as receitas avançaram 11,6%, para 546 bilhões de reais, e o lucro subiu 48%, para 15,2 bilhões. Parte da recuperação veio de dentro para fora. “No ano passado, muitas empresas do setor se esforçaram para reduzir custos para melhorar os resultados”, diz Barros. Na segunda metade do ano, os preços das commodities agrícolas reagiram, o que deu mais um empurrão para que o setor equilibrasse as contas e voltasse a crescer com rentabilidade.

São Paulo: estado é sede de 504 das 1.000 maiores empresas do Brasil (Leandro Fonseca/Exame)

Ainda há, evidentemente, muitas empresas do agronegócio endividadas, algumas das quais em recuperação judicial — mas em geral entram na lista das 1.000 maiores aquelas que são mais organizadas e eficientes. Chama atenção também que as três primeiras no ranking das melhores do setor — Inpasa, que é a líder, 3tentos e ECB Holding — têm, mais do que um pé na lavoura, atuação importante na produção de etanol de milho, uma das atividades em plena expansão no país. Segundo os dados da União Nacional do Etanol de Milho, hoje há 29 biorrefinarias que produzem o biocombustível de cereal. Na safra 25/26, elas produziram quase 10 bilhões de litros, quase cinco vezes mais do que em 2021.

Outro setor que viu suas margens melhorarem de forma expressiva foi o de Papel e Celulose, que de 2024 para 2025 reverteu um prejuízo de 3,0 bilhões de reais num lucro de 20,8 bilhões em 2025 — e o ano passado terminou com a maior rentabilidade sobre o patrimônio de todo o ranking, chegando a 28,7%. O setor Imobiliário e Construção Civil, por sua vez, quase dobrou o lucro, de 9,2 bilhões para 17,9 bilhões de reais, com receitas 9,4% maiores, mostrando resiliência para atravessar um período de juros altos. Boa parte do bom desempenho pode ser atribuída a dois pilares. Um deles foi o programa Minha Casa, Minha Vida, cujas vendas de unidades residenciais cresceram quase 18% de 2024 para 2025, mais do que o triplo do mercado residencial em geral, segundo os números da Câmara Brasileira da Construção Civil (CBIC). O outro pilar foram as obras de infraestrutura, que somaram cerca de 280 bilhões de reais em investimentos no ano passado, de acordo com as estimativas da Associação Brasileira da Infraestrutura e das Indústrias de Base.

Entre os setores de maior fôlego estão ainda o de Transporte, Logística e Serviços Logísticos e o de Saneamento e Meio Ambiente. O primeiro, o maior do ranking em número de empresas (109), teve receitas 11,3% maiores e um salto expressivo de lucro, de 2,5 bilhões para 32,5 bilhões de reais, na esteira do bom desempenho do comércio e da indústria. Em parte, o bom desempenho pode ser atribuído a uma combinação de fatores favoráveis. As receitas cresceram num ano em que os produtores rurais brasileiros colheram uma safra recorde de grãos, chegando a 346,1 milhões de toneladas, segundo a Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab). A produção de minério de ferro também aumentou 7%. “As transportadoras mais ligadas ao transporte de produtos agrícolas, insumos e minérios puderam aproveitar melhor o momento”, diz Maurício Lima, sócio-fundador do Ilos, consultoria especializada em logística. Ao mesmo tempo, as transportadoras rodoviárias puderam contar com custos relativamente controlados com combustíveis. “O diesel chegou a cair um pouco no ano passado, cerca de 1,5%”, afirma.

E-commerce: serviços logísticos tiveram avanço no lucro, de 2,5 bilhões para 32,5 bilhões de reais (Leandro Fonseca/Exame)

Já o saneamento cresceu 11,5% em receitas, num reflexo do amadurecimento do Marco do Saneamento, aprovado em 2020. No ano passado, os leilões de serviços de água e esgoto arrecadaram 4,2 bilhões de reais em outorga e resultaram na contratação de 39,5 bilhões de reais em investimentos nos próximos anos — as duas principais negociações foram as concessões da Compesa, em Pernambuco, e de quatro blocos para os serviços de distribuição de água e tratamento de esgoto no Pará. Barros destaca um efeito colateral virtuoso desse processo: com a entrada de investidores no setor, cresce a quantidade de empresas que publicam demonstrações financeiras, o que amplia e qualifica a própria base do ranking.

Sob pressão

Entre os setores que tiveram um 2025 mais penoso, um dos que mais chamam atenção é o de Siderurgia, Mineração e Metalurgia. As receitas praticamente empataram com as de 2024 (alta de apenas 3,3%), mas o lucro despencou 91%, de 35,7 bilhões para 3,2 bilhões de reais — o que derrubou a rentabilidade do setor para menos de 1%, a mais baixa do ranking. Boa parte desse tombo se deve ao prejuízo de 25,8 bilhões de reais da Samarco, mineradora controlada por Vale e BHP, resultado ligado às provisões do acordo de reparação do desastre de Mariana. Excluída a mineradora da conta, o lucro do setor ainda cairia, passando de cerca de 58 bilhões para 29 bilhões de reais.

Ainda seria uma queda de 50%, mostrando que, além do prejuízo da Samarco, o setor vive um momento de grande pressão. A Vale, mesmo mantendo a receita praticamente estável, viu o lucro recuar 61%, de 30,4 bilhões para 11,8 bilhões de reais. Já as fabricantes de aço sofreram de forma generalizada: a Gerdau teve queda de 69% no lucro, a Usiminas teve resultados negativos em 2,9 bilhões de reais, a CSN seguiu no prejuízo pelo segundo ano consecutivo, e a ArcelorMittal viu o lucro cair 29%. É o retrato de uma indústria pressionada pelo excesso de oferta de aço, sobretudo de origem chinesa: as importações de aço laminado cresceram pouco mais de 20% no ano passado, chegando a 6,4 milhões de toneladas, sendo que dois terços desse volume vieram da China.

Outro setor que deixou a desejar foi o de Atacado e Varejo. As receitas cresceram 8%, mas o lucro caiu 43%, de 17,3 bilhões para 9,8 bilhões de reais. “Trata-se de uma atividade que historicamente tem bom desempenho nos levantamentos de MELHORES E MAIORES”, diz Barros, do Ibmec. “Isso dá a medida de quanto o ano foi morno.”

A pressão sobre a rentabilidade se repetiu em outras frentes. A Energia Elétrica viu as receitas subirem 10,8%, mas o lucro recuar 18,6%. Também tiveram lucros menores os setores Farmacêutico e Beleza, de Cooperativas, de Educação e de Bens de Capital e Eletroeletrônicos. Aqui cabe um alerta de leitura: nesta edição, por decisão editorial, os Combustíveis foram destacados do antigo bloco de Energia. Isolada, a energia elétrica cresceu; mas a separação impede uma comparação direta com o desempenho do conjunto “Energia” das edições anteriores.

Varejo: receitas cresceram 8%, mas o lucro encolheu 43% em 2025 (Leandro Fonseca/Exame)

Num aspecto, o ranking das 1.000 empresas mostra bastante estabilidade. Regionalmente, o Sudeste manteve o domínio da lista, com 738 das 1.000 empresas. São Paulo, sozinho, responde por 504 companhias; e o Rio de Janeiro, por 142. A maior taxa de crescimento das receitas, porém, veio do Centro-Oeste: um avanço de 19% no ano, o que em boa parte está relacionado à retomada do Agronegócio, principal motor da economia da região.

Pelo que se viu até aqui, 2026 continua sendo um ano de transição. As condições econômicas mantiveram-se praticamente inalteradas em relação a 2025, e as empresas brasileiras continuam se esforçando para fazer o melhor dentro do que é possível. Além disso, um ano eleitoral geralmente se traduz em maior cautela por parte dos investidores. Como alento, períodos desafiadores como esse oferecem a oportunidade de pôr os negócios à prova. O que os resultados das 1.000 empresas mostraram outra vez em 2025 é que, mesmo em um ano de transição e sob condições bastante desafiadoras, as maiores companhias do país têm fôlego para crescer, recompor margens e seguir adiante.

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