Produtividade em marcha lenta preocupa até os países ricos

Países ricos e emergentes — quem diria? — sofrem do mesmo mal. O crescimento da produtividade perde vigor e há dúvida se o avanço tecnológico vai ajudar

	Construção em São Paulo: a alta rotatividade no trabalho desestimula o treinamento
 (Germano Lüders / EXAME)
Construção em São Paulo: a alta rotatividade no trabalho desestimula o treinamento (Germano Lüders / EXAME)
Por Fabiane StefanoPublicado em 25/06/2015 05:56 | Última atualização em 25/06/2015 05:56Tempo de Leitura: 6 min de leitura

São Paulo - Quem já chegou ao trabalho, ao banco ou até mesmo ao caixa do supermercado e ouviu que o sistema estava fora do ar teve a exata medida de quanto nossa vida está dependente dos computadores e da internet. Nos breves momentos em que ficamos desconectados do mundo digital, parece que voltamos para a Idade da Pedra.

Um estudo recente do Federal Reserve, banco central americano, dá uma ideia do impacto econômico da adoção de PCs e da internet. Entre 1995 e 2003, a taxa anual de crescimento da produtividade americana dobrou para 3%. O problema, segundo o estudo, é que boa parte dos ganhos oriundos da proliferação da tecnologia da informação já foi incorporada.

Em outras partes do mundo, o diagnóstico é semelhante. A revolução de TI mudou nossa vida, mas há sinais de que seu poder de transformação tenha perdido força, pelo menos em sua capacidade de aumentar a produtividade. E isso pode estar afetando o ritmo de crescimento global.

A produtividade de economias ricas e emergentes está patinando — em alguns lugares, entrou em declínio. Em países com estágios diferentes de desenvolvimento, como Estados Unidos, Rússia e Brasil, a taxa de crescimento da geração de riqueza por empregado medida por hora trabalhada desacelerou — o Brasil, diga-se, está entre os países em que o ritmo do aumento tem caído de forma mais alarmante.

No Reino Unido, os dados de produtividade do último trimestre de 2014 acenderam a luz amarela: uma queda de 0,2%, a taxa mais baixa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Japão e Itália estão pior: apresentam indicadores nega­tivos ano sim, outro não. E os sinais preo­cupantes não param por aí.

No mundo, a chamada produtividade total dos fatores, que mede a efi­ci­ê­n­­­­­­cia do trabalho e do capital combinados, fechou o terceiro ano seguido ao redor de zero, segundo o The Conference Board, instituto de pesquisas de Washington. O indicador é uma das melhores formas de medir o impacto da inovação nas economias. A estimativa é que, nos próximos dez anos, ele permaneça muito baixo, com expansão anual de 0,3% a 0,5% apenas.

Tudo isso poderia resumir-se a uma discussão de especialistas se não tivesse consequências para todos — de trabalhadores a empresários. O avanço da produtividade define a velocidade com que um país pode crescer sem causar inflação. É também um termômetro dos mercados e dos lucros das empresas.

De quem é a culpa?

É esperado que os países mais desenvolvidos tenham dificuldade em expandir sua eficiência porque o espaço para ganhos é menor. Afinal, foi justamente graças ao crescimento da produtividade que eles se tornaram ricos. Por isso, o que causa mais espanto hoje é o enfraquecimento dos índices também nas economias emergentes.

Nesses países, as carências são tantas que investimentos em infraestrutura, educação e inovação deveriam entregar ganhos relativamente rápidos. Na China isso tem acontecido, mas até mesmo lá há uma desaceleração. A produtividade chinesa cresceu em 2014 a uma taxa de 7% ao ano. Embora impressionante, é o menor percentual em uma década. A fórmula para aumentar a eficiência da economia tirando pessoas do campo e incorporando-as ao setor industrial não está surtindo o mesmo efeito.

Fazer um diagnóstico global dessa freada que não poupa ricos nem pobres é uma das grandes questões em debate hoje. E é nesse ponto que voltamos aos computadores e à internet. Cada país tem suas questões particulares, mas o tema que mais tem dividido os economistas é quanto da culpa pode ser atribuído à tecnologia — ou, melhor dizendo, à falta dela.

De um lado, estão os chamados “pessimistas”. O principal representante desse grupo é Robert Gordon, professor de economia na Universidade Northwestern, considerado o maior especialista no tema do mundo. Gordon diz que os ganhos da atual revolução digital são muito pequenos se comparados aos registrados no fim do século 19 e no começo do 20, com invenções como ferrovias, energia elétrica e antibióticos.

Bart van Ark, vice-presidente do The Conference Board, faz coro: “Tecnologias ultrapassadas e a falta de uma gestão mais moderna nas empresas estão fazendo com que o trabalhador seja menos eficiente”. Na Alemanha, 72% das médias e pequenas empresas — percentual que equivale a 2,5 milhões de firmas — pararam de injetar mais dinheiro em processos inovadores e máquinas. É o terceiro ano seguido que isso acontece.

Nos Estados Unidos, essa tendência começou antes da crise. “As companhias têm investido 30% menos em equipamentos e computadores do que nos anos 90”, diz Robert Atkinson, presidente da Fundação de Tecnologia da Informação e Inovação, de Washington.

No lado oposto ao dos pessimistas estão os economistas que argumentam que o problema não é a falta de poder de transformação da internet. Para esses economistas, os índices usados para medir a produtividade é que estão defasados — eles medem o efeito positivo provocado por uma nova estrada, por exemplo, mas não o gerado pelos aplicativos de smartphones.

Os otimistas também dizem que, logo após as grandes invenções do passado, houve períodos em que a produtividade cresceu em ritmo lento. Hoje estaríamos numa fase parecida, prestes a sentir os efeitos da inteligência artificial, da internet das coisas e do big data. “Essas tecnologias são muito recentes. Daqui a cinco anos elas devem começar a ser sentidas”, diz Atkinson.

Para o historiador econômico Joel Mokyr, da Universidade North­western, não há motivos para sermos pessimistas. “Os fatores que movem o progresso científico não desapareceram. Os países continuam competindo e a humanidade continua tendo vários problemas para resolver”, diz.

Na economia americana, a maior do mundo, outro fator tem prejudicado o ritmo de crescimento da produtividade. Trata-se da pressão da opinião pública e do governo do presidente Barack Obama para o aumento do salário mínimo. Recentemente, as redes varejistas Walmart, TJX e Target anunciaram que passariam a pagar mais — uma boa notícia para as famílias da base da pirâmide social americana.

Mas o fato é que esses trabalhadores vão continuar trabalhando o mesmo número de horas, no mesmo ritmo e vão custar mais. Em maio, um terço das 500 maiores empresas americanas registrou queda nos lucros em razão do aumento de custos trabalhistas. No Japão, o governo decidiu atacar o problema da baixa produtividade com um novo código de governança corporativa, que tem como meta incentivar o investimento privado.

A preocupação com a baixa produtividade é global, mas cada país tem montado um arsenal próprio para combater um problema que poderá estar entre nós por um bom tempo. A não ser, claro, que, como num filme, o avanço tecnológico venha nos salvar.