Bolha dos títulos públicos nos EUA preocupa investidores

Fala-se há pelo menos dois anos que existe uma bolha nos títulos públicos americanos. E nada. Mas nunca tantos investidores acreditaram nisso quanto hoje

	 Bolsa de Nova York: investidores temem bolha de preços
 (REUTERS/Brendan McDermid)
Bolsa de Nova York: investidores temem bolha de preços (REUTERS/Brendan McDermid)
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Maria Luíza FilgueirasPublicado em 22/04/2015 às 18:08.

São Paulo - Enquanto houver mercado de capitais, haverá um especialista ou investidor mais pessimista anunciando uma nova bolha de preços sempre prestes a estourar. Nos últimos três anos foram dezenas de alertas: a bolha de escritórios no Brasil, a bolha de casas na Índia, de veículos nos Estados Unidos, de dívida espanhola, de consumo chinês — até a bolha global de carbono estava ameaçando estourar.

Mas, para alívio geral, nenhuma dessas ameaças vingou. O que não quer dizer, claro, que não haja uma bolha por aí inflando perigosamente. Para a maioria dos investidores, há mesmo.

Uma pesquisa mensal feita pelo banco americano Bank of America Merrill Lynch, normalmente sem grandes emoções, surpreendeu em abril. Mais da metade dos gestores ouvidos considera que ações e renda fixa estão supervalorizadas em diferentes mercados — um percentual inédito desde 2003, quando a pesquisa começou a ser feita.

A avaliação da maioria dos 177 gestores que administram quase meio trilhão de dólares é ainda pior ao considerar somente o trilionário mercado de títulos de renda fixa — de março a abril, o percentual de gestores que veem a formação de uma bolha nesses papéis subiu de 75% para 85%.

As conclusões são semelhantes às da pesquisa global conduzida em março pela associação de analistas do Reino Unido, a CFA UK, com 300 gestores: quatro em cada cinco gestores acreditam que haja uma sobrevalorização histórica de títulos corporativos, que só perde para o exagero em títulos públicos. O índice da Bloomberg que mede o comportamento dos títulos públicos americanos subiu 20% em dois anos, acima da média histórica. O “bolhômetro”, em suma, está a toda.

Como se sabe, o mundo está prestes a passar por um fenômeno inédito — o fim do quantitative easing, como é conhecido o programa de compra de títulos da dívida pelo banco central americano, o Federal Reserve. Para aliviar os efeitos da crise econômica pós-2008, o Fed gastou mais de 3,5 trilhões de dólares na compra desses títulos.

Foi a forma de baixar ainda mais os juros na economia americana, numa tentativa de reanimá-la. Como o valor de um título varia na razão inversa dos juros que paga, os bonds americanos nunca valeram tanto. Há pelo menos dois anos se especula a respeito da reação dos investidores à inevitável subida dos juros nos Estados Unidos.

O valor dos títulos vai cair lentamente? Haverá uma venda enlouquecida? Quantos mortos e feridos o processo deixará? Estima-se que haja cerca de 11 trilhões de dólares em títulos da dívida americana nas mãos de investidores, bancos e governos no mundo todo.

Com a economia americana de fato engatando segunda marcha, a hora de os juros voltarem ao patamar normal parece finalmente estar chegando. Espera-se que aconteça no terceiro trimestre do ano. Será a primeira alta de juros desde 2006. E chegará a hora de saber qual será a consequência — se a tal bolha vai esvaziar tranquilamente ou estourar.

A julgar pela história recente, há motivos para esperar fortes emoções. Em 15 de outubro de 2014, os juros dos títulos americanos tiveram sua maior variação diária em 25 anos. O fenômeno foi apelidado de flash crash, e a volatilidade daquele dia deixou muita gente assustada com o que pode acontecer se a tal bolha de bonds estourar.

O mercado hoje é dominado por sistemas automáticos de negociação, e falhas nesses mecanismos foram apontadas pelo Fundo Monetário Internacional como uma das causas do flash crash de outubro. Em abril, o presidente do banco JP Morgan, Jamie Dimon, alertou para o risco de uma nova temporada de alta volatilidade nos próximos meses — um flash crash piorado.

“Se algo semelhante acontecer num ambiente de estresse, as consequências podem ser muito mais graves”, escreveu. Dimon diz que os bancos foram estimulados pelo governo a acumular os títulos públicos que têm.

Isso porque as normas bancárias no pós-crise estabeleceram custos mais altos para operações dos bancos com o próprio dinheiro — num cenário mais volátil de títulos públicos, as negociações de bancos amorteciam o impacto, segundo Dimon, o que não deve acontecer mais. Grandes gestoras têm avisado aos clientes que será preciso se acostumar com mais volatididade adiante.

Além da pressão vendedora em títulos públicos, os gestores de fundos temem o que pode acontecer com os títulos de dívidas das empresas. Nos últimos três anos, os rendimentos muito baixos de papéis públicos e corporativos de alta qualidade levaram os investidores a comprar papéis de risco mais alto.

A demanda por esse tipo de papel, por sua vez, distorceu os preços dos títulos, que hoje não refletem os riscos da maneira correta. “Há seis anos, todos os títulos de renda fixa do mundo pagavam mais de 4% ao ano. Hoje, só 20% dos títulos pagam mais do que isso”, diz Eduardo Levy, gestor de mercados emergentes da Rio Bravo.

Em busca de retorno, até investidores mais conservadores, como o fundo soberano japonês, começaram a comprar papéis de risco. Para alguns gestores, a mesma distorção de preços em busca de retornos aconteceu no mercado de ações. Na pesquisa da CFA, aumentou de 10% para 52% a porcentagem de gestores que avaliaram que as bolsas de mercados desenvolvidos estão supervalorizadas, por terem crescido muito acima do ritmo econômico.

Claro, é possível que a transição para um mundo de juros maiores seja mais suave. Uma das razões é que só haverá alta de juros nos Estados Unidos se a economia estiver aquecida — isso significa que as empresas estão crescendo e melhorando retornos, o que, no fim, é positivo para os investidores.

Alguns especialistas ponderam que o ajuste do Fed pode até demorar um pouco mais. “Não vemos pressões inflacionárias e crescimento de renda que levem o Fed a elevar os juros no curto prazo”, afirma Alejandro Hardziej, estrategista de renda fixa do banco suíço Julius Baer. Para o Brasil, o efeito mais temido da alta de juros nos Estados Unidos é uma debandada de capital estrangeiro da Bovespa, que poderia derrubar os preços das ações.

Uma crise no mercado de renda fixa nos países desenvolvidos causaria uma aversão maior dos investidores a risco — é quando os emergentes sofrem mais. Mas convém, antes de sair vendendo ações e guardando dinheiro no colchão, ter certo ceticismo.

Ninguém sabe nem se existe bolha, nem se ela vai estourar. A única certeza é que, quando alguma bolha estourar — seja ela do carbono, das casas na Índia ou dos bonds americanos —, alguém haverá de falar que não foi por falta de aviso.