Leo Sobrinho: ator estreia como Helinho em “Habeas Corpus”, nova série brasileira da Netflix (Acervo pessoal)
Repórter
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 06h01.
Última atualização em 11 de setembro de 2026 às 19h28.
Antes de dividir cena com nomes como Marjorie Estiano e Vladimir Brichta, Leo Sobrinho passava horas de ônibus com a avó, Dóra, para chegar a testes publicitários do outro lado de São Paulo. Em 23 de setembro, aos 28 anos, ele estreia como Helinho, personagem ligado ao crime que inspira "Habeas Corpus", primeiro drama jurídico brasileiro da Netflix.
Foram quase 25 anos entre agência de modelos, lesões no joelho, um diploma de jornalismo e um grupo de teatro fundado com amigos da faculdade até o ator chegar ao streaming.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Sobrinho relembra essa trajetória, que começou na infância, na periferia da Zona Leste de São Paulo, e o levou ao super elenco de uma produção inspirada em um caso real de erro judiciário.
Leo Sobrinho começou no mercado publicitário ainda na infância, levado pela avó a testes em São Paulo. (Arquivo pessoal)
A relação de Sobrinho com a arte começou aos 5 ou 6 anos, quando alguém disse aos pais dele que "dava dinheiro colocar para fazer comercial". Ele entrou para uma agência e passou a desfilar, fazer catálogo e ensaio fotográfico. Quem acompanhava essa fase era a avó, que o levava de ônibus até bairros como a Vila Madalena, sem celular, perguntando o caminho a estranhos pela rua.
"A gente pergunta para uma pessoa aqui, anda um pouquinho, confirma essa informação com outra pessoa", lembra Sobrinho.
Por volta dos 12 anos, o mercado de testes publicitários começou a saturar, conta. As aprovações passaram a não chegar, e o ator, uma criança negra em um mercado que, segundo ele, tinha (e ainda tem) pouca representatividade, decidiu parar.
O futebol tomou o lugar da arte nos anos seguintes. Sobrinho jogou até os 19 anos, quando uma lesão no joelho o tirou de campo.
A atuação voltou a aparecer quando ele levou a irmã, 11 anos mais nova, a uma agência de modelos. A dona sugeriu que ele também fizesse algumas fotos, dessa vez sem custo, para "ver se dava alguma coisa". Uma semana depois, foi chamado para um trabalho.
"Eu costumo dizer hoje que a arte escolhe a gente. E quando ela escolhe, não dá muita corda para você fugir", diz Sobrinho.
Ainda em reabilitação do joelho, decidiu seguir na área de comunicação. Fez jornalismo, formou-se e trabalhou no setor por anos, mantendo campanhas publicitárias em paralelo. Durante a pandemia, percebeu que estar em um set o fazia mais feliz do que qualquer outra coisa.
"Os dias duravam 12 horas e eu não sentia o tempo passar", afirma Sobrinho.
Em 2023, depois de se formar também em artes cênicas, fundou o grupo de teatro Rupturas com colegas da turma.
Em 2024, pediu demissão do emprego formal para focar exclusivamente na atuação, carreira à qual, segundo ele, nunca havia se dedicado 100% do tempo. Começou 2025 sem salário fixo, mas com uma temporada de teatro que lotou uma casa de 75 lugares, com 90 pessoas por noite. Foi a primeira vez, diz, que ganhou dinheiro de verdade com teatro.
Leo Sobrinho em cena durante apresentação teatral antes de estrear na Netflix. (Arquivo pessoal)
A virada veio em setembro de 2025, depois de alguns testes fracassados ao longo dos meses anteriores. Em junho, ele havia testado para outro projeto e chegado a acreditar que conseguiria o papel. "Eu estava muito crente que ia rolar", diz. "E não rolou."
Meses depois, recebeu um retorno sobre um teste antigo. As agentes dele foram procuradas novamente, e Sobrinho descobriu que se tratava de uma série da Netflix.
A partir daí, passou por novas etapas até chegar à última audição, feita de forma virtual. "O diretor olhou para mim e falou: 'Léo, muito bom. Torce daí que eu tô torcendo daqui'", relata.
A aprovação veio dois dias depois, durante o ensaio geral de uma peça de teatro. "Foi uma amostra de que é isso, cara, é esse o caminho, segue", afirma.
Sobrinho só recebeu o roteiro completo depois de aprovado e não sabia quem mais estaria no elenco. Descobriu na leitura de mesa, quando viu as plaquinhas com nome e personagem ao lado das de Vladimir Brichta, Marjorie Estiano, Danton Mello, Marisa Orth, Renata Gaspar e Any Gabrielly. "Caraca, que doideira", relembra.
Leo Sobrinho e Vladimir Brichta nos bastidores das gravações da série 'Habeas Corpus', da Netflix. (Arquivo pessoal/Divulgação)
"Habeas Corpus" acompanha Inez (Marjorie Estiano), professora de Direito que reúne estudantes para revisar o caso de um jovem condenado por um crime que nega ter cometido, mote inspirado no trabalho da Innocence Project Brasil, organização que atua na reversão de erros judiciários.
Sobrinho interpreta Helinho, personagem que, segundo ele, é o paralelo dramático de Paulinho na vida real, figura ligada ao caso verídico que inspira parte da trama.
Crescer na periferia, para ele, significa ter visto de perto algumas das questões abordadas pela série. "Tem uma frase dos Racionais que sempre que eu escuto eu penso: quanto vale o show?", diz Sobrinho, associando a expressão ao caso que inspirou a série. Segundo ele, o episódio gerou "um espetáculo tão grande" que custou anos de liberdade a um homem inocente.
"Eu vi pessoas perderem a vida de forma injusta. E também vi pessoas sendo presas de forma injusta", afirma. "Quando a gente chega para contar essa história, ela já estava dentro de mim, mesmo que eu não tivesse vivido esse paralelo. Para além do Léo, é uma importância global."
A série estreia em 23 de setembro na Netflix, com direção de Luiz Villaça e Flávia Lacerda. É o primeiro projeto de Sobrinho em uma produção de alcance nacional, depois de anos dedicados ao teatro.
Ele evita prever a repercussão. "Eu não entendi muito bem ainda", admite, ao ser perguntado sobre a expectativa em torno da estreia, que já circula nas redes como a versão brasileira da série norte-americana "How to Get Away with Murder", protagonizada por Viola Davis.
"Espero que a série toque as pessoas nesse lugar delas refletirem sobre justiça, sobre acesso, sobre o crime em geral", diz.