Tecnologia trouxe novos negócios para setor de educação

A garotada quer estudar no tablet e gastar o tempo livre para aprender a nadar, lutar, dançar e fazer acrobacias de circo. Nas férias, essa turma participa de intercâmbios para aprender outros idiomas
Marcello Cafaro, da Bem Me Quer Sports
 (Daniela Toviansky / EXAME PME)
Marcello Cafaro, da Bem Me Quer Sports (Daniela Toviansky / EXAME PME)
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Leo BrancoPublicado em 07/05/2014 às 10:30.

São Paulo - O início de 2014 foi movimentado para o menino carioca Gustavo Maldonado, de 7 anos. Em férias da escola, no dia 2 de janeiro ele embarcou, sem os pais, num intercâmbio de um mês para Orlando, nos Estados Unidos. Gustavo morou num alojamento para estudantes de sua idade e teve aulas de inglês com alunos americanos de uma série equivalente à sua no Brasil.

Nos fins de semana, ele ia a parques temáticos, como o Sea World. Foi a primeira vez que Gustavo ficou longe da família. “Falava com meus pais pelo Skype”, diz. “Tive de lavar roupas e cuidar do meu dinheiro sozinho.” Gustavo voltou ao Brasil no fim de janeiro, para alívio da mãe, a médica Renata Maldonado, de 39 anos.

“Ele é filho único, quase morri de saudade”, afirma. A viagem custou 10 000 dólares. “Não foi uma extravagância. O inglês de Gustavo melhorou bastante.”

Cerca de 50 000 crianças e jovens de até 17 anos deverão viajar para o exterior para estudar neste ano — um aumento de 30% em relação a 2012, segundo estimativa da Belta, entidade que reúne empresas brasileiras de intercâmbio. A disposição para participar de programas de intercâmbio é apenas uma das características que vêm transformando o mercado de educação para crianças e adolescentes no Brasil.

Quem tem aproveitado essa oportunidade são os empreendedores Ricardo Lima, de 61 anos, e sua mulher, Eloisa, de 60. O casal é dono da Dice, escola de inglês sediada no Rio de Janeiro e responsável pelo intercâmbio de Gustavo.

A Dice foi fundada em 1991 após Eloisa adquirir experiência como professora de inglês em colégios particulares cariocas por duas décadas. Nas férias escolares, ela costumava promover excursões de famílias aos parques da Disney, no estado americano da Flórida. “Muitos pais pediam para ela organizar também um intercâmbio de estudos para os filhos”, diz Lima.

Em 1993, Eloisa fechou uma parceria com a Secretaria de Educação da Flórida para enviar um grupo de 16 alunos da Dice para estudar numa escola pública de lá por um mês. O pacote incluía hospedagem, alimentação, passeios a parques temáticos e reuniões de orientação com os pais.


“Hoje são as crianças que convencem seus pais a matriculá-las na Dice para viajar para o exterior”, afirma Lima. “Desde cedo, elas acham importante ter alguma vivência fora do Brasil.” Em 2013, a Dice faturou 1,4 milhão de reais — 10% mais do que no ano anterior.

Aqui no Brasil, o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho criou uma demanda por atividades que mantenham as crianças ocupadas quando não estão na escola. Uma parte delas é atendida por negócios de pequeno e médio porte que oferecem atividades extracurriculares, como escolinhas de futebol.

Segundo a consultoria MultiFocus, 22% dos jovens brasileiros de até 17 anos fazem cursos fora do horário escolar. Quase um terço dessa garotada faz duas ou mais atividades. “O comum é a criança começar um curso quando vai para a escola e ir se interessando por outras atividades depois que cresce”, diz Ana Helena Meirelles Reis, da MultiFocus. “Muitos pais têm até de frear seus filhos para que eles não encham a agenda com compromissos.”

O administrador Marcello Cafaro, de 40 anos, tenta ajudar os pais nessas horas. Ele é sócio da Bem Me Quer, academia poliesportiva só para crianças. O negócio surgiu em 1997, quando Cafaro administrava um colégio de sua família e percebeu que muitos pais simplesmente não conseguiam atender aos desejos dos filhos.

“A garotada queria fazer aulas diferentes em lugares distantes”, diz ele. Foi então que Cafaro juntou tudo num lugar só. Num espaço de 3 000 metros quadrados na zona sul da capital paulista, a Bem Me Quer dá aulas de futebol, natação, dança, sapatea­do e circo para 400 alunos de 2 a 12 anos.

Os preços variam de acordo com o período em que a criança fica na academia — há pacotes de 800 a 2 250 reais mensais. Os filhos de pais muito ocupados recebem almoço e têm um espaço para fazer as tarefas e tomar banho.


Duas vezes por semana a médica Patrícia Viana, de 40 anos, deixa seus filhos Tomás, de 6 anos, e Manuela, de 3, na academia. Tomás faz aulas de natação, judô e futebol. Manuela, de natação e balé. “Não poderia levá-los a tantas atividades se fossem em lugares diferentes”, diz Patrícia. “Eles ficariam em casa sem fazer nada do que querem.”

No ano passado, a Bem Me Quer Sports faturou 6,5 milhões de reais — 20% de crescimento sobre 2012. Cerca de 60% das receitas vieram da prestação de serviços de esportes em que professores da Bem Me Quer vão até o local para dar aulas a jovens de grandes condomínios ao redor de São Paulo.

O programa foi criado em 2000, quando Cafaro percebeu que os pais de crianças com potencial de estudar na Bem Me Quer não queriam pegar o trânsito até a academia. “Ao mesmo tempo, estavam surgindo condomínios com infraestrutura completa de esportes, como quadras de tênis e piscinas olímpicas”, diz ele.

Atualmente, 4 000 alunos estudam nas 14 unidades em condomínios. Neles, há também adultos se exercitando. “Muitos começam a praticar para acompanhar os filhos.”

Nem só no tempo livre das crianças estão as oportunidades de negócios em educação infantil. Em 2017, deverão ser gastos 22 bilhões de dólares em livros educacionais em formato digital no mundo inteiro, mais do que o dobro registrado em 2012, segundo a consultoria PwC.

No Brasil, 2,1 milhões de leitores digitais têm menos de 17 anos — eles são 22% do total, de acordo com o Instituto Pró-Livro, associação de empresas do mercado editorial. “Esses números vão aumentar à medida que mais escolas adotarem tablets como ferramenta pedagógica”, afirma Susanna Florissi, diretora da Câmara Brasileira do Livro.

Até o ano passado a paulistana Gabriela Schonenberg, de 10 anos, costumava acessar a internet só no smartphone do pai, o administrador Julio Schonenberg, de 47 anos. O que ela fazia? Assistia aos videoclipes do One Direction, grupo pop inglês de jovens de 20 e poucos anos. Em 2013, os professores da escola onde Gabriela estuda passaram a usar tablets durante as aulas.

Numa das primeiras experiências digitais de Gabriela em sala de aula, uma animação em 3D foi usada para mostrar o trajeto dos alimentos durante o processo de digestão em seres humanos. “Foi como se eu estivesse me vendo por dentro”, diz.

Pelo mesmo programa no qual estava a animação, ela conseguia acessar sites indicados por seu professor para encontrar detalhes sobre cada órgão do sistema digestivo. “Consegui me lembrar de todo o processo e me dei bem na prova.”

As animações foram criadas pelo engenheiro Carlos Grieco, de 34 anos. No fim de 2012, Grieco montou a EvoBooks, empresa de São Paulo que produz livros digitais com conteúdos de ensino fundamental e médio. Grieco percebeu que a tecnologia era pouco empregada para a educação. “Crianças e adolescentes já estão acostumados a videogames e filmes em 3D”, afirma Grieco.

“Usar as mesmas tecnologias nos materiais didáticos melhora o aprendizado.” Em 2013, a EvoBooks faturou 3 milhões de reais vendendo aplicativos para escolas, secretarias de Educação e donos de celulares Android, que podem baixar cada aula por 30 reais. “Já tivemos 100 000 downloads”, diz Grieco.