O que se aprende fazendo parte de conselhos de administração

Cinco empreendedores que fazem parte de conselhos de outras pequenas e médias empresas contam o que aprenderam na função

São Paulo – Em abril deste ano, o americano Guy Kawsaki, um dos principais nomes do mundo da tecnologia, aceitou ser conselheiro de uma startup relativamente desconhecida chamada Canva. Kawsaki tem em seu currículo passagens pela Motorola e foi evangelista-chefe da Apple, responsável pelas primeiras campanhas do Macintosh em 1984.

Ele foi convidado para a função na Canva pela fundadora, Melanie Perkins, por meio de um post no Twitter. Por que alguém como Kawsaki reservaria parte de seu tempo para ajudar um negócio recém-criado (que pode nem dar certo) e fundado por gente com a qual ele nunca havia trabalhado?

“Os executivos e os donos de empresas de sucesso sabem que ainda têm muito o que aprender sobre novas formas de fazer negócios”, diz Marcelo Nakagawa, professor de empreendedorismo do Insper. “Não há ambiente mais privilegiado para acompanhar as transformações do mercado do que estar dentro de uma startup promissora.”

O resultado é uma troca mútua de aprendizado entre conselheiro e aconselhado. Exame PME ouviu cinco empreendedores que são membros de conselhos de outras pequenas e médias empresas para saber o que eles aprenderam no cargo. Veja a seguir.

Pedir ao cliente só os dados essenciais

Rafael Siqueira , 37 anos, do site de geolocalização Apontador (São Paulo, SP)

Empresa que aconselha: Emprego Ligado (São Paulo, SP), sistema de recrutamento por celular

O que aprendeu: O negócio da paulistana Emprego Ligado é recrutar pessoas­ para funções como garçom, operador de telemarketing e recepcionista. As vagas são divulgadas por torpedos de celular. Para concorrer a uma delas, o candidato é obrigado a preencher somente sete dados — CPF, CEP, setor de interesse, data de nascimento, telefone, grau de escolaridade e sexo.

“A empresa percebeu que, cada vez que solicitava uma informação a mais, maior era a desistência em completar o cadastro”, diz Rafael Siqueira, conselheiro da Emprego Ligado e sócio do Apontador, um dos maiores sites do país de geolocalização de serviços. A alternativa encontrada pelos sócios foi comprar bases de dados terceirizadas para cruzar informações.

Dessa forma, sem perguntar ao candidato, a Emprego Ligado consegue um perfil mais completo, incluindo idade, filiação e bairro em que mora, por exemplo. Depois de ouvir sobre a iniciativa numa reunião de conselho, Siqueira quis fazer o mesmo no Apontador. “Optamos por pedir menos dados e captar uma base de usuários maior”, afirma Siqueira.

Os usuários cadastrados no Apontador podem avaliar restaurantes, bares e outros estabelecimentos. Recentemente, o formulário de cadastro foi simplificado para apenas dois campos — nome e e-mail. Com o tempo, conforme o usuário ganha confiança e interage mais com o site, o sistema pede outros dados, com a promessa de ofertar serviços personalizados. “As pessoas só entregam informações pessoais quando entendem que as solicitações permitirão a elas receber algo útil.”


Não esperar a perfeição

Daniel Li, 40 anos, da desenvolvedora de aplicativos e totens interativos Pixellabs (São Paulo, SP)

Empresa que aconselha: Ecer Technologies (West Virginia, Estados Unidos), fabricante de placas luminosas

O que aprendeu: A americana Ecer Technologies fabrica placas luminosas de cerâmica para sinalizar ambientes escuros, como cinemas e baladas. As placas foram desenvolvidas pela empresa usando um conceito definido no Vale do Silício como “produto mínimo viável” — a versão mais simples de um produto pela qual o cliente se dispõe a pagar.

“Trata-se de um produto inovador, que gasta pouca energia elétrica”, diz Daniel Li, conselheiro da Ecer e sócio aqui no Brasil da Pixellabs, desenvolvedora de aplicativos e totens interativos para marketing no ponto de venda. “O que mais me chamou a atenção foi que a ideia saiu das pranchetas e chegou ao mercado num intervalo de pouquíssimos meses”, afirma Li.

Foi uma inspiração para a Pixellabs, que demorava até dois anos para desenvolver seus produtos. Ele foi convidado para o conselho da Ecer em 2013 para ajudar a montar um plano de marketing e prospecção de clientes. “Agora vendo o produto mesmo antes de estar 100% acabado e deixo que os clientes me digam o que precisa ser melhorado”, diz Li. “Muitas vezes, eles preferem um produto entregue rapidamente a um que esteja supostamente perfeito.”

Preparar-se para a entrada de fundos

Carlos Mira, 46 anos, do aplicativo que ajuda empresas a contratar serviços de frete TruckPad (São Paulo, SP)

Empresa que aconselha: LojasKD (Pinhais, PR), loja virtual de móveis

O que aprendeu: Um dos objetivos do economista Carlos Mira para 2014 é conseguir aporte de capital para seu novo negócio — o TruckPad, aplicativo que ajuda empresas a contratar serviços de frete. “Desejo encontrar um investidor que entenda como ganhar escala com apps”, diz.

A inspiração veio da loja virtual de móveis LojasKD, na qual ele é conselheiro desde o começo deste ano devido à sua experiência em logística. “Os sócios da LojasKD buscavam capital e fizeram a lição de casa antes de procurar fundos de investimento”, afirma. “Estou adotando as mesmas iniciativas na TruckPad.”

Entende-se como lição de casa monitorar — e saber na ponta da língua — indicadores financeiros, como custo de aquisição por cliente (CAC), tíquete médio, projeção de quanto cada novo cliente pode gerar em receitas ao longo dos anos e taxa de cancelamento de contratos.


Analisar como o cliente age

Diego Lopes, 29 anos, da produtora de conteúdo publicitário Rock Content (Belo Horizonte, MG)

Empresa que aconselha: DeskMetrics (Belo Horizonte, MG), serviço que mede a qualidade e a eficiência de uso de softwares

O que aprendeu: O empreendedor Diego Lopes, da produtora de conteúdo mineira Rock Content, faz parte do conselho da também mineira DeskMetrics, empresa que mede o comportamento de uso de soft­wa­­­­res (onde os usuários clicam mais e que recursos são mais difíceis de encontrar, por exemplo).

Lopes foi convidado para ajudar a empresa a criar estratégias de marketing. “Ensinei aos sócios que desenvolver materiais didáticos sobre o que eles fazem poderia trazer novos clientes”, diz. “Em troca, aprendi muito sobre o próprio negócio com base em métricas da DeskMetrics.”

Por que não fazer o mesmo no site da Rock Content? Lopes passou a analisar dados, como de onde vêm os visitantes e como eles se comportam dentro da página. Com isso, aumentou a captura de potenciais clientes em 30%. “Eliminamos palavras complicadas e imagens que não chamavam a atenção”.

Aperfeiçoar o design do site

Stefan Schimenes, 27 anos, da empresa de publicidade online Cazamba (São Paulo, SP)

Empresa que aconselha: 99jobs 9São Paulo, SP), site de vagas de emprego

O que aprendeu: Quando Stefan Schimenes conheceu a 99jobs, site que reúne vagas de emprego, a primeira coisa que chamou sua atenção foi a concepção visual do serviço. “O design é moderno, colorido e é fácil encontrar o que se procura na página”, diz Schimenes. No ano passado, ele se tornou conselheiro da empresa.

Os sócios queriam ajuda para formar uma comunidade de potenciais clientes nas redes sociais, trabalho que Schimenes liderou quando era diretor do Airbnb, site americano que intermedeia o aluguel de imóveis por temporada. Nas reuniões de conselho, ele descobriu que o layout era um ponto estratégico no modelo de negócios da 99jobs.

Os visitantes interagem com o site da 99jobs arrastando ícones com o mouse, assistindo a vídeos e compartilhando conteúdos com os amigos. Inspirado na 99jobs, Schimenes decidiu reformular o site da Cazamba, empresa de publicidade online da qual é sócio. “Fizemos uma página interativa”, afirma Schimenes.

A nova versão permite que um potencial cliente veja simulações de cada tipo de publicidade que pode ser encomendada, como vídeos ou anúncios de tela inteira em smartphones. “Muitos clientes relataram que se interessaram por nossos serviços depois que fizeram esses testes.”

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.