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Você comeria grilo? Essa startup investe para popularizar os insetos no prato

A marca Hakkuna traz uma nova visão de consumo de proteína e deve chegar às gôndolas de mercados assim que a regulamentação na Anvisa for apurada

Os insetos já são alimento para mais de 2 bilhões de pessoas (Hakkuna/Divulgação)

Os insetos já são alimento para mais de 2 bilhões de pessoas (Hakkuna/Divulgação)

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Luiza Vilela

20 de setembro de 2022, 01h49

Existem alimentos que, na nossa cultura, podem soar pouco convencionais e até mesmo controversos para a substituição (ou complementação) de nutrientes. As PANCs, ou plantas comestíveis, já têm seu mercado próprio de consumo. A carne vegetal também está se popularizando. Em comum, elas apresentam benefícios nutricionais ou reduzem o impacto ambiental dos alimentos. Agora, pode ser a vez do mercado de insetos como alimentação saudável.

Hoje, esse mercado é mais comum no oriente do que no ocidente. Dados da Organização Mundial da Saúde para a Agricultura e Alimentação (FAO) mostram que os insetos já são alimento para mais de 2 bilhões de pessoas, sendo o besouro o mais consumido (31%), seguido pelas minhocas (18%), abelhas, vespas e formigas (14%) e gafanhotos e grilos (13%).

O mesmo estudo da FAO destaca que há em torno de 2 mil espécies de insetos consumidas em países da Ásia, América do Sul e África. Esses bichinhos são, inclusive, considerados iguarias: na Tailândia, é comum ver bandejas de gafanhotos fritos nos mercados, assim como, no Japão, as larvas de vespa são comidas vivas.

No ocidente, o consumo de insetos ainda caminha a passos lentos. Dados da Organização Europeia de Consumidores mostra, por exemplo, que apenas 10% das pessoas estariam dispostas a substituir a carne por insetos. Mas ainda que pareça distante do Brasil, esses alimentos já estão aqui e, em breve, poderão aparecer nas gôndolas do mercado. É esse, pelo menos, o sonho da Hakkuna.

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Os idealizadores do projeto

A Hakkuna é uma startup que pretende trazer a farinha de grilo como um ingrediente para uso em uma série de receitas. O objetivo é diversificar o mercado de alimentação no Brasil, usando a proteína de insetos na alimentação humana para adquirir nutrientes.

Ainda que não pareça, essa alimentação “alternativa” já é uma realidade por aqui. No Norte e Nordeste do País, a formiga Tanajura já é servida em formato de farofa (e até mesmo frita).

“Meu projeto veio de uma necessidade minha como consumidor, porque sempre fiz muitos esportes e eu queria uma fonte de proteína mais natural, sem muitos ingredientes químicos e que ao mesmo tempo fosse de alta qualidade” explica Luiz Filipe Carvalho. “Eu comecei a pesquisar no mercado internacional e achei uma startup nos Estados Unidos que estava fazendo barrinha de proteína com farinha de grilo. Pensei comigo ‘Pô, eu quero consumir isso’, mas não tinha ninguém no Brasil que fizesse”.

Luiz Filipe Carvalho, fundador da Hakkuna (Hakkuna/Divulgação)

O projeto foi idealizado por Carvalho, engenheiro e mestre em engenharia formado pela UFSCar. Com o sonho de se tornar empreendedor, ele já tinha sido acelerado pela Startup Farm, maior aceleradora de Startups da América Latina, em outro projeto descontinuado.

Uma vez que o projeto da Hakkuna foi estabelecido, Carvalho firmou parceria com Murilo Gustinelli, formado em Ciências Biológicas pela faculdade UNIMEP. Guistinelli, por sua vez, trabalha na área de entomologia há sete anos e acumulou experiência em dieta artificial de insetos.

Murilo Gustinelli, sócio da Hakkuna (Hakkuna/Divulgação)

Uma biofábrica em Piracicaba (São Paulo) dedicada à criação dos grilos para produção da farinha foi construída. Ele deve permitir a ampliação da linha de atuação para novas frentes. O objetivo é ser uma empresa que oferece uma diversa gama de produtos baseados em novas fontes de proteína para todos os públicos.

A ideia dos criadores é inclusive vender esses produtos no supermercado comum, além de firmar parceria com estabelecimentos de alimentação natural e saudável. Para isso, no entanto, é necessária a regulamentação na Anvisa.

Por que a escolha do grilo?

Foto: Hakkuna (Hakkuna/Divulgação)

A proposta inicial da Hakkuna foi fornecer um produto de alta qualidade, proteico e extremamente nutritivo, mas que não tivesse origem em mamíferos. Hoje, os produtos vendidos pela startup são todos feitos a partir da farinha de grilo desidratado e triturado, da espécie mais comum no Brasil. E o motivo da escolha, além do valor nutricional — composto por 65% de proteína com alto valor biológico —, foi a aceitação do público brasileiro.

“Escolhemos o grilo porque testamos vários insetos em diversos eventos, mas eles não eram muito bem vistos. Vimos que o grilo, apesar de ter uma barreira cultural, é o que tem a melhor aceitação no Brasil”, explica Luiz Filipe. “Vimos que o valor proteico dele é altíssimo, e essa ideia de pegar o grilo desidratado e triturado para usar como ingrediente aumenta a proteína em outros alimentos mais aceitos, como um pão, um doce”, complementa.

Outro ponto para a escolha do inseto foi o fator sustentável: em 2050, estima-se que o planeta terá 10 bilhões de pessoas e, então, será necessário encontrar novas fontes de proteínas. “É aí que entram os insetos”, explica Murilo Gustinelli.

“Se compararmos com vacas, por exemplo, os grilos utilizam um doze avos do alimento para a mesma quantidade de proteína, muito menos água, muito menos área, já que as criações podem ser verticalizadas”, explica Luiz Filipe.

Até então, o produto já foi testado para produção de macarrão, granola, pão, bolo e até como pós-treino. Inicialmente, no entanto, o menu da Hakkuna prevê a venda de sobretudo da farinha de grilo, barras de proteína e alguns snacks — que inclusive incluem o próprio grilo desidratado com alguns temperos, como salsa e bacon.

“E é legal que o grilo não interfere muito no gosto dos alimentos em geral. Ele tem um sabor bem neutro e acaba que o alimento fica ali com gosto dos outros ingredientes, mas com um grau de proteína muito maior. Enfim, a farinha de grilos é bem versátil. Dá para fazer uma gama bem grande de alimentos com ela”, diz Gustinelli.

Valor nutricional

Produtos da Hakkuna (Hakkuna/Divulgação)

O grilo comercializado pela Hakkuna é o comum, composto por uma alta quantidade de proteínas (65%). De acordo com um estudo publicado no periódico Scientific Reports, o consumo do grilo ainda traz alguns outros benefícios, como diminuição das inflamações no corpo e crescimento de bactérias benéficas ao intestino.

Outro estudo, dessa vez da Universidade Federal de Ouro Preto, destacou que a farinha do grilo é composta de 63,1% de proteínas e de 26,51% de lipídeos. Ou seja: uma boa fonte proteica.

Há um desafio legal a ser superado. O consumo de grilo na indústria ainda não foi bem regulamentado. Isso porque a Anvisa ainda não fez uma legislação específica para esse consumo humano.

A única aprovação da Anvisa a respeito dos insetos está incluída na alimentação animal. Em 2016, o órgão chegou a receber uma pergunta sobre a regulamentação do uso de farinha de grilos para alimentação animal. À época, a Avisa declarou que não havia nenhum pedido de regulamentação da farinha.

Para que o projeto da Hakkuna enfim possa sair do meio artesanal e entrar no industrializado, assim como para começar a vender o produto de fato, é necessário o registro da farinha de grilo como novo ingrediente. De acordo com Luiz Filipe, esse registro já está sendo produzido pela empresa para que a venda seja mais massiva.

Os produtos da Hakkuna estarão à venda em breve. De acordo com os sócios, a quantidade de farinha de grilo será limitada e os envios serão feitos a cada 15 dias. As opções iniciais serão embalagens individuais de 30g e pacotes com 10 embalagens de 30g.

Edição: Lucas Amorim

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