Veículos elétricos: o caminho a seguir para que eles virem maioria

Country manager da Arcadis no Brasil, Karin Formigoni fala sobre os desafios que a indústria automotiva ainda enfrenta para dar adeus aos modelos a combustão
Karin Formigoni: Políticas públicas e de incentivo, como descontos em pedágios, além da regulamentação de temas ambientais, incentivariam os veículos elétricos (JBS/Divulgação)
Karin Formigoni: Políticas públicas e de incentivo, como descontos em pedágios, além da regulamentação de temas ambientais, incentivariam os veículos elétricos (JBS/Divulgação)
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Da Redação

Publicado em 05/08/2022 às 10:30.

Última atualização em 05/08/2022 às 12:31.

Líder mundial no fornecimento de soluções sustentáveis de design, engenharia e consultoria para ativos naturais e construídos, a Arcadis marca presença em 70 países e gera 3,5 bilhões de euros em receita. A companhia oferece soluções de mobilidade que facilitam a adaptação climática e a transição energética rumo à neutralidade de carbono. Conversamos com Karin Formigoni, country manager da empresa no Brasil e resilience business director na região. Os desafios que impedem o adeus aos veículos a combustão nortearam a conversa.

A indústria automotiva tem condições de dar adeus aos motores a combustão nos prazos impostos pelos Estados Unidos e pelos países europeus?

Temos visto, nos últimos anos, um forte crescimento do mercado de veículos elétricos. Mas a participação deles na frota global total ainda é pequena. Uma pesquisa da Bloomberg estima que, até o final de 2022, 2% da frota global será elétrica. De acordo com um recente estudo publicado pela Arcadis, os modelos com emissão zero precisam representar 93% das vendas globais de novos veículos de passeio até 2035. Só assim para atingirmos uma frota net zero até 2050. Devido às diversas restrições estatais que visam a redução das emissões de gases poluentes e consequentes metas de descarbonização, a tendência é que a produção aumente significativamente nos próximos anos. E não fique restrita aos veículos particulares, mas também às frotas logísticas empresariais.

Quais são os principais entraves para que os veículos elétricos virem a maioria?

De forma geral, os entraves estão relacionados à atuação e aos incentivos dos governos, que deveriam ser mais assertivos em relação ao tema; à imaturidade do mercado e à velocidade de adaptação. E ainda há fatores relacionados à infraestrutura necessária e à experiência dos usuários. É preciso observar a disponibilidade de pontos de carregamento, os modelos de negócios dos pontos de carregamento, os investimentos necessários em toda a cadeia de fabricação e por aí vai. Políticas públicas e de incentivo, como descontos em pedágios, além da regulamentação e do monitoramento mais rígido de temas ambientais, também incentivariam os veículos elétricos. Algumas montadoras como Volkswagen, Ford e BMW pretendem que 50% ou mais de suas vendas globais sejam relacionadas a modelos totalmente elétricos até o fim da década. Para que isso ocorra, as fábricas devem ser reequipadas e as cadeias de suprimentos, reconfiguradas.

Quais são os principais entraves para que os veículos elétricos virem a maioria?

De forma geral, os entraves estão relacionados à atuação e aos incentivos dos governos, que deveriam ser mais assertivos em relação ao tema; à imaturidade do mercado e à velocidade de adaptação. E ainda há fatores relacionados à infraestrutura necessária e à experiência dos usuários. É preciso observar a disponibilidade de pontos de carregamento, os modelos de negócios dos pontos de carregamento, os investimentos necessários em toda a cadeia de fabricação e por aí vai. Políticas públicas e de incentivo, como descontos em pedágios, além da regulamentação e do monitoramento mais rígido de temas ambientais, também incentivariam os veículos elétricos. Algumas montadoras como Volkswagen, Ford e BMW pretendem que 50% ou mais de suas vendas globais sejam relacionadas a modelos totalmente elétricos até o fim da década. Para que isso ocorra, as fábricas devem ser reequipadas e as cadeias de suprimentos, reconfiguradas.

No Brasil, circulam apenas 100 mil veículos elétricos e o governo federal não impôs nenhuma meta para limitar a venda de modelos poluidores. Como convencer o país da importância de dar adeus a esses últimos?

Antes de tudo, é preciso ampliar os investimentos relacionados às tecnologias que fomentam a produção e a distribuição de energia limpa. Essas tecnologias ainda são pouco difundidas. Atualmente, o Brasil tem como meta reduzir suas emissões em 37% até 2025, em comparação a 2005. Para 2030, o objetivo é chegar a 50%. A eletrificação da frota é um passo importante para o cumprimento dessas metas. Algumas cidades já começaram a eletrificar suas frotas de transporte público, como São Paulo, que prevê 2.600 ônibus a bateria até 2024 (até 2030, o município não pretende operar mais modelos a diesel). Cada ônibus elétrico nas ruas equivale a uma redução de 120 toneladas de CO2 na atmosfera em um ano. O Brasil responde por cerca de 3,5% dos veículos em circulação no mundo, mas só por 0,4% do total de elétricos. Faltam políticas que estimulem a adesão a eles, o tempo de recarga é elevado e os preços de venda desses veículos ainda são elevados.

O número de empresas que anunciaram metas de neutralidade de carbono é incalculável. Até a China já disse que vai eliminar as emissões de poluentes, embora só em 2060. Estamos diante de uma nova onda de greenwashing?

Estamos vivendo um momento de emergência climática, no qual os impactos das mudanças ambientais nos negócios já são sentidos, considerados e analisados como componentes importantes de risco. O que se espera é que países e empresas levem a sério a situação e estabeleçam metas ambiciosas. No entanto, tais metas precisam estar alinhadas às estratégias de negócio. Países devem evidenciar o que estão fazendo, e como estão implementando suas ações para atingir suas metas, diminuindo riscos perante os investidores. 

Quando se trata de neutralidade de carbono, quais são as principais dificuldades em traduzir promessas em progresso tangível?

Do ponto de vista das empresas, o desafio maior é a construção e a divulgação de metas que possam ser cumpridas em curto, médio e longo prazo. Para que a evolução aconteça, políticas públicas devem ser criadas para incentivar uma cadeia de produção cada vez mais limpa. A ampla fiscalização para impedir o desmatamento ilegal, um dos grandes responsáveis pela nossa pegada de carbono, é primordial. Além disso, o mercado de carbono precisa ser regulamentado para que as compensações sejam fiscalizadas, medidas e comercializadas corretamente e de forma transparente. No Brasil, o mercado de carbono é voluntário, o que dificulta sua implementação. A não regulamentação fragiliza as metas divulgadas por empresas e governos, uma vez que as compensações atingidas por meio da compra e venda de carbono podem estar atreladas a organizações não certificadas. 

Com a pandemia resolvida, as empresas continuarão engajadas nas questões socioambientais ou, aos poucos, tudo voltará a ser como era antes?

Nada voltará a ser como antes, mas ainda precisamos amadurecer. A emergência climática requer compromissos sem volta. Não há opção. A pressão dos mercados de capital, da sociedade e dos diversos mecanismos de financiamento para novos projetos de infraestrutura fazem com que os avanços conquistados até agora não sofram retrocessos. As empresas precisam cada vez mais acompanhar as mudanças de valores da sociedade, colocando em prática as demandas socioambientais, proporcionando a geração de valor compartilhado. Para tanto, devem descobrir seu propósito e como sua atuação melhora a sociedade. Propostas vagas, que não tragam um legado e não promovam melhorias na qualidade de vida da população, podem ferir a reputação das empresas, afastando possíveis investidores.

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