Na QI Tech, IPO perde espaço; venda para bancos e recompra entram no radar
Pedro Mac Dowell diz ao EXAME Insight que a companhia se prepara para diferentes cenários de liquidez enquanto acelera aquisições e amplia sua atuação em infraestrutura financeira


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 17 de julho de 2026 às 08:02.
Na QI Tech, um eventual IPO em Nasdaq não é mais o plano A. Em entrevista ao EXAME Insight, Pedro Mac Dowell, CEO e fundador da empresa de infraestrutura financeira, cita venda para bancos e até uma espécie de management buyout como alternativas de liquidez. "Em um mercado líquido, podemos vender a companhia para um investidor estratégico ou realizar um IPO, mas isso deixou de ser nossa prioridade", diz. "Estamos nos preparando para tudo".
A mudança de discurso representa uma inflexão em relação ao cenário de poucos anos atrás. Em 2023, a QI Tech levantou US$ 200 milhões em uma rodada liderada pela General Atlantic, que avaliou a companhia em cerca de US$ 1 bilhão e a transformou em unicórnio. Na época, o IPO era visto como um caminho natural para monetizar o crescimento da empresa. "Recomprar a empresa passa pela nossa cabeça, mas outro caminho possível são os bancos. Já recebemos proposta antes e eles seguem interessados", diz Mac Dowell.
O interesse do mercado financeiro é compreensível — antigo. Em 2021, o Fundo Soberano de Cingapura, o GIC, liderou uma rodada de US$ 50 milhões na QI Tech. Naquela época, bancos também fizeram propostas.
No papel, a QI Tech é uma empresa de infraestrutura financeira que fornece tecnologia e licenças regulatórias para bancos, fintechs e empresas estruturarem produtos financeiros. A companhia atua nos bastidores do sistema financeiro, oferecendo serviços de Banking as a Service, infraestrutura de crédito e soluções para o mercado de capitais, sem disputar diretamente clientes finais. Na prática, trata-se de uma grande originadora. Por mês, são mais de 20 milhões de operações de crédito, o que representa cerca de R$ 9 bilhões.
M&A como motor de robustez
A estratégia de crescimento também passa por aquisições. Em junho, a QI Tech anunciou a compra da Autobanking, plataforma especializada em financiamento de veículos, em uma operação cujo valor não foi divulgado. Com o negócio, a companhia entra num setor com mais de R$ 500 bilhões em crédito e amplia sua atuação em infraestrutura financeira. "Se conquistarmos 5% em market share, estamos falando em R$ 1 bilhão ao mês — ou 10% da minha carteira atual. É relevante", diz Mac Dowell.
A tese não é competir com bancos no financiamento de automóveis, mas conectar concessionárias, originadores de crédito e investidores por meio de sua plataforma tecnológica e de sua estrutura regulatória, replicando o modelo que impulsionou o crescimento da empresa em outras verticais. "Para crescer de forma acelerada, precisávamos entrar em outros mercados, como o automotivo, que estava concentrado na mão de incumbentes ou bancos de nicho", explica. "Nossa grande vantagem é que somos rápidos: montamos a estrutura dos fundos, conectamos investidor com o detentor do crédito e não carregamos o risco no nosso balanço", diz.
A compra da Autobanking não será a única da QI Tech. A companhia já separou R$ 4 bilhões para aquisições até 2027 e deve anunciar mais duas operações neste ano. Há conversas com mais uma empresa que atua no setor automotivo e outra de custódia e administração de fundos. "É um mercado de baixa tecnologia, com mato muito alto", explica o executivo.
Não é de hoje que o mercado especula que a QI Tech poderia estar interessada na Vórtx, que atua justamente com administração fiduciária, escrituração, custódia, securitização e infraestrutura para o mercado de capitais — setores que Mac Dowell admite estar interessado. Mas ele classifica o assunto como "boato". "Temos contato, conheço os donos, mas por ora não temos conversas", diz. O que pode explicar a negativa de Mac Dowell é o preço do ativo, avaliado em cerca de R$ 2 bilhões.
A QI Tech também avalia entrar futuramente no setor de seguros e desenvolver produtos de tokenização, que converte ativos físicos (como imóveis ou obras de arte) ou direitos financeiros (como recebíveis e dívidas) em representações digitais (tokens) registrados em redes blockchain. Isso permite fracionar bens de alto valor em partes menores, facilitando investimentos mais acessíveis e aumentando a liquidez do mercado. "Queremos democratizar o acesso a ativos que estão na mão de grandes investidores", diz Mac Dowell. "Olhamos empresas que desenvolvem esse produto, mas estamos ainda avaliando se o produto para de pé junto a parceiros", revela.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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