“As medidas são boas, o problema é a velocidade de execução”, diz Galló

Para o presidente do conselho da Renner, tem de haver integração entre um grande líder, com vice-líderes de saúde e de economia

A pandemia de coronavírus contaminou as expectativas para a economia, negócios e investimentos, exigindo soluções tanto por parte do governo quanto das empresas. Em entrevista ao vivo para a série exame.talks, José Galló, presidente do conselho de administração da varejista Lojas Renner, lembra que o Brasil já viveu muitas crises: as industrias pararam, 300% de inflação ao mês, as lojas fecharam, mas muitas empresas continuaram existindo. “O líder precisa entender que crises têm quatro etapas: a primeira é do pânico, das medidas extremas, quando as pessoas estão perdidas; depois é a do realismo – o que podemos fazer com funcionários, fornecedores -; depois entramos na fase da solidariedade, da compreensão e, por fim, é a fase da negociação”, afirma. “Essa crise é mais complicada porque começa na saúde com impactos na economia. Por isso, tem que haver integração entre um grande líder com dois vice-líderes, um de saúde e um de economia. Esse triunvirato precisa definir prazos, não pensar em eleição, é momento de união. O problema é que a fase do pânico está sendo alimentada por desencontros.” Participam também do bate-papo, Marcos Lisboa, presidente do Insper, e Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR.

 

O primeiro passo, diz Mufarej, é reconhecer que há um problema. “A partir disso, é possível endereçá-lo de forma contundente e transparente, o que no Brasil tem sido feito de forma errática. Os discursos vão em direções antagônicas, e diferentemente do que aconteceu na Itália onde a crise serviu para unir as pessoas, acho que sairemos mais distantes”, afirma. “Certamente, não é a melhor maneira de entrar em uma guerra, em uma situação tão difícil como essa.”

Para Lisboa, não temos liderança hoje. “Deveria haver um comitê gestor da crise com médicos e técnicos coordenando os trabalhos, para estabelecer protocolos básicos para a saúde e informar a população que está muito desinformada. Vejo discussões de economia versus saúde, mas não existe esse debate, porque não afeta apenas o grupo de risco, mesmo a população jovem e saudável vai precisar de atendimento hospitalar”, diz. Tanto é que os países que demoraram a tomar medidas mais duras como os Estados Unidos acabaram passando o total de infectados da China. “Infelizmente, estamos no grupo de países que menos se preparou para o problema.”

Mas tão importante quanto garantir o distanciamento social é assegurar que a economia não pare por completo, afinal alguns serviços são essenciais, como a produção de alimentos, fornecimento de energia, água e gás, sem falar na transferência de renda para grupos mais vulneráveis. Além disso, é imprescindível organizar a logística e a infraestrutura para que a produção continue escoando para seus destinos, mesmo na atual condição. “Falta capacidade de coordenação por parte do governo, porque a crise está avançando rápido demais.”

Galló lembra que o país não parou totalmente: o setor agrícola continua trabalhando, assim como algumas indústrias. “Mas cada uma faz da maneira que acha que é melhor. Poderíamos ser chamados [empresários] para ajudar nesse sentido”, diz Galló. O problema, afirma Mufarej, é que “estamos esperando iniciativas de onde não está vindo [governo federal], virou uma briga retórica que não vai ajudar a população no fim do dia. Estão tratando como se não fosse uma crise, como se fosse uma criação da mídia. O momento é fundamental para agir.”

Apesar da urgência, até agora, a maior parte do pacote econômico de 308,9 bilhões de reais anunciado pelo ministério da Economia ainda não saiu do papel. Isso impacta diretamente a vida de 40 milhões de trabalhadores informais que inicialmente receberiam 200 reais por mês de ajuda, mas ainda se encontram em compasso de espera. Ontem, o presidente Jair Bolsonaro revisou para cima o valor para 600 reais, e a proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados. O texto agora precisa ser analisado e aprovado pelos senadores.

Para Galló, as medidas anunciadas são boas, o problema é a velocidade da execução. “Precisam entrar em campo imediatamente, como vamos viralizar? Precisa haver solidariedade das empresas com fornecedores e clientes. Recebeu recursos? Ajude o seu redor.” Na opinião de Lisboa,  as medidas anunciadas estão atrapalhadas. “Os primeiros anúncios foram para antecipar o 13o salário dos aposentados, mas o fato é que quem mais vai sentir a crise são os informais que, muitas vezes, estão fora do mercado de crédito.”

Não é só isso. Os estados estão pedindo muito dinheiro, como se fossem ter uma queda de 34% de arrecadação, que não parece ser o caso, segundo Lisboa. “Há muito oportunismo. É necessário entender que o Brasil empobreceu, perdemos esse bonde.” Isso fica claro ao dividir toda renda produzida nos países emergentes fora da América Latina pelo total de trabalhadores. O resultado dessa conta entre 1995 e 2016 foi de um crescimento de quase 130%. Nos Estados Unidos, o avanço foi de 48%, enquanto na OCDE, de 35%. Por sua vez, no Brasil, foi de apenas 19%. “Na última década, o país passou a crescer menos do que a média histórica, o que levou as empresas a ficarem fragilizadas. Por isso, essa parada súbita é ainda mais grave”, acrescenta Lisboa.

Mas o setor público não faz a sua parte. “É um universo paralelo onde o setor público vive, porque não há desemprego e o salário dos servidores não pode cair, mesmo com o empobrecimento do país. Gera indignação, como se o Tesouro fosse um caixa inesgotável. Vejo solidariedade do setor privado, mas no setor público, não”, acrescenta Lisboa.

Mufarej concorda. “O Brasil vai empobrecer radicalmente, mas ninguém [do setor público] quer colocar seu quinhão. O setor público tem que se socializar e entender o papel dele, excluindo, é claro, os segmentos de segurança, saúde e educação que são fundamentais nesse momento. Mas ninguém fala isso.” É a fase da solidariedade, descrita pelo Galló.

Então, o que deveria ser feito? Os três concordam que é necessário criar um comitê organizado de crise, integrado a estados, municípios, coordenando com o Judiciário. É, em outras palavras, gestão para entender os problemas localizados. “Por que não criar um call center para a população ligar e saber se o que está sentindo é sintoma característico da doença, se deve ir para o hospital e para qual hospital? Tudo isso requer prontidão”, afirma Lisboa. Também deveria ser feito o mapeamento de protocolos essenciais de serviços que não podem ser interrompidos.

Mufarej lembra que o Brasil não tem um prontuário médico comum, que é essencial para definir ações coordenadas. “É muita ineficiência para lidar com crises. Até hoje, a carteirinha de vacinação no posto de saúde é de papel. A tecnologia está aí, mas não usamos. É um enorme desafio de execução.”

Lisboa acrescenta que a prioridade devem ser medidas voltadas para os vulneráveis, “mas temos que rever os gastos obrigatórios do Estado para o Estado caber dentro do Brasil, pois o risco de descontrole é grande e pode levar a uma crise longa”. Segundo ele, o país postergou enormemente o enfrentamento de seus problemas. “Vários estados têm fundos com bilhões de reais parados que seriam usados para atividades corporativas e modernização. Por que não usar esse dinheiro? Será que não é o momento de reduzir significativamente o sistema S? Muitas vezes, o obstáculo é o corporativismo.”

Enquanto isso, a doença avança rapidamente no Brasil. Em uma semana, os casos triplicaram e já são 2.915 pacientes infectados e 78 óbitos. 

O debate foi mediado pelo repórter João Pedro Caleiro.

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