Policiais tentam conter manifestantes durante protesto em Tirana, capital da Albânia. (Armend Nimani/AFP)
Repórter
Publicado em 25 de outubro de 2026 às 08h00.
Nas últimas semanas, centenas de milhares de estudantes participaram de protestos de jovens na Europa, com atos na Espanha, França, Itália e outros países contra a falta de representação política e de respostas às demandas da juventude. Os manifestantes cobram aluguéis mais acessíveis, mais recursos para a educação e empregos, enquanto França e Itália reforçaram medidas de segurança.
De acampamentos na região central de Madri a escolas tomadas em Roma, além de protestos na França, a juventude de várias partes da Europa tem demonstrado insatisfação com uma classe política que, segundo eles, os ignora.
Embora apresentem reivindicações variadas, os manifestantes compartilham o objetivo de dar visibilidade a pautas frequentemente excluídas. Em alguns casos, diante de reações policiais violentas, o grupo tem apelado para táticas mais radicais.
"Continuaremos nas ruas para retomar o futuro que as classes dirigentes nos tiraram", declarou o estudante Damiano Fusa, de 18 anos. Ele estuda no Liceu Cavour, em Roma, instituição que marcou a primeira ocupação estudantil na capital da Itália, movimento que logo se estendeu para dezenas de outros colégios.
À agência AFP, o jovem ressaltou que "ninguém nos representa". Em sua crítica, ele mira tanto os antigos governos de centro-esquerda quanto a atual coalizão de extrema direita da primeira-ministra Giorgia Meloni, apontando a redução de verbas para a educação e a falha em atender às demandas da juventude.
Nas semanas recentes, centenas de milhares de alunos foram às ruas na Espanha, na França e em demais nações europeias, em atos que chegaram a resultar em distúrbios.
O poder público tem focado suas respostas na manutenção da ordem: enquanto o território francês adotou toques de recolher parciais, o governo italiano acionou os militares. Para os estudantes, essa postura esconde as verdadeiras exigências e tem o potencial de piorar a crise.
A pauta da juventude inclui cobranças por ações contra a alta dos aluguéis nos centros urbanos, a transferência de recursos da área de defesa para o ensino e a ampliação das vagas de emprego para os mais novos.
Contudo, analistas identificam uma questão ainda mais profunda: um grupo expressivo da sociedade não encontra representatividade na política e cultiva um ressentimento cada vez maior por se ver à margem do sistema.
Destroços de veículo incendiado diante da prefeitura de Limoges, na França: prédio histórico foi atingido por incêndio durante onda de violência após protestos contra o alto custo de vida (PASCAL LACHENAUD / AFP)
O descontentamento juvenil ganha força sobretudo no território francês e italiano, locais que têm novas manifestações agendadas para o próximo sábado.
"As pessoas estão furiosas, não aguentam mais. Trabalhar duro o dia todo para, no fim, não conseguir encher o carrinho de compras", relatou à AFP o estudante Eddy, de 20 anos, que participou de um ato na cidade de Bordeaux no final de semana passado.
"Quebrar tudo vai mudar as coisas? Acho que pode servir como um alerta para os políticos. Não sabemos mais o que fazer para sermos ouvidos. As urnas? Não acreditamos nelas", complementou.
As diversas frentes de protesto na Europa costumam trocar influências e até buscam referências em mobilizações de jovens de nações mais distantes, a exemplo de Bangladesh, da Índia e do Nepal.
Como exemplo, um slogan veiculado na semana passada orientava os alunos na Itália a "fazer como na França". Além disso, os grupos utilizam símbolos em comum, como a bandeira pirata da obra One Piece, frequentemente vista em manifestações juvenis globais.
A escalada das despesas militares no continente europeu, intensificada desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, representa outro ponto de forte preocupação.
Morador do bairro de Exarchia, em Atenas, o aluno do ensino médio Nikos Mavroudis, de 17 anos, defende que esse montante deveria ser realocado para reformar o seu colégio, que sofre com quedas de pedaços de gesso.
"Não é aceitável que as salas de aula sejam perigosas", pontuou o adolescente. Ele, que deseja trabalhar como cozinheiro, tem planos de deixar a Grécia e migrar "para países onde as coisas funcionam melhor" na Europa.
Já no colégio de ensino médio Morgagni, localizado em Roma, os estudantes utilizaram carteiras para bloquear as portas e denunciar o cenário de deterioração da infraestrutura educacional.
Um manifestante de 18 anos, que optou pelo anonimato, queixou-se de que a imprensa e os líderes políticos na Itália dão atenção excessiva aos episódios de vandalismo e saques praticados por uma parcela dos grupos. Na visão dele, essa abordagem funciona "unicamente para direcionar o ódio contra os estudantes, que são as vítimas deste sistema".
Com AFP
Os jovens protestam contra a falta de representação política e de respostas para problemas que afetam seu futuro. As reivindicações incluem ações contra a alta dos aluguéis, mais recursos para a educação e ampliação das vagas de emprego.
A França adotou toques de recolher parciais, enquanto o governo italiano acionou os militares. Para os estudantes, o foco na manutenção da ordem esconde suas reivindicações e pode agravar a crise.
Os estudantes criticam a redução de verbas para a educação e a falta de respostas às demandas da juventude. Damiano Fusa, aluno de 18 anos do Liceu Cavour, também afirmou à AFP que nenhum grupo político representa os jovens.
Os estudantes defendem que parte dos recursos destinados à defesa seja transferida para a educação. Nikos Mavroudis, aluno de 17 anos em Atenas, afirmou que o dinheiro deveria financiar a reforma de seu colégio, onde pedaços de gesso caem das estruturas.
Os movimentos trocam referências entre países europeus e também acompanham mobilizações em Bangladesh, Índia e Nepal. Na Itália, um slogan orientou os alunos a seguir o exemplo da França, enquanto a bandeira pirata de One Piece apareceu como símbolo comum nos atos.
Parte dos manifestantes considera que a classe política não escuta suas demandas. Eddy, estudante de 20 anos que participou de um ato em Bordeaux, declarou à AFP que não acredita mais nas urnas e vê os distúrbios como um possível alerta aos políticos.