Leopardo das neves: espécie rara vive em áreas remotas da Índia (Eric Kilby/Wikimedia Commons)
Repórter
Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 06h01.
Encontrados em apenas 12 países pela Ásia central e sudeste asiático, leopardos das neves estão entre os animais mais raros do mundo. Elusivos e solitários por natureza, a Índia é o lar da maior população desses felinos do mundo – cerca de 700 – de acordo com uma pesquisa de 2023.
Um dos lugares onde habitam é o vale Spiti, no estado de Himachal Pradesh, uma região de alta latitude no Himalaia, e um dos lugares mais remotos e inóspitos da Índia, devido às suas baixas temperaturas e isolamento natural. Nessa região, os leopardos das neves são chamados de “fantasmas das montanhas”, pois caminham silenciosamente pelas paisagens rochosas, raramente se revelando.
Por gerações, habitantes viram os felinos como ameaças, devido aos riscos que os predadores apresentam ao gado. A caça ilegal por peles e pela carne utilizada na medicina tradicional do Tibete e da China, ou em defesa dos bois, virou uma grande ameaça para a espécie, juntamente com o aquecimento global, que põe em risco direto o seu habitat natural.
Todavia, as percepções sobre esses elusivos predadores estão mudando, conforme habitantes reconhecem a importância do animal e de seu papel como o topo da cadeia alimentar, mantendo estável o frágil ecossistema montanhoso onde vivem.
Ajudando nisso, está um grupo de cerca de uma dúzia de mulheres locais, que agora trabalham lado a lado com o departamento florestal do estado de Himachal Pradesh e demais conservacionistas para rastrear e proteger a espécie, cumprindo um papel cada vez mais importante em esforços de conservação.
As mulheres foram treinadas na instalação e monitoramento de câmeras escondidas, que tiram fotos automaticamente de animais que passam, por meio de sensores de movimento.
Desbravando as duras condições, as mulheres instalam as câmeras e depois monitoram as imagens. Essas expedições, ainda por cima, ocorrem durante o inverno, quando a neve pesada força os leopardos e suas presas para áreas mais baixas, onde suas rotas são mais fáceis de acompanhar.
Em dias de pesquisa, as mulheres acordam cedo e terminam suas tarefas domésticas antes de se encontrarem em um acampamento que serve de base – daí, utilizam veículos para ir o mais longe possível nas montanhas, e depois seguem a pé por vários quilômetros para montar as câmeras, frequentemente em altitudes de mais de 4.300 metros acima do nível do mar, onde o ar rarefeito deixa qualquer esforço significativamente mais difícil.
Procurando por rastros, como pegadas, restos de caças e marcações de território, as pesquisadoras escolhem com cautela o melhor lugar para montar as câmeras. Quando um dos dispositivos é posicionado, as mulheres fazem um “teste de caminhada”, andando na frente das câmeras para avaliar a altura e o ângulo, garantindo imagens nítidas. Depois disso, o grupo passa por lugares onde já montou câmeras, recuperando cartões de memória e trocando baterias instaladas semanas antes.
O grupo faz isso desde 2023, recebendo entre 500 e 700 rúpias por dia (28 a 40 reais).
É apenas no meio da tarde que elas retornam ao acampamento-base, onde utilizam softwares específicos para analisar as imagens. "Estudei apenas até a quinta série", diz à BBC a voluntária Chhering Lanzom. "No começo, eu tinha medo de usar o computador. Mas aos poucos, aprendemos a usar o teclado e o mouse."
Além de rastreamento e documentação, as mulheres também ajudam habitantes dos vilarejos locais a conseguirem esquemas de seguro para suas cabeças de gado e promovem o uso de alternativas – como celeiros desenhados contra predadores naturais – que protegem seus animais sem ferir os leopardos. O projeto vem em um momento de reconhecimento da importância natural dessa região, com o vale Spiti sendo recentemente incluso na Reserva da Biosfera do Deserto Frio, uma rede reconhecida pela Unesco que visa conservar ecossistemas frágeis e, ao mesmo tempo, apoiar os meios de subsistência locais.
Seus esforços contribuíram para um grande estudo em todo o estado, que documentou não só leopardos das neves, mas também 43 outras espécies de animais espalhadas por 26.000 quilômetros quadrados, revelando uma biodiversidade considerável em um ambiente vazio a um primeiro olhar. Leopardos individuais foram observados a partir de padrões únicos em seus pelos, permitindo que o grupo acompanhe as jornadas de cada leopardo, ajudando em esforços de conservação e preservação de habitats.