Nicolás Maduro é visto algemado após pousar em um heliporto em Manhattan, escoltado por agentes federais fortemente armados enquanto se dirige a um carro blindado rumo a um tribunal federal em Manhattan, em 5 de janeiro de 2026, na cidade de Nova York (XNY/Star Max /Getty Images)
Repórter
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 13h30.
Última atualização em 6 de janeiro de 2026 às 13h42.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos reescreveu a acusação contra o líder venezuelano Nicolás Maduro e retirou a alegação de que ele lidera o Cartel de Los Soles. A nova formulação também atenua a descrição da existência do grupo, anteriormente tratado como um cartel de drogas estruturado e com comando centralizado.
A mudança de redação foi identificada pelo jornal norte-americano The New York Times e marca um recuo na linguagem adotada pelo governo Trump desde 2020, ano em que a acusação original foi apresentada. Na ocasião, Maduro era apontado como líder de uma organização narcoterrorista, responsável por operações internacionais de tráfico de drogas.
Em 2025, em meio ao agravamento da tensão entre Washington e Caracas, o governo dos Estados Unidos manteve a narrativa de que o Cartel de Los Soles era comandado por Maduro. Esse discurso antecedeu uma ação militar conduzida pela administração Trump, no sábado, 3, com o objetivo de capturar Maduro e sua esposa, Cilia Flores, na capital venezuelana. A ofensiva, sem precedentes na América Latina recente, gerou reações negativas de diversos governos da região.
Segundo o novo documento divulgado pelo Departamento de Justiça, Maduro agora é descrito como alguém que "participa, protege e perpetua uma cultura de corrupção associada ao tráfico de drogas". A acusação reformulada foca no uso do narcotráfico como instrumento de enriquecimento ilícito, em vez de apresentar o ex-presidente como líder de uma estrutura criminosa organizada.
A menção ao Cartel de Los Soles também foi reduzida. Embora o Departamento de Estado tenha designado o grupo como organização terrorista internacional em novembro, a nova peça judicial menciona o nome apenas duas vezes. O cartel passou a ser tratado como um termo genérico, usado para descrever práticas de tráfico de drogas vinculadas a setores da elite política e militar venezuelana.
"O réu, Nicolás Maduro Moros — assim como o ex-presidente Chávez antes dele — participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção na qual as elites poderosas da Venezuela se enriquecem por meio do tráfico de drogas e da proteção de seus parceiros traficantes. Os lucros dessa atividade ilegal fluem para oficiais civis, militares e de inteligência corruptos de diferentes níveis, que operam em um sistema de clientelismo comandado pelos que estão no topo — conhecido como Cartel de Los Soles ou Cartel do Sol, em referência ao símbolo do sol afixado nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente", disse o Departamento de Justiça.
Embora não existam registros oficiais que confirmem a estrutura do Cartel de Los Soles, a hipótese sustentada por órgãos do governo dos Estados Unidos aponta que o grupo teria se formado a partir da ascensão de Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em 1999.
Segundo essa narrativa, o cartel teria promovido uma integração entre setores do Estado e o tráfico de drogas, caracterizando um processo de centralização das atividades ilícitas sob controle de autoridades civis e militares — fenômeno classificado por analistas norte-americanos como uma forma de "narcoestado".
Em 25 de julho, os Estados Unidos designaram o Cartel de Los Soles como "Terrorista Global Especialmente Designado" (SDGT, na sigla em inglês). Na época que a medida foi tomada, o governo de Donald Trump reiterou a acusação de que o grupo é liderado por Nicolás Maduro.
A designação SDGT tem foco na dimensão financeira e costuma ser aplicada a indivíduos, empresas ou redes envolvidas no financiamento de atividades terroristas ou em operações criminosas transnacionais. Diferente da classificação como Organização Terrorista Estrangeira (Foreign Terrorist Organization, ou FTO), que é usada para grupos como o Estado Islâmico, o rótulo de SDGT viabiliza o bloqueio de ativos e sanções econômicas.
A nova tipificação, como organização terrorista, ampliou o escopo das acusações feitas por Washington e, principalmente, passou a oferecer base jurídica para ações militares conduzidas pelo governo Trump contra alvos venezuelanos.
No mesmo mês, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, ligado ao Departamento de Estado, divulgou nota afirmando que o Cartel de Los Soles atua em cooperação com facções criminosas como o Tren de Aragua, da Venezuela, e o Cartel de Sinaloa, do México — ambos também incluídos na lista de organizações terroristas estrangeiras.
O nome Cartel de Los Soles, que em português significa "Cartel dos Sóis", faz referência às insígnias utilizadas por generais das Forças Armadas venezuelanas. Ao contrário de estrelas, esses oficiais usam sóis como símbolo de patente, o que teria inspirado a denominação atribuída ao suposto grupo criminoso.
Os Estados Unidos invadiram a Venezuela na madrugada deste sábado, 3, e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em uma operação militar de grande escala que incluiu bombardeios em Caracas e em regiões estratégicas do país.
A ação, confirmada pelo presidente americano Donald Trump, levou o líder chavista para uma prisão nos Estados Unidos sob acusações de narcoterrorismo e abriu uma crise sem precedentes recentes na América do Sul, com impactos diretos sobre a soberania venezuelana, o equilíbrio regional, o mercado global de petróleo e a arquitetura de segurança internacional.
Os Estados Unidos afirmam ter realizado um ataque em larga escala contra a Venezuela, com bombardeios em Caracas e em estados estratégicos como Miranda, La Guaira e Aragua. Segundo Washington, a ofensiva derrubou sistemas de energia e alvos militares antes da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Maduro foi capturando antes de entrar em um bunker, retirado do país e levado para os Estados Unidos, onde está preso no Metropolitan Detention Center, no Brooklyn. Ele é acusado de narcoterrorismo e tráfico internacional de cocaína e deverá responder a processos em tribunais de Nova York. Autoridades venezuelanas afirmam que integrantes da equipe de segurança presidencial foram mortos durante a operação.
A ação foi conduzida, segundo a imprensa americana, por militares da Delta Force, unidade de elite do Exército dos EUA.
Após a operação, Trump apresentou o que chamou de “Doutrina Donroe”, em referência direta à Doutrina Monroe, ao afirmar que o hemisfério ocidental estaria sob responsabilidade de Washington. O presidente dos EUA disse que a ofensiva representa uma nova estratégia de intervenção regional e afirmou que novas ações militares não estão descartadas.
Trump declarou que as Forças Armadas americanas permanecem prontas para um segundo ataque caso o novo comando venezuelano “não se comporte”. O presidente também fez advertências diretas a Colômbia e México, sugerindo que ambos enfrentam problemas ligados ao narcotráfico e poderiam ser alvo de iniciativas semelhantes.
(Com informações da AFP)