Encontro de durões: Putin recebe Erdogan para discutir Síria

Apesar de serem aliados militares e econômicos, Rússia e Turquia defendem lados opostos na guerra civil síria
Putin e Erdogan: presidente turco telefonou para Putin e disse que a violação do acordo de cessar-fogo por parte das tropas sírias ameaça a segurança nacional turcas (Alexander Zemlianichenko/Reuters)
Putin e Erdogan: presidente turco telefonou para Putin e disse que a violação do acordo de cessar-fogo por parte das tropas sírias ameaça a segurança nacional turcas (Alexander Zemlianichenko/Reuters)
R
Redação EXAME

Publicado em 27/08/2019 às 06:31.

Última atualização em 27/08/2019 às 06:49.

São Paulo — O presidente turco, Recep Erdogan, visita seu par russo, Vladimir Putin, nesta terça-feira, 27, em mais um esforço para manter o bom relacionamento de dois dos governos vistos com mais desconfiança pelo ocidente.

A reunião é uma tentativa de solucionar pacificamente a crise política entre os países, que começou na semana passada com os ataques militares à região síria de Idlib — a última que resiste ao governo de Bashar al-Assad.

Apesar da proximidade entre Ancara e Moscou, os dois países defendem lados opostos na guerra civil síria. Putin apoia al-Assad, enquanto Erdogan defende os rebeldes que lutam contra seu regime. Em um acordo feito em setembro de 2018, Turquia e Rússia concordaram que a região de Idlib, que faz fronteira com o território turco, seria uma área de desmilitarização, onde o uso da força seria proibido. Cerca de 4 milhões de civis vivem ali.

Mesmo assim, nos últimos meses, o regime sírio e seus aliados têm consistentemente desobedecido o cessar-fogo na área. Até que, na semana passada, forças de Damasco tomaram o poder da cidade das mãos do rebelde Jan Sheijún e cercaram um posto militar turco, instalado na época do acordo.

O governo turco, que já acolheu mais de 3,6 milhões de refugiados sírios desde que o conflito começou em 2011, subiu o tom com a situação de Idlib. Na sexta-feira, Erdogan telefonou para Putin e disse que a violação do acordo por parte das tropas sírias prejudica os esforços de resolução do conflito na Síria e ameaça a segurança nacional turca.

O governo russo, por sua vez, emitiu uma nota, na última segunda-feira, 26, afirmando que nenhum acordo foi violado e que a “eliminação do terrorista Sheijún foi legítima e necessária”.

Nenhum dos lados parece disposto a ceder, mas o passado mostra que os países tendem a se reaproximar. Putin e Erdogan chegaram a ficar quase um ano sem se falar, entre 2015 e 2016, quando um caça russo foi derrubado por forças turcas, mas os interesses mútuos reataram os laços.

Agora, poucos meses após Erdogan adquirir sistemas de defesa antiaérea russos, deixando de lado uma proposta dos Estados Unidos, não é o melhor momento para Ancara romper com Moscou.

O Kremlin está seguro de que a questão síria não é um grande problema com os turcos. Ao falar do encontro dos líderes, fontes do governo russo disseram que é possível que Putin e Erdogan aproveitem a reunião desta terça para discutir mais acordos de compra de armas.

“Turquia é nosso parceiro mais próximo, nosso aliado. Estamos ligados por acordos econômicos multifacetados e bem alinhados, em áreas sensíveis como cooperação militar”, disse um porta-voz russo a agências internacionais, tentando afastar os rumores de que existe um problema entre os governos. Não é um cessar-fogo desrespeitado em Idlib que deve voltar a afastar dois presidentes que têm muito em comum.