Eletricistas desafiam lei e reconectam gregos desempregados

Perder a eletricidade é mais uma dificuldade enfrentada pelos desempregados gregos, que agora chegam a 27% da população economicamente ativa

Nova York - Kostas Ioannidis, um ferreiro desempregado com a mãe doente e a mulher com deficiência, não pode pagar a luz. Então ele a rouba.

Como milhares de gregos, Ioannidis foi desconectado da rede elétrica porque ele não podia pagar as contas. Ele deve 2,7 mil euros (US$ 3.668) e não pode realizar nem os pagamentos mensais de 150 euros que negociou com a companhia elétrica. Quando a luz foi cortada em outubro – pela segunda vez em dois anos –, ele a ligou ilegalmente mexendo nos cabos.

“Eu perdi meu pai e meu irmão mais novo e não quero perder minha mãe”, disse Ioannidis, de 55 anos, em entrevista no pequeno apartamento da sua mãe em um bairro operário de Tessalônica. “A saúde da minha mãe é mais importante para mim do que a legalidade”.

Perder a eletricidade é mais uma dificuldade enfrentada pelos desempregados gregos, que agora chegam a 1,37 milhão ou 27 por cento da população economicamente ativa.

Nos primeiros nove meses do ano houve 257.002 cortes no fornecimento de luz devido à falta de pagamento das contas, deixando o país a caminho de superar o total do ano passado em 5,4 por cento, segundo a Autoridade Reguladora de Energia.

As desconexões criaram um movimento de eletricistas clandestinos que restabelecem a energia ilegalmente para eles mesmos e para outros. Cerca de um de cada dez lares será reconectado sem autorização neste ano, segundo a Hellenic Electricity Distribution Network Operator S.A.


Comitês de solidariedade

A prática faz parte de um padrão mais amplo de protestos e resistência na Grécia. Cidadãos com raiva formaram comitês de solidariedade que tomaram edifícios estatais, distribuíram comida e medicamentos e ajudaram a impulsionar a ascensão da Coalizão da Esquerda Radical, chamada Syriza, como principal partido opositor da Grécia.

“Se alguém não tiver comida, tentamos dar-lhe comida”, disse Athina Teskou, de 26 anos, membro de um comitê em Tessalônica que reconectou mais de 30 lares. “Se alguém não tiver luz, tentamos dar-lhe luz”.

Desde 2010, como parte de medidas de austeridade exigidas por credores internacionais que comprometeram 240 bilhões de euros à Grécia, o país criou novos impostos e reduziu serviços, salários públicos e pensões. Os aumentos no imposto sobre o consumo ajudaram a elevar o preço da eletricidade em 59 por cento desde 2007.

No ano passado, a renda dos 10 por cento dos gregos mais pobres era menos da metade do que em 2009, e 37 por cento estão abaixo da linha de pobreza de 2009, disse Manos Matsaganis, economista na Universidade de Economia e Negócios de Atenas. Menos de 19 por cento dos desempregados recebem benefícios, mas seus custos aumentaram, disse Matsaganis.


‘Desobediência civil’

Sob tais condições, o restabelecimento ilegal da energia elétrica é uma forma compreensível de resistência contra a injustiça financeira, disse Euclid Tsakalatos, economista na Universidade de Atenas e membro do parlamento pelo partido Syriza.

“Vemos a desobediência civil como uma parte genuína da cultura europeia”, disse Tsakalatos sobre o Syriza.

A maioria das reconexões é feita nos lobbies dos prédios de apartamentos de Tessalônica, que normalmente possuem 10 ou 12 unidades agrupadas em volta de uma escadaria central e uma caixa de luz no térreo com os medidores.

Às vezes, a reparação se limita a trocar o fusível, que é removido pela companhia elétrica, disse Stavros, eletricista de 47 anos que não quis divulgar seu sobrenome por medo a represálias.

Trabalhos mais complicados requerem religar cabos cortados. Em alguns casos, quando a eletricidade foi restabelecida várias vezes, a companhia elétrica retira o medidor inteiro e a reconexão fica mais cara, disse Stavros.

Quando ficou sem luz há alguns meses, Ioannidis se reconectou, usando habilidades que aprendeu quando trabalhava para uma companhia telefônica. Ele disse que não sabia como recolocar o medidor, e em consequência, ele espera que quaisquer penalidades que ele enfrentar serão mais duras.

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