Eleições nos EUA: prática de gerrymandering pode influenciar no resultado das eleições dos EUA (Shannon Stapleton/Reuters)
Colaboradora
Publicado em 2 de novembro de 2026 às 08h00.
Os americanos votam nas midterms na terça-feira, 3, para renovar a Câmara e um terço do Senado. Nove estados usarão novos mapas distritais, com saldo potencial de nove cadeiras republicanas, segundo o site Ballotpedia. Embora o levantamento Reuters/Ipsos indique vantagem democrata de 47% a 35%, o gerrymandering pode decidir a Câmara se a disputa for apertada.
Na terça-feira, 3, os americanos vão às urnas nas eleições de meio de mandato, as chamadas midterms. Estão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e cerca de um terço do Senado.
O resultado vai mostrar se o presidente Donald Trump segue com um Congresso aliado ou se enfrentará uma oposição democrata nos dois últimos anos de mandato. Se a oposição ganhar uma das Casas, poderá barrar medidas da Casa Branca e abrir investigações. A EXAME já explicou por que Trump pode perder o Congresso em novembro.
Desta vez, porém, a disputa começou antes do voto. Nove estados chegam a esta eleição com novos mapas de distritos, depois de uma onda de redesenhos fora do calendário normal.
Esse tipo de manobra tem nome: gerrymandering. E, com uma Câmara tão dividida, o desenho dos distritos pode pesar no resultado. Em agosto, os republicanos tinham 218 cadeiras, contra 212 dos democratas, com quatro vagas abertas.
Gerrymandering é a prática de desenhar os limites dos distritos eleitorais para dar uma vantagem injusta a um partido (gerrymandering partidário) ou para diluir o poder de voto de minorias étnicas e linguísticas (gerrymandering racial).
O termo nasceu em 1812, quando o governador de Massachusetts, Elbridge Gerry, sancionou uma lei que redesenhou os distritos do Senado estadual de forma a favorecer o próprio partido.
O contorno de um dos distritos lembrava uma salamandra. Um cartum publicado no jornal Boston Gazette transformou a figura em um bicho batizado de "Gerry-mander", e o nome pegou.
Quem desenha o mapa usa, basicamente, duas jogadas, segundo o Brennan Center for Justice.
O efeito é uma montanha de "votos desperdiçados": os dados ao candidato derrotado e os que passam do necessário para vencer.
Os distritos podem ter formato regular e, ainda assim, pender fortemente para um lado, alerta o Brennan Center.
Hoje, o uso de dados chegou a um nível de detalhe em que até ruas são separadas em distritos diferentes, segundo Elaine Kamarck, da Brookings Institution.
Para muitos especialistas, a prática ajuda a alimentar a polarização, porque reduz a influência dos eleitores moderados.
A Câmara tem 435 cadeiras, número fixo definido em lei. A cada dez anos, o Censo conta a população do país e essas cadeiras são divididas entre os estados, em um processo chamado de apportionment, segundo o Census Bureau.
Dentro de cada estado, os distritos devem ter população parecida e cada um elege apenas um deputado. Desde a legislatura de 1971, todos os membros da Câmara são eleitos em distritos de uma só vaga, regra prevista em lei federal, segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS).
Em geral, as Assembleias estaduais traçam essas linhas porque a Constituição dá aos estados essa autoridade, explica a Brookings. Alguns estados passaram a tarefa a comissões independentes, como a Califórnia.
Pela regra, cada estado faz um mapa por década, logo depois do Censo. Mudar no meio do caminho é raro: o Pew Research Center contou 40 redesenhos fora do ciclo desde 1970, e 36 foram determinados ou impostos por tribunais.
Antes de 2025, só dois estados haviam redesenhado os mapas por vontade própria, em busca de vantagem partidária: Texas, em 2003, e Geórgia, em 2005.
Local de votação para as midterms no Kansas, EUA (Austin Johnson/AFP)
A guerra de mapas começou em julho de 2025, quando Trump pediu que republicanos do Texas redesenhassem os distritos do estado para ganhar mais cadeiras na Câmara.
A expectativa era de cinco distritos a mais para o partido, segundo a Ballotpedia. A legislatura aprovou o novo mapa em agosto, depois de deputados democratas deixarem o estado para tentar barrar a votação.
A resposta democrata veio da Califórnia. Em 4 de novembro de 2025, os eleitores aprovaram, com 65% dos votos, a Proposição 50. A medida trocou, de forma temporária, o mapa feito pela comissão independente por outro, que deixa cinco cadeiras mais favoráveis a democratas. O novo desenho vale para 2026, 2028 e 2030.
Depois vieram Carolina do Norte, Ohio, Utah e Missouri. A corrida acelerou a partir de 29 de abril de 2026, quando a Suprema Corte decidiu o caso Louisiana v. Callais. Flórida, Tennessee, Louisiana e Alabama passaram a usar mapas mais favoráveis a republicanos.
Já em dezembro, a Revista Exame apontava o gerrymandering como peça-chave para prever o resultado. Veja como ficou o quadro:
| Estado | O que aconteceu? | Efeito potencial | Situação em 3 de novembro |
|---|---|---|---|
| Texas | Mapa aprovado em agosto de 2025, a pedido de Trump | +5 republicanos | Em vigor, com autorização da Suprema Corte |
| Califórnia | Eleitores aprovaram a Proposição 50 em novembro de 2025 | +5 democratas | Em vigor |
| Carolina do Norte | Legislatura aprovou novo mapa em 22 de outubro de 2025 | +1 republicano | Em vigor |
| Ohio | Comissão aprovou, por unanimidade, em 31 de outubro de 2025 (exigência legal) | +2 republicanos | Em vigor |
| Utah | Tribunal adotou mapa proposto por autores de ação, em novembro de 2025 | +1 democrata | Em vigor |
| Flórida | Governador Ron DeSantis sancionou em 4 de maio de 2026 | +4 republicanos | Em vigor, com contestação na Justiça |
| Tennessee | Sancionado em 7 de maio de 2026 | +1 republicano | Em vigor, com contestação na Justiça |
| Louisiana | Sancionado em 29 de maio de 2026 | +1 republicano | Em vigor, com contestação na Justiça |
| Alabama | Suprema Corte liberou, em 2 de junho, o uso do mapa de 2023 | +1 republicano | Em vigor |
| Missouri | Mapa de 2025 suspenso por referendo | Seria de +1 republicano | Eleição usa o mapa de 2022; mapa novo vai a voto na Proposição A |
| Virgínia | Eleitores aprovaram emenda em 21 de abril de 2026, mas a Suprema Corte estadual a derrubou em 8 de maio | Mapa pretendia favorecer democratas | Mapa de 2021 segue valendo |
Os efeitos são potenciais, calculados pela Ballotpedia com base nos resultados da eleição presidencial de 2024. A soma dos nove estados com mapas novos dá um saldo potencial de nove distritos a favor dos republicanos.
Nem todos os estados embarcaram, e a estratégia não ficou restrita a um partido. O Senado de Indiana, de maioria republicana, rejeitou um novo mapa em dezembro de 2025, por 31 votos a 19. Em Maryland, de maioria democrata, o presidente do Senado estadual se recusou a levar o tema a voto.
Nos anos 1960, a Suprema Corte firmou o princípio de "uma pessoa, um voto": os distritos de um mesmo estado precisam ter população parecida, para que o voto de cada eleitor tenha peso semelhante.
O gerrymandering racial pode ser contestado na Justiça com base na Constituição e na Lei dos Direitos de Voto, de 1965.
Já o partidário ficou fora do alcance dos tribunais federais. Em 27 de junho de 2019, no caso Rucho v. Common Cause, a Suprema Corte decidiu, por 5 votos a 4, que esse tipo de disputa é uma "questão política", que não cabe à Justiça federal resolver.
Em 29 de abril de 2026, veio o caso Louisiana v. Callais. Por 6 votos a 3, em texto do juiz Samuel Alito, a Corte considerou inconstitucional o mapa da Louisiana que criava um segundo distrito de maioria negra. A maioria também restringiu o uso da Seção 2 da Lei dos Direitos de Voto para contestar mapas.
A decisão dividiu opiniões. Trump celebrou o resultado. Entidades de direitos civis, como a ACLU e a National Action Network, e a juíza Elena Kagan, em voto divergente, criticaram o enfraquecimento da lei.
Na prática, com a Justiça federal fora da briga partidária e a Seção 2 mais fraca, os principais freios hoje vêm dos tribunais estaduais e dos eleitores. Foi assim em Utah, onde um tribunal estadual definiu o mapa; no Missouri, onde a Suprema Corte estadual liberou um referendo; e na Virgínia, onde a Corte estadual anulou a emenda aprovada pelos democratas.
É possóvel que sim, mas o resultado dependerá do tamanho da vantagem democrata no voto popular.
Para ter maioria, um partido precisa de 218 das 435 cadeiras. No papel, os novos mapas favorecem os republicanos, com o saldo potencial de nove distritos calculado pela Ballotpedia.
Uma análise do site Axios, feita com dados por distrito, mostra o tamanho do obstáculo. Antes da onda de novos mapas, os democratas precisariam superar o desempenho de Kamala Harris em 2024 por 3,1 pontos para conquistar a maioria. Com os novos desenhos, esse número sobe para algo entre 4,5 e 4,9 pontos.
Na prática, Kamala teria vencido em 200 distritos nos novos mapas, contra 205 nos antigos. Ou seja, o redesenho vale quase dois pontos extras para os republicanos na margem nacional.
As pesquisas, por ora, apontam para o outro lado. Em levantamento Reuters/Ipsos divulgado em 19 de outubro, 47% dos eleitores registrados disseram que votariam em democratas para o Congresso, contra 35% para republicanos. É a maior vantagem do ciclo.
Se essa distância se confirmar, os mapas podem não bastar para segurar a maioria republicana. Em uma eleição mais apertada, porém, uma vitória estreita dos democratas no voto popular dificilmente viraria maioria de cadeiras, segundo o Axios.
Pesquisa não é resultado: só a apuração distrito a distrito dirá se o desenho dos mapas foi decisivo. A história também pesa, já que o partido do presidente costuma perder espaço nas midterms, como mostrou a Exame.
Vale lembrar que o gerrymandering atinge a Câmara e as Assembleias estaduais. O Senado fica de fora, porque cada estado elege dois senadores em votação em todo o território, segundo o USA.gov.
No Brasil, deputados federais, estaduais e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional, segundo a Constituição e a Câmara dos Deputados. O eleitor vota em candidatos e partidos dentro de todo o estado, que é a circunscrição da eleição, e não em distritos desenhados com uma só vaga, segundo o TSE.
Sem distritos internos, não há linhas para manipular.Existe, porém, outra distorção: a Constituição fixa um piso de 8 e um teto de 70 deputados por unidade da Federação. Um estudo publicado na biblioteca digital do TSE, sobre a eleição de 2022, calculou que, para o voto de um paulista valer o mesmo que o de um roraimense, São Paulo teria 109 deputados, em vez de 70, e Roraima teria apenas um, em vez de oito.