Boris Johnson renuncia ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido

A saída de Johnson acontece após pressão intensa depois do primeiro ministro perder o apoio do partido em meio a vários escândalos
Boris Johnson: O agora premiê interino afirmou que um cronograma sobre o processo de escolha de um próximo líder será detalhado na próxima semana (Toby Melville/Reuters)
Boris Johnson: O agora premiê interino afirmou que um cronograma sobre o processo de escolha de um próximo líder será detalhado na próxima semana (Toby Melville/Reuters)
André Martins
André Martins

Publicado em 07/07/2022 às 08:32.

Última atualização em 07/07/2022 às 09:35.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou nesta quinta-feira, 7, que deixa a posição de líder do partido Conservador, o que significa que também não será mais chefe de Governo do Reino Unido.

Ele seguirá como primeiro-ministro interino até o partido decidir o novo nome. “Ao público, sei que muitos estarão aliviados. Estou triste por estar entregando o melhor emprego no mundo”, disse.

Johnson afirmou que um cronograma sobre o processo de escolha de um próximo líder será detalhado na próxima semana e que ele dará apoio ao novo nome. O premiê afirmou que está "imensamente orgulhoso" de suas minhas conquistas durante o seu governo. 

A saída de Johnson acontece após o primeiro ministro perder o apoio do partido em meio a vários escândalos. Envolto em crises nos últimos meses, o premiê do Reino Unido entrou de vez na berlinda após um escândalo sexual de um parlamentar próximo ao governo

Um a um, ao menos 50 membros do governo já saíram de seus cargos. Por fim, em uma tensa reunião na noite de quarta-feira, 6, até mesmo uma delegação com seus principais aliados tentava convencer Johnson a renunciar de vez, mas o premiê se recusava a sair.

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O que acontece no Reino Unido com a saída de Boris Johnson

Oficialmente, a próxima eleição geral marcada no Reino Unido é somente em 2025, e Johnson deveria ficar no cargo até esta data.

Com a saída do atual premiê, a liderança continuaria com o Partido Conservador, por ter vencido as últimas eleições em 2019.

Agora, cabe ao Partido Conservador uma votação entre seus membros (incluindo cidadãos filiados) para escolher um novo líder, que, devido à maioria da legenda no Parlamento, seria então o novo premiê.

A tendência é que o partido passe meses em uma ferrenha disputa interna pela sucessão, o que deve desestabilizar novamente a política britânica em um momento delicado - com a inflação indo a 8% com a crise global e a guerra na Ucrânia afetando a Europa.

A oposição pode ganhar força e o atual líder dos trabalhistas, Keir Starmer, tem pedido eleições antecipadas diante da crise no governo.

No Reino Unido, funciona majoritariamente um sistema bipartidário, com o Partido Conservador e o Partido Trabalhista, mais à esquerda no espectro. O partido que ganha o maior número de cadeiras nas eleições gerais escolhe o primeiro-ministro.

Os conservadores estão no poder desde 2010, com David Cameron (2010-16), depois Theresa May (2016-19) e o próprio Johnson (a partir de 2019).

O último premiê trabalhista foi somente Gordon Brown (2007-10), que sucedeu o também trabalhista Tony Blair, que ficou no cargo por uma década (1997-2007).

Por que Boris Johnson renunciou

A renuncia acontece após vir à tona escândalos sexuais envolvendo o parlamentar conservador Chris Pincher. Pincher renunciou a sua posição como um dos líderes do governo no Parlamento na semana passada ao reconhecer que apalpou, quando estava embriagado, dois homens, incluindo um deputado, em um clube de Londres. "Caro primeiro-ministro: na noite passada, eu bebi de forma excessiva", escreveu Pincher em uma carta de renúncia.

O caso poderia não ser um escândalo derradeiro em outras situações. Mas, com um governo Johnson já questionado por outros escândalos e a inflação crescente no Reino Unido, o caso evoluiu para acusações de "perda de confiança" no governo.

Já eram conhecidas acusações de assédio contra Pincher ao menos desde 2017, incluindo com casos documentados contra outros homens. Assim, a principal questão recente envolve a decisão de Johnson em nomear o parlamentar mesmo assim (Pincher é conhecido por ser um parlamentar muito leal a Johnson e conseguir virar votações em favor do governo).

Nos primeiros dias, aliados de Johnson no Partido Conservador seguiram afirmando que o premiê não sabia de acusações contra Pincher antes de nomeá-lo. Depois, quando ficou claro que o premiê já sabia do passado controverso de Pincher, Johnson disse ter cometido um "erro" e "esquecido".

Johnson tem ganho a alcunha de "mentiroso", segundo as pesquisas de opinião. Nos últimos dias, um número crescente de políticos conservadores passou a ampliar as críticas a Johnson em público.

Antes disso, o governo Johnson já quase havia perdido o cargo em uma moção de confiança no Parlamento no mês passado, depois que veio a público que festas ocorreram na residência oficial do governo durante lockdowns na pandemia. O caso ficou conhecido como "partygate", e o premiê sobreviveu por pouco.

Quem é Boris Johnson

Antes conhecido sobretudo por bravatas anti-sistema, Boris Johnson tem 58 anos e é ex-jornalista. Ele já foi prefeito de Londres e Secretário de Estado do Reino Unido para os Assuntos Externos e a Commonwealth britânica.

Boris Johnson foi alçado à elite da política britânica após o referendo do Brexit, em que uma apertada maioria de 52% dos britânicos optaram por deixar a União Europeia. Johnson era uma das principais vozes pró-Brexit, mas nunca havia sido da elite tradicional dos conservadores até então.

Johnson terminou chegando ao cargo de premiê diante da tensão que marcou os anos pós-Brexit no Reino Unido. Com a impossibilidade de a ex-premiê Theresa May fechar um acordo para efetivar o Brexit, Johnson foi escolhido líder do Partido Conservador e lançado candidato a premiê nas novas eleições gerais convocadas no fim de 2019 após a saída de May.

Com Carolina Riveira. 

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