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Referendo do Brexit completa cinco anos. Valeu a pena?

Cinco anos após o referendo no qual o Reino Unido optou pelo Brexit, saída da União Europeia, as vantagens e perdas da decisão ainda estão longe do consenso

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Em 23 de junho de 2016, milhões de britânicos iam às urnas decidir se permaneceriam na União Europeia. Por 51,9% dos votos a favor e 48,1% contra, o Reino Unido decidiu deixar o bloco europeu no qual estava, em maior ou menor grau, desde 1973.

O referendo daquele 23 de junho completa metade de uma década nesta quarta-feira. Na virada deste ano, a União composta por Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia, com 67 milhões de pessoas, finalmente deixou o bloco europeu, dois anos depois do previsto e após sucessivos adiamentos.

Em 30 de junho, termina também um período de transição depois do qual cidadãos britânicos e europeus terão de regularizar novos documentos para continuar morando em seus atuais países, agora sem os direitos de livre circulação. A partir daí, o chamado Brexit estará de fato concluído.

Não foi um caminho fácil. A revista britânica The Economist escreveu em sua edição desta semana que até mesmo o mais fervoroso brexiter concordaria que o processo "foi tortuosamente longo".

Na política, a saída só aconteceu depois de três primeiros-ministros: primeiro, David Cameron, defensor da permanência e que convocou o referendo sem acreditar que de fato o Brexit passaria, teve de renunciar logo após o resultado; veio então Theresa May, eleita para levar a saída adiante mas que saiu sem conseguir um acordo. Por fim, o atual premiê Boris Johnson, linha-dura que prometia sair da UE com ou seu acordo, mas que acabou abrindo mão de parte de suas exigências uma vez no cargo.

Em meio à pandemia da covid-19, o Brexit mostrou como nunca suas duas faces: o Reino Unido conseguiu comprar vacinas sozinho, graças à parceria com a anglo-sueca AstraZeneca e a local Universidade de Oxford, e imunizou sua população mais rapidamente do que os europeus.

Enquanto isso, o atraso nas entregas da AstraZeneca para os países europeus teve no Brexit um dos principais pontos de tensão, com os governos da UE argumentando que o Reino Unido recebeu vacinas primeiro.

  • Cerca de 65% da população do Reino Unido foi vacinada com a primeira dose (e 47% com a vacinação completa)
  • Na UE, são 48% com a primeira dose (e 29% com a vacinação completa).

Outro dos principais argumentos econômicos para deixar a UE, os acordos bilaterais, começam a ser encaminhados. O primeiro foi com o Japão, em outubro passado. O mais notório recentemente veio da Austrália, antiga colônia britânica e até hoje um dos principais parceiros. As conversas com os EUA também andaram durante a reunião do G7 neste mês.

No entanto, enquanto o governo comemora os acordos, críticos argumentam que os tratados são muito parecidos com os que esses países já tinham com a União Europeia. No caso do Japão, por exemplo, os 15 bilhões de dólares em impulsionamento do comércio gerados pelo acordo farão o PIB britânico crescer só 0,07% -- uma fração do que deve ser perdido com a saída da UE.

O custo do Brexit

Desde a saída oficial em 31 de dezembro de 2020, entrou em vigor um novo acordo comercial firmado para o pós-separação, em que UE e Reino Unido negociam sob condições muito menos favoráveis. A cisão de um membro do bloco gerou um custo econômico para britânicos e europeus, cujo vencedor ainda é difícil de mensurar.

Nos primeiros meses com o Reino Unido oficialmente fora, as exportações britânicas para a UE caíram 15%, enquanto as europeias para os britânicos caíram 32%, segundo o Trade Policy Observatory da Universidade de Sussex.

Outro estudo, de pesquisadores da Universidade Aston, concluiu que em quatro anos desde o referendo, as exportações de serviços britânicas caíram 110 bilhões de libras -- com setores como a conhecida música britânica e o turismo sendo amplamente afetados.

Para as empresas, os problemas se acumulam com o mercado europeu agora fechado. Além das filas de caminhões na fronteira com a França que fizeram manchetes no Reino Unido no fim do ano, outras empresas enfrentam problemas mais estruturais.

É o caso do setor financeiro europeu, majoritariamente baseado em Londres e que começou a precisar pagar tarifas nas transações para a Europa. Mais de 400 instituições tiraram sua sede de Londres, segundo a Bloomberg, e esse movimento, ao lado da pandemia, contribui para uma queda nos salários londrinos.

Pesquisa da consultora EY afirma que 75% das empresas enfrentou disrupção nos negócios devido ao Brexit.

Os desafios separatistas que pareciam ter ficado no passado também voltaram à tona. A tensão na fronteira das Irlandas é o caso mais latente. A Irlanda do Norte é parte do Reino Unido, enquanto a Irlanda, ao sul, independente desde os anos 70, segue parte da União Europeia.

Como parte do acordo para o Brexit, a Irlanda pode seguir escoando seus produtos para a Europa via Irlanda do Norte, e ambas as partes evitam uma "fronteira dura" entre os dois países diante das memórias ainda presentes de conflitos violentos na região no passado.

Há ainda a Escócia, o país da União que proporcionalmente mais votou para ficar na UE (só 38% dos escoceses votaram para sair), mas acabou arrastado para fora mesmo assim. A premiê escocesa Nicola Sturgeon voltou a defender um novo referendo para que os escoceses decidam se querem continuar no Reino Unido.

Dentro da Inglaterra, país que mais votou para sair (53,4%), jovens e moradores de grandes cidades, como a capital Londres, onde a saída perdeu no referendo, até hoje se ressentem do Brexit, segundo as pesquisas.

O acordo de saída entre britânicos e europeus incluiu, por exemplo, a possibilidade de intercâmbio de estudantes entre os dois blocos. Mas a mudança de país dos trabalhadores qualificados das duas partes, muito comum antes do Brexit, ganhou alguns passos a mais de burocracia.

A decisão britânica de sair da União Europeia em 2016 ocorreu em meio ao que para muitos é o auge de movimentos ultranacionalistas na última década. Em plena crise da democracia moderna, e meses antes da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Na Europa, a crise de imigração -- e a disputa sobre quem deveria receber os imigrantes africanos -- foi determinante para as gerações mais velhas britânicas decidirem sair do bloco europeu.

Desde então, o mundo mudou, mas a questão crucial ainda paira como um fantasma: vale mais a autonomia completa sobre o país ou o acesso trilionário a um mercado que pode gerar mais riqueza e empregos?

A resposta está longe de um consenso, mas a decisão já foi tomada e não há volta. Britânicos e europeus terão de contornar os inúmeros desafios para lidar com seus destinos separados. Em cinco anos, talvez seja possível medir melhor o sucesso da empreitada.

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