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Blinken inicia rara visita a Pequim com vistas a reduzir tensões bilaterais

Nenhuma das partes espera grandes avanços na visita de dois dias de Blinken, enquanto as duas maiores economias do mundo mantêm desavenças em uma série de temas

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken (AFP/AFP)

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken (AFP/AFP)

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Agência de notícias

Publicado em 18 de junho de 2023 às 08h58.

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, chegou à China neste domingo, 18 (noite de sábado, 17, no Brasil), na viagem de mais alto nível de um alto funcionário americano em quase cinco anos, em um momento em que as duas potências rivais visam reduzir as tensões.

Nenhuma das partes espera grandes avanços na visita de dois dias de Blinken, enquanto as duas maiores economias do mundo mantêm desavenças em uma série de temas, como comércio, tecnologia e segurança regional.

Mas os dois países têm manifestado de forma crescente o interesse em buscar maior estabilidade e veem uma estreita janela para isto antes das eleições presidenciais no próximo ano nos Estados Unidos e em Taiwan, a democracia autônoma que Pequim não descarta tomar à força.

Em um sinal da fragilidade deste esforço, Blinken tinha previsto fazer esta viagem há quatro meses, como resultado de uma cúpula cordial entre os presidentes americano, Joe Biden, e chinês, Xi Jinping, em novembro, em Bali.

Mas Blinken adiou abruptamente a viagem depois que os Estados Unidos informaram ter detectado um balão espião chinês sobrevoando o território americano, levando a apelos furiosos por uma resposta de parte de uma linha-dura em Washington.

Em discurso na capital americana antes de viajar, Blinken disse que buscaria "gerir responsavelmente nossa relação", encontrando vias para evitar "erros de cálculo" entre os dois países.

"A competição intensa requer uma diplomacia sustentada para assegurar que a concorrência não resulte em confronto ou conflito", disse ele.

Mantendo os aliados perto

Blinken falava ao lado da ministra cingapuriana das Relações Exteriores, Vivian Balakrishnan. Segundo ela, para a região é importante que os Estados Unidos se mantenham como uma potência e que também encontrem formas de coexistir com uma China em ascensão.

A viagem de Blinken "é essencial, mas não suficiente", disse Balakrishnan.

"Há diferenças fundamentais de perspectiva, de valores. E é preciso tempo para um respeito mútuo e para construir uma confiança estratégica", acrescentou.

Como parte da abordagem do governo Biden de manter os aliados perto, Blinken falou por telefone com seus contrapartes do Japão e da coreia do Sul durante as 20 horas de sua viagem transpacífica.

O conselheiro de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, viajou separadamente a Tóquio para três dias de reuniões envolvendo Japão, Coreia do Sul e Filipinas.

Nos últimos meses, os Estados Unidos alcançaram acordos sobre a mobilização de tropas para o sul do Japão e o norte das Filipinas, ambos estrategicamente próximos de Taiwan.

Em agosto passado, Pequim realizou os maiores exercícios militares no entorno de Taiwan, considerados um treino para uma invasão, depois que a então presidente da Câmara de Representantes, a democrata Nancy Pelosi, visitou a ilha.

Em abril, a China iniciou três dias de jogos de guerra depois que a presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, visitou os Estados Unidos e se reuniu com o atual presidente da Câmara, o republicano Kevin McCarthy.

'Preocupações centrais' da China

Antes da visita de Blinken, o porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, Wang Wenbin, disse que os Estados Unidos precisam "respeitar as preocupações centrais da China" e trabalhar juntamente com Pequim.

"Os Estados Unidos precisam desistir da ilusão de lidar com a China 'a partir de uma posição de força'. A China e os Estados Unidos precisam desenvolver relações com base no respeito mútuo e na igualdade, respeitando suas diferenças históricas, culturais, de sistema social e trajetória de desenvolvimento", afirmou, em menção às críticas frequentes dos Estados Unidos ao histórico de direitos humanos na China.

Blinken é o primeiro alto diplomata americano a visitar o gigante asiático desde uma breve escala, em 2018, de seu antecessor, Mike Pompeo, que depois defendeu um confronto total com a China nos últimos anos da Presidência de Donald Trump.

Na prática, o governo Biden manteve a linha-dura adotada por Trump e foi além em algumas áreas, inclusive trabalhando para banir as exportações para a China de semicondutores de ponta com usos militares.

Mas ao contrário de seu antecessor, que é novamente candidato à Presidência, o governo Biden tem dito que deseja trabalhar com a China em áreas delimitadas de cooperação, como o clima, enquanto Pequim sofre com temperaturas recorde para meados de junho.

Danny Russel, que foi o mais alto diplomata para o Extremo Oriente durante o segundo mandato de Barack Obama, disse que cada lado tem suas prioridades. A China, de um lado, busca evitar restrições adicionais dos Estados Unidos à tecnologia e seu apoio a Taiwan, enquanto os Estados Unidos desejam evitar um incidente que possa levar a um confronto militar.

"A breve visita de Blinken não traz solução para nenhuma das grandes questões nas relações entre EUA e China ou até mesmo as pequenas. Nenhum dos dois países irá deter o outro de continuar com suas agendas competitivas", disse Russel, agora vice-presidente do Asia Society Policy Institute, uma organização global sem fins lucrativos.

"Mas sua visita pode reiniciar o necessário diálogo cara a cara e enviar um sinal de que os dois países estão se movendo de uma retórica furiosa à imprensa para discussões sóbrias a portas fechadas", acrescentou.

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