Inteligência artificial: com mais acesso a dados e respostas, discernimento ganha importância nas decisões. (Pexels)
Colunista
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 14h00.
Tem uma coisa que eu demorei mais tempo do que gostaria para entender. E, olhando agora, começa a fazer sentido.
Eu passei uma vida operando em sistemas que valorizavam a informação. Quanto mais dados, conhecimento, casos, maior o repertório e embasamento para decisões.
Era isso que diferenciava. E não vou aqui dizer que não funcionava, porque de fato era o caminho com os recursos que tínhamos.
Esse sempre foi meu desafio como gestor. Navegar ambientes onde a sofisticação intelectual sempre foi muito alta e onde as decisões precisavam ser bem embasadas para o erro não custar muito caro.
Mas isso começou a inverter exponencialmente. Primeiro de forma silenciosa. Hoje, porém, qualquer ferramenta te entrega uma resposta bem estruturada em segundos. Organizada. Convincente.Quase sempre correta.
Então a vantagem deixou de ser esta. Passou para um lugar muito menos tangível: quem está decidindo.
Porque, se você observa com um pouco mais de honestidade, não parece que falta inteligência no mundo. Parece que tem inteligência demais sendo usada sem consciência.
As coisas estão mais rápidas, mas não necessariamente melhores.
Não julgo isso olhando externamente. Eu me incluo.
Eu já tomei decisões extremamente bem estruturadas que, no tempo, não se sustentaram. Também já tomei muitas no ímpeto que me custaram muito caro.
Não porque faltava dado.
Mas porque faltava muita presença de meu lado.
Faltava perceber o que não estava explícito.
As nuances, que na grande maioria das vezes, são o que fazem a diferença.
Quantas vezes não me deixei levar pela ansiedade.
Pela emoção sem razão. Pelo voluntarismo.
Quantas vezes não consegui segurar um desconforto antes de decidir.
E isso não tem muito a ver com inteligência. Pelo menos não a racional.
Tem a ver com um outro lugar que quase não desenvolvemos.
Ao longo do tempo, eu fui tentando organizar isso de um jeito que fizesse sentido para mim.
Sem teoria demais. Sem querer transformar em método fechado. Mas como prática efetiva.
Passei a exercitar perceber as coisas antes de ficar óbvio, não aceitar a primeira interpretação e agir a partir de uma escolha real. Aprendi a pensar antes daquele impulso.
Não ceder fácil a uma pressão externa.
Não seguir no automático.
Isso, escrito assim, parece simples.
Mas, no ambiente em que a gente está hoje, virou exceção.
Tudo puxa para o imediato. Para a resposta rápida, a validação externa.
E, sem perceber, a gente vai abrindo mão do próprio discernimento.
O ponto que mais me chama atenção é que nunca se investiu tanto em inteligência artificial, mas quase nada está sendo investido em expandir a consciência de quem está operando essa inteligência.
E isso cria um desalinhamento profundo.
Temos muito mais capacidade.
E muito menos clareza.
Melhoramos a execução ao custo da direção.
No limite, duas pessoas com acesso às mesmas ferramentas podem construir coisas completamente diferentes.
E isso não tem nada a ver com tecnologia.
Tem a ver com o nível de consciência de quem está ali.
Talvez a próxima vantagem competitiva não esteja em saber mais.
Mas em conseguir perceber melhor.
E, principalmente, em entender de onde você está operando quando decide.
Porque, no fim, é isso que define o que você constrói.
E o que você destrói, sem perceber.