Finanças: bets se tornam um problema de educação financeira (Freepik)
Repórter de finanças
Publicado em 18 de abril de 2026 às 08h00.
A crescente preocupação com as casas de apostas parece agora estar refletida em números. Quase três em cada 10 dos brasileiros apostam em bets, mostrou a 9ª edição do ‘Raio X do Investidor Brasileiro 2026’ da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha.
Esse número é um crescimento em relação aos outros anos: 14% em 2023, 15% em 2024 e 17% em 2025. Entre quem aposta, a geração Z, entre 16 e 29 anos, se destoa (27%), enquanto os millenials, entre 30 e 44 anos, aparecem na sequência (22%), seguidos pela geração X (10%), entre 45 e 64 anos, e boomers (4%), com 65 anos ou mais.
Apesar disso, prevalece quem aposta raramente. Todos os dias é somente 1% dos respondentes. Já na outra ponta, quem nunca apostou, se destaca os boomers, em que sete em cada 10 nunca apostaram, depois a geração X (66%), millenials (55%) e geração Z (50%).
Um novo projeto de lei contra jogos de azar, as famosas bets, foi protocolado na Câmara dos Deputados nesta semana.
Ao contrário de outras propostas do gênero, que regulamentam a prática ou vedam a propaganda, o PL 1808/2026, assinado pelo deputado Pedro Uczai, líder do PT na Câmara, proíbe definitivamente a oferta de apostas de quota fixa em todo o território nacional.
O projeto vem de encontro a falas recentes do presidente Lula sobre a proibição da prática. Em conferência realizada no começo de abril, Lula declarou: “Se depender de mim, a gente fecha as bets”.
Ao lado de Uczai, 67 deputados assinaram o PL. Parlamentares da Rede e do PSOL também compõem a lista.
Além da proibição, o texto estabelece medidas de responsabilização de intermediários na propagação das bets, e defende a promoção de conteúdos de interesse público sobre saúde e os riscos do vício.
Outro projeto que mira as bets também tem avançado no Congresso. Foi aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, no início de fevereiro, o PL 3.563/2024, que propõe vedar a publicidade, o patrocínio e a promoção de apostas esportivas e jogos online.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o vício em apostas, a ludopatia, como um problema de saúde pública global.
O projeto aborda a perspectiva sanitária, e cita dados do SUS sobre o crescimento de casos de dependência associados ao aumento de apostas, com potencial de sobrecarregar o sistema e agravar situações de vulnerabilidade social.
Outro ponto levantado pela proposta são os sintomas financeiros do vício. O diagnóstico é do Banco Central: as apostas esportivas deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a ter impacto direto sobre a renda das famílias brasileiras, especialmente entre os mais vulneráveis.
Segundo o texto, as plataformas funcionam como um mecanismo de “captura de renda”, deslocando recursos do consumo básico e pressionando a economia popular.
O autor também citou um estudo do Ibevar e da FIA Business School, divulgado em março de 2026. A pesquisa concluiu que o vício em bets ultrapassou as taxas de juros e se consolidou como a principal causa de endividamento dos brasileiros
As bets são a ponta do iceberg – os números da perspectiva financeira do brasileiro como um todo ainda são desanimadores. O relatório mostra que um terço da população ainda não tem reserva financeira.
Dos que têm dinheiro guardado, 10% possui reserva para menos de uma semana, sendo o mesmo número que conseguem cobrir até um mês. Esse montante sobe para 12% de quem têm entre um e dois meses, e também de quem têm entre três a cinco meses.
O valor é melhor para quem têm entre seis meses e um ano (15%), mas cai drasticamente para quem possui reserva para um a dois anos (6%), e é menor ainda para cinco anos ou mais (3%). Especialistas consultados pela EXAME dizem que, o ideal, é que o investidor tenha reserva para cobrir pelo menos seis meses do nível de renda atual.
Os maiores afetados? As classes mais baixas: quase metade da população das classes D e E não tem reserva financeira – mas as classes A e B ainda entram no combo. Entre as gerações, a X, entre 45 e 64 anos, é a que menos tem reserva financeira (37%), enquanto os millenials, entre 30 e 44 anos, figuram em segundo (28%) e os boomers, com 65 ou mais, e a geração Z, entre 16 e 29 anos, aparecem como terceiro lugar (17%)
O Brasil terminou o ano passado com 60,6 milhões de investidores, o que representa 36% da população (em 2024, esse percentual era de 37%). Já os que não investem, 63% da população, chegam a 107,7 milhões
Do número de investidores, em 2026, 46,1 milhões devem continuar investindo, enquanto 23,2 milhões serão novos entrantes e 14,5 milhões deixarão de investir – resultando em 8,7 milhões de novos investidore.
Mas as expectativas versus a realidade deixam a desejar. A expectativa de crescimento do percentual de investidores era: +3% (2022), +5% (2023), +4% (2024), +2% (2025) e 6% (2026). Já a realidade foi 5% (2022), 1% (2023), 0% (2024), -1% (2025) e ainda sem projeção para 2026.
Quando observado os produtos financeiros, o conhecimento sobre eles, a utilização e se pretende continuar utilizando, um dado chama a atenção: criptomoedas aparecem na frente de imóveis, títulos públicos e até previdência privada. Em 2025, 8% responderam que tinham conhecimento sobre eles, e 13% começariam ou continuariam a investir – sendo o segundo lugar de produtos que mais chamaram a atenção do investidor.
A poupança segue como o principal produto de investimento do brasileiro, citada por dois em cada dez investidores. Ainda assim, sua participação vem perdendo força de forma gradual: 23% em 2021, 26% em 2022, 25% em 2023, 23% em 2024 e 22% em 2025.
Mesmo com a perda de fôlego, a caderneta continua sendo o principal destino entre os investidores, apesar de render abaixo do CDI. Entre as gerações, o movimento é desigual: os boomers ampliaram em 5 pontos percentuais a exposição à poupança, enquanto a geração Z reduziu em 9 pontos.
Na sequência, o crédito privado aparece como o segundo produto mais buscado pelo varejo, com 7% dos investidores alocados nessa classe, após um ano de forte demanda em 2025. Os fundos de investimento vêm em seguida, com 5% de participação.
E o aumento entre as gerações nesses produtos é inversa: enquanto os boomers aumentaram a exposição na poupança – e a geração Z reduziu – em todos os outros ativos (títulos privados, fundos, moedas digitais e cripto, ações, títulos públicos e previdência privada) os boomers reduziram exposição, enquanto a geração Z aumentou.
Isso mostra que, entre as classes mais altas, há uma migração para produtos mais sofisticados. Segundo a Anbima, as classes A e B registraram a maior redução na participação na poupança, que caiu de 34% em 2021 para 28% em 2025.
*Colaborou Letícia Cassiano