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O que o investidor precisa saber sobre a crise

Perguntas e respostas para ajudarem o investidor a entender a crise e tomar as melhores decisões

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O desempenho das bolsas não deve alarmar investidor de longo prazo, dizem especialistas (Mario Tama/ Getty Images)

O desempenho das bolsas não deve alarmar investidor de longo prazo, dizem especialistas (Mario Tama/ Getty Images)

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Julia Wiltgen

Publicado em 9 de agosto de 2011 às, 16h19.

São Paulo - Quem investe em ações no Brasil deve estar amedrontado com desempenho pífio da bolsa brasileira, especialmente nos últimos dias. Com uma queda de cerca de 30% no ano, o Ibovespa quase paralisou as negociações nesta segunda-feira (8), ao registrar uma queda de 9,73%. O índice, porém se recuperou e fechou a 8,08%, menor patamar desde outubro de 2008.

Nesta terça, porém, o cenário foi um pouco diferente, com recuperações nas Bolsas americanas, e também no Ibovespa. É difícil precisar, porém, se o ciclo de tombos chegou ao fim. Para auxiliar o investidor em meio a esse mar de números e informações, EXAME.com preparou uma série de perguntas e respostas para quem quer entender a crise e tomar as melhores decisões de investimento.

Por que as bolsas ao redor do mundo estão caindo tanto?

O que está ocorrendo é uma fuga de capitais das bolsas em razão de uma expectativa de recessão. Os investidores ao redor do mundo temem uma nova recessão e, por isso, “fogem” das aplicações em renda variável para investir em ativos mais seguros, como títulos públicos – preferencialmente os títulos americanos – e ouro. Até o dólar entrou nesse balaio: depois do anúncio do rebaixamento da classificação de risco dos Estados Unidos, a moeda americana fechou com alta de 1,44% nesta segunda-feira, a maior desde junho de 2010. Nesta terça, a valorização continua.

Mas por que os investidores temem tanto uma nova recessão?

Os países da Europa passam por uma grave crise de dívida, concentrada principalmente nos chamados PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha – mas com risco de contágio por toda a União Europeia. Os Estados Unidos, também bastante endividados, tiveram de aprovar o aumento do teto de sua dívida pública em 2,1 trilhões de dólares, após alarmarem o mundo com o risco de não honrarem suas obrigações.

Não que houvesse uma verdadeira crença num calote americano. Mas além da gravidade da ameaça, as disputas políticas entre democratas e republicanos até a aprovação das medidas de fato preocuparam os investidores. Para piorar, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a nota dos EUA de AAA para AA+, o que poderia sugerir que os papéis da dívida americana não são mais tão seguros quanto antes.

E por que esses acontecimentos estão ligados à possibilidade de uma nova recessão? Porque a situação de endividamento desses países chegou a uma situação tal que eles não terão outra escolha senão colocar em prática com vontade medidas de contenção de despesas e cortes no orçamento. A Europa preocupa ainda mais, já que até agora nenhum país do continente levou a cabo medidas efetivas para reduzir suas dívidas.


Nos EUA, a aprovação do acordo que elevou o teto da dívida também permitiu a realização de cortes orçamentários no valor de 2,5 trilhões de dólares, mantendo intactos programas sociais. Essas perspectivas de contenção de gastos indicam claramente que os países ricos estão prestes a reduzir importações e entrar num ciclo de desaceleração econômica que pode culminar em outra recessão.

O rebaixamento do rating dos Estados Unidos é assim tão grave?

“O rebaixamento dos EUA é mais uma questão moral do que funcional”, diz o consultor financeiro Mauro Calil. Para o professor de finanças do Insper, Liao Yu Chieh, a gravidade do rebaixamento é expressiva do ponto de vista histórico. “De qualquer forma, o AA+ é um rating muito forte. Não quer dizer que os Estados Unidos vão quebrar, apenas é um sinal de que as coisas precisam melhorar”, afirma o professor.

E, de fato, o mundo não acredita que a redução no rating tenha sido uma catástrofe fora do universo simbólico. Tanto é que, no primeiro dia útil após o anúncio do rebaixamento pela S&P – lembrando que as outras agências de classificação de risco mantiveram seus triple A – os investidores internacionais trataram de correr justamente para o dólar e para os títulos do Tesouro americano, como forma de fugir ao risco.

“Existem poucas alternativas aos títulos americanos no mundo. O que pode acontecer é uma inflação um pouco maior nos Estados Unidos, mas para os investidores isso é normal”, avalia Mauro Calil.

Por que a bolsa brasileira está caindo mais do que todas as outras?

Das principais bolsas do mundo, a bolsa brasileira foi a que mais caiu no mês de julho e nos dias em que os mercados globais registraram as maiores perdas – 4 e 8 de agosto. Mas se a economia brasileira não está indo mal, e o país passou praticamente incólume pela crise de 2008, o que está acontecendo?

Essas perdas se devem a uma conjunção de fatores. “A bolsa brasileira no ano passado foi a que teve melhor desempenho no mundo, e acabou ficando cara. Este ano, ela está sofrendo ajustes, a ponto de algumas empresas terem ficado baratas”, explica Mauro Calil.

Aliado a isso, a perspectiva de recessão e queda nas importações em países desenvolvidos têm derrubado o preço das commodities, o que turva o futuro das empresas brasileiras do setor, especialmente aquelas que dependem mais dos mercados americano e europeu.


Por fim, existem as peculiaridades da economia brasileira, que terminam por prejudicar ainda mais a renda variável: a demanda aquecida levou a uma inflação que ainda ameaça e a uma consequente elevação dos juros, o que torna a renda fixa no Brasil extremamente atrativa para investidores.

Outro fator que justificaria essas enormes perdas é a fuga do capital estrangeiro dos países emergentes para investimentos mais seguros em tempos de crise. Porém, segundo o Blog Blue Chips, de EXAME, quem mais tem vendido ações na bolsa brasileira são as pessoas físicas e investidores institucionais brasileiros. Sinal de que também há uma boa dose de pânico injustificado aí.

Então os exportadores serão os mais prejudicados pela crise?

De cara, sim. Mas com o desaquecimento da economia mundial, as empresas voltadas para o mercado interno também serão prejudicadas. O contágio é evidente, tanto que nos piores dias da Bolsa, houve momentos em que todas as ações do Ibovespa registraram queda.

Acontece que as empresas brasileiras têm os trunfos, por um lado, do forte mercado interno e, por outro, do mercado chinês. A China pode sofrer desaceleração, uma vez que seu maior cliente são os Estados Unidos; porém, se seu mercado interno conseguir se manter aquecido, o Brasil poderá comemorar. Mas a busca de novos mercados na América Latina, África e no Oriente Médio também se faz necessária.

“A chave é a China. Se ela conseguir manter um mercado interno vibrante, anulará os efeitos negativos da queda das suas exportações. E se ela conseguir isso, mantem-se um certo nível de demanda por commodities, impedindo uma queda muito forte dos preços dessas mercadorias.”, disse o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, em entrevista recente a EXAME.com.

A Bolsa abriu em alta nesta terça-feira. Isso é sinal de que já atingiu o fundo do poço e vai se recuperar, daqui em diante?

Não necessariamente. “Ninguém pode afirmar isso com precisão. Eu creio que não, pois ainda não é possível vislumbrar, no futuro, sinais positivos que levariam a uma melhoria do cenário econômico”, diz Liao Yu Chieh, professor de finanças do Insper. Para ele, precisaria de um alinhamento real das principais economias mundiais para pôr em prática medidas econômicas e fiscais eficientes sinalizaria uma reversão sólida dessa tendência de baixa da bolsa.


Então é hora de ficar na Bolsa e até de comprar mais ações?

Especialistas concordam que não é hora de sair, pelo menos para quem pode esperar por uns três anos. É o caso, por exemplo, de quem investiu em ações para a previdência ou para objetivos futuros. Existem evidências inclusive de que agora algumas ações estão baratas, têm fundamentos atrativos, e merecem uma atenção especial do investidor que quer aproveitar o bom momento.

“Se tiver recursos disponíveis, o investidor deve entrar aos poucos, continuamente, mirando o longo prazo”, aconselha Chieh, do Insper. Quem não aguentar ver seu capital encolher demais nesse período pode ainda procurar investimentos em renda variável que permitam ao investidor lucrar mesmo na baixa, ou mesmo lançar mão de estratégias para proteger sua carteira de ações sem precisar vendê-las.

Mas a renda fixa não se tornou mais atrativa?

Em princípio sim, mas agora existe a perspectiva de que o governo estabilize e até reduza a taxa de juros a fim de impedir que a recessão atinja a economia brasileira. No entanto, o Brasil ainda sofre com a inflação, o que significa que a Selic continuaria alta.

A lógica, então, é mais ou menos a seguinte: a renda fixa tende a se tornar um pouco menos atrativa, mas ainda será um bom investimento. O melhor é equilibrar os investimentos em Bolsa com as aplicações em renda fixa. Primeiro porque não é aconselhável aplicar em renda variável sem ter um colchão em renda fixa para as necessidades mais imediatas; segundo, porque tanto é vantajoso entrar na renda variável para o longo prazo quanto na renda fixa para o curto e o médio prazos.

Veja dicas para montar uma carteira balanceada para lucrar e ao mesmo tempo se proteger dos solavancos da crise.

Com uma nova recessão, a economia brasileira sofrerá muito?

Caso os Estados Unidos tivessem dado calote, o Brasil teria sofrido muito, por ser o quinto maior credor daquele país no mundo. Como isso não ocorreu, é possível dizer que a crise certamente se fará sentir por aqui, porém com efeitos limitados, principalmente se a China continuar apresentando bom desempenho econômico.

Para limitar os efeitos da crise o Brasil pode, como já foi feito em 2008, usar mecanismos fiscais para estimular a economia. “Nesse sentido, o atraso brasileiro acaba favorecendo”, diz Mauro Calil. Ele se refere aos altos juros brasileiros, que podem ser abaixados para incentivar o consumo, e à pesada carga tributária, que permite renúncias fiscais em algumas áreas para estimular a geração de empregos.

O risco é a inflação, que terá também de ser controlada. Os efeitos sobre ela, aliás, ainda são ambíguos. Por um lado, o aumento da aversão ao risco e do conservadorismo vão segurar o consumo, o que puxa a inflação para baixo; por outro, a alta do dólar e dos preços dos importados eleva o custo do consumo, puxando a inflação para cima. A medida será dada pela intensidade da elevação do câmbio.

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