Dólar: moeda ganha força com petróleo em baixa (Rmcarvalho/Getty Images)
Editor de Invest
Publicado em 28 de julho de 2026 às 11h54.
O dólar sobe pelo segundo dia seguido nesta terça-feira, 28, e volta ao patamar de R$ 5,12, nível que não era registrado havia quase duas semanas. A valorização da moeda americana ocorre mesmo com a bolsa de valores brasileira operando em alta.
Nos últimos dias, a divisa passou a acompanhar a trajetória do petróleo, que recuou depois da interrupção dos ataques entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz. O barril do Brent, referência para a Petrobras, chegou a tocar US$ 100 na semana passada e agora é negociado ao redor de US$ 87. Para o Brasil, grande exportador da commodity, o recuo tem efeito direto sobre o fluxo de moeda estrangeira.
Segundo André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, a queda do barril é o primeiro dos dois fatores mais evidentes por trás da alta da moeda.
"Se o petróleo está mais barato, a gente tem menos dólar ingressando no Brasil, seja pelas exportações de petróleo bruto, seja pelo ingresso de dólares em companhias que exploram petróleo, como a Petrobras", afirma o economista. Ele lembra que o Brasil é grande exportador da commodity, com volume 30% maior no primeiro semestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2025.
Os dados do balanço de pagamentos divulgados pelo Banco Central nesta manhã mostraram déficit em transações correntes comportado e investimento direto no país acima de US$ 9 bilhões, muito acima das projeções do mercado, que apontavam no máximo US$ 7,2 bilhões. "O Brasil continua recebendo bastante dólar, mas em termos relativos o ingresso é menor, e isso acaba trazendo algum impacto no mercado cambial", explica.
A leitura é compartilhada por Márcio Estrela, consultor em regulação cambial e financeira na Starnet Estrela. "O petróleo é um dos principais, senão o principal, item de exportação do Brasil. Quando cai o preço internacional do petróleo, significa que a receita em dólar do Brasil diminui. Essa é a principal explicação", diz.
O segundo fator apontado por Galhardo está no exterior. Apesar do recuo recente, o petróleo ainda opera em patamar bem mais alto do que há 15 dias, o que renova os temores de um processo inflacionário mais duradouro nos Estados Unidos. A inflação americana caiu com força em junho, mas segue elevada, em 3,5%, ante meta de 2%.
"Esse petróleo mais resiliente, apesar dessa queda recente, renova os temores de inflação nos Estados Unidos, o que pode acabar aumentando as apostas de que o Fed terá que fazer um aumento de juros na reunião marcada para setembro", avalia o economista. Juros mais altos nos Estados Unidos tendem a atrair capital para a moeda americana e a pressionar o real, movimento que já vinha sendo observado desde a chegada de Kevin Warsh à presidência do Federal Reserve, como a EXAME mostrou em junho.
O Fed se reúne nesta quarta-feira, 29, e a expectativa majoritária é de manutenção da taxa, hoje na faixa de 3,50% a 3,75%. Galhardo espera um comunicado enxuto, sem grandes sinalizações. "O que se espera é a manutenção, mas um aumento de juros na reunião marcada para setembro não está totalmente descartado", diz. No Brasil, o Copom cortou a Selic para 14,25% em junho e volta a se reunir no início de agosto.
Estrela pondera que a própria queda do petróleo tem efeitos mitigadores no câmbio. O Brasil é um dos maiores importadores mundiais de fertilizantes, e a redução de preços diminui as despesas de importação. Além disso, o barril mais barato tende a aliviar pressões inflacionárias domésticas, o que, em tese, melhoraria as perspectivas para o real. "Mas a desvalorização do câmbio anula esse efeito positivo", observa o consultor.
"Tem algumas análises que falam que a desvalorização do real compensaria a redução da receita em real das empresas, mas não acredito que seja um movimento nessa linha, porque os maiores exportadores precisam da receita em dólar", afirma.
Para Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, o real deve seguir volátil no curto prazo, atento a três frentes: o Fed, o Copom e o tarifaço americano. "Nas próximas semanas, o câmbio deve permanecer volátil, acompanhando o Fed, o Copom e o tarifaço. Se as tarifas reduzirem exportações brasileiras ou ampliarem a tensão comercial, o dólar poderá ganhar força mesmo com a inflação doméstica mais baixa", afirma.
A referência é à tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, resultado da investigação aberta com base na Seção 301 da lei comercial americana.