Preocupação com contas públicas leva juros futuros ao maior nível desde 2016

As incertezas sobre a política econômica do futuro governo levaram os juros dos papéis com vencimento em agosto de 2023 a subir até 15%
Juros futuros (Gustavo Mellossa/iStock/Getty Images)
Juros futuros (Gustavo Mellossa/iStock/Getty Images)
Carlo Cauti
Carlo Cauti

Publicado em 23/11/2022 às 16:27.

Última atualização em 23/11/2022 às 18:05.

Os juros futuros voltaram a disparar nesta quarta-feira, 23, por causa das incertezas sobre a futura política econômica e o avanço da PEC da Transição, que vai furar o Teto de Gastos em mais R$ 200 bilhões.

O mercado está preocupado com a sustentabilidade das contas públicas no futuro governo, e por isso pede juros maiores para emprestar recursos ao Tesouro Nacional. A previsão que o Banco Central (BC) será forçado a aumentar a taxa básica de juros (Selic) em 2023 para conter a inflação e evitar a desvalorização do real também empurraram os juros futuros para o alto.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2024 chegou em 14,73% por volta das 14h, uma alta de 0,45%. Há menos de um mês atrás, no dia 28 de outubro, dois dias antes do segundo turno das Eleições Presidenciais, essa taxa era de 11%.

A taxa dos papéis de DI com vencimento em setembro de 2023 chegaram em 15%, contra 12% registrado no dia 28 de outubro deste ano. Os juros mais altos desde 2016, ano da crise que levou ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

A PEC da Transição deverá ser apresentada ao Congresso Nacional deste final de semana. A proposta de emenda à Constituição vai tirar o Bolsa Família do teto de gastos por quatro anos, até o final do mandato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, com um custo de R$ 175 bilhões por ano.

"Nos últimos 12 meses que terminaram em setembro, o Brasil apresentou um resultado fiscal do governo central consolidado com superávit primário de R$ 181 bilhões. Um feito digno de nota, possível graças a privatizações, redução dos gastos públicos, eficiência nas despesas, entre outros", explica à EXAME Invest Walter Franco, professor de Economia do IBMEC - SP, "Com isso, o déficit sobre PIB ainda era administrável, e a dívida pública ainda estava sob controle, permitindo que os juros fossem em um nível historicamente muito baixos, até muito recentemente. Seria um retrocesso se o Brasil mudasse repentinamente de rumo, aumentando o déficit primário e a dívida bruta. Os juros futuros estão reagindo a essa realidade".

Segundo o economista, o mercado está sinalizando aos agente econômicos e ao governo que está atento a realidade. "Se o mercado percebe que não há um comprometimento do governo com o controle do déficit primário, o mercado pode até aceitar de financiar o estado, mas pretende juros mais elevados", explica Franco.

Presidente do Banco Central alerta sobre necessidade de equilíbrio fiscal

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, voltou a salientar nesta quarta-feira, 23, que é importante equalizar a necessidade social com o equilíbrio fiscal.

"Estamos em um ponto de inflexão de que fazer mais gera efeito contrário ao que se espera. É importante pensar em trajetória da dívida que seja sustentável", declarou Campos Neto durante um evento da Black Rock.