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Gestores com US$ 5 tri acreditam que EUA podem evitar recessão

Gestores têm se inclinado por ações de empresas mais sensíveis aos ciclos econômicos

Bolsas americanas: o interesse por ações que tendem a se sair bem durante crises econômicas - como de concessionárias de serviços públicos e bens de consumo básicos - está em baixa (Jackyenjoyphotography/Getty Images)

Bolsas americanas: o interesse por ações que tendem a se sair bem durante crises econômicas - como de concessionárias de serviços públicos e bens de consumo básicos - está em baixa (Jackyenjoyphotography/Getty Images)

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Bloomberg

6 de dezembro de 2022, 11h54

Investidores profissionais reforçam a aposta de que uma recessão pode ser evitada nos EUA, apesar de todas as advertências em contrário. É uma aposta perigosa, e por vários motivos.

Gestores têm se inclinado por ações de empresas mais sensíveis aos ciclos econômicos, como dos setores industrial e de commodities, de acordo com estudo do Goldman Sachs sobre o posicionamento de fundos mútuos e hedge funds cujos ativos sob gestão totalizam quase US$ 5 trilhões. O interesse por ações que tendem a se sair bem durante crises econômicas - como de concessionárias de serviços públicos e bens de consumo básicos - está em baixa, mostra a análise.

As posições refletem expectativas de que o Federal Reserve pode domar a inflação sem causar uma recessão, um cenário difícil de ser atingido, muitas vezes chamado de pouso suave. A fragilidade dessas apostas ficou em evidência na sexta e na segunda-feira, quando números fortes do mercado de trabalho e dos setores de serviços nos EUA levaram à percepção de que o Fed vai manter a política monetária apertada, o que eleva os riscos de errar a dose.

“As atuais inclinações do setor são consistentes com o posicionamento para um pouso suave”, escreveram estrategistas do Goldman, como David Kostin, em nota na sexta-feira. A equipe acrescentou que as exposições temáticas e de fatores da indústria de fundos apontam para um posicionamento semelhante.

Não é que o apetite por risco tenha aumentado. Na verdade, investidores reforçaram as posições em dinheiro ou apostas baixistas em ações neste ano, em meio à campanha mais agressiva em décadas do Fed para reduzir a inflação. Mas, por trás da postura defensiva, está uma inclinação cíclica em desacordo com preocupações generalizadas entre a comunidade de investidores de que uma forte retração econômica está no horizonte.

Em uma pesquisa do Bank of America com gestores de fundos no mês passado, 77% esperavam uma recessão global nos próximos 12 meses, a maior proporção desde o impacto da crise de Covid em 2020.

É possível que investidores ainda não tenham ajustado seus portfólios para refletir o risco econômico percebido. Ou buscam proteção contra a recessão por meio de outras estratégias, como acumular posições em dinheiro.

Uma explicação mais plausível está ligada à expectativa de que o Fed consiga arquitetar um pouso suave. Nesse caso, más notícias econômicas são vistas como boas para o mercado, pois mostram que a campanha de combate à inflação do presidente do Fed, Jerome Powell, está funcionando e, portanto, as autoridades podem desacelerar o ritmo de aumento das taxas de juros.

A narrativa, descrita como uma guinada da política monetária do Fed, é amplamente citada como o motivo pelo qual o S&P 500 subiu mais de 10% em relação às mínimas de outubro, apesar da piora de dados em áreas como habitação e manufatura e corte das projeções dos lucros corporativos.

Agora, ocorre o oposto. As bolsas dos EUA caíram na segunda-feira em reação à inesperada expansão de um indicador do setor de serviços dos EUA, o que provocou temores de que o Fed precise manter a política monetária apertada. O S&P 500 recuou 1,8% e ampliou as perdas da última sexta-feira, quando o relatório de emprego mais forte do que o esperado causou nervosismo em torno dos próximos passos do Fed, apesar dos sinais de Powell de uma possível desaceleração no ritmo de aperto.

“Se o crescimento se deteriorar muito rapidamente ou for longe demais”, explica a equipe de vendas e trading do JPMorgan Chase, “uma má notícia será uma má notícia” e isso dominará a narrativa, segundo nota divulgada na segunda-feira pelo departamento, que inclui Andrew Tyler. “Nesse cenário, os mercados provavelmente testarão novamente as mínimas de 2022.”