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Crise em Ormuz ameaça combustível aéreo e pressiona companhias na Europa

Conflito entre EUA, Israel e Irã eleva querosene de aviação, provoca cortes de voos e aumenta risco de escassez na Europa e na Ásia

Aéreas. Voos suspensos na Europa (SXC.Hu)

Aéreas. Voos suspensos na Europa (SXC.Hu)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 17 de abril de 2026 às 16h17.

A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã passou a pressionar o mercado global de combustível de aviação e já levou companhias aéreas a cancelar voos e rever capacidade, especialmente na Europa. Segundo divulgado pela BBC, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE, na sigla em inglês), Fatih Birol, declarou que a região pode ter “talvez mais seis semanas” de combustível disponível caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado.

O conflito interrompeu cadeias de suprimento no Oriente Médio e elevou os preços do petróleo: o Brent chegou a superar US$ 100 por barril antes de recuar após o início das negociações de cessar-fogo. O querosene de aviação (QAV) subiu ainda mais rapidamente e chegou perto de US$ 200 por barril, pressionando custos operacionais das companhias aéreas.

Para a Business Insider, analistas destacaram que esse tipo de combustível exige armazenamento especializado, o que limita estoques e amplia o risco de escassez em regiões dependentes de importação.

Impactos nas companhias aéreas

Na prática, os efeitos já aparecem na malha aérea. A holandesa KLM informou o cancelamento de 160 voos para o próximo mês — menos de 1% de sua programação. Em nota divulgada nesta quinta-feira (16), a companhia afirmou que a medida é preventiva e está relacionada à alta do custo do QAV, ressaltando que não enfrenta falta física de combustível no momento.

No mesmo dia, a alemã Lufthansa anunciou a aposentadoria antecipada de dezenas de aeronaves, citando tanto o avanço das despesas com combustível quanto disputas trabalhistas. Na mesma linha, a Scandinavian Airlines (SAS) informou, ainda em março, que reduziria cerca de 1.000 voos em abril, principalmente em rotas de curta distância na região nórdica, em resposta ao encarecimento operacional provocado pela crise. O CEO da companhia, Anko van der Werff, também alertou para a possibilidade de reajuste nas tarifas caso o cenário persista, conforme divulgado pela BBC.

Outras empresas europeias também avaliam ajustes. A Ryanair, maior companhia aérea da Europa, afirmou que está considerando reduzir rotas caso a guerra continue. “Não esperamos nenhuma interrupção até o início de maio, mas, se a guerra continuar, corremos o risco de problemas de abastecimento na Europa em maio e junho”, disse o CEO Michael O’Leary da companhia, em entrevista à Sky News, divulgada pela Business Insider.

A suíça Edelweiss Air cancelou voos para destinos nos Estados Unidos e reduziu frequências em outras rotas diante da combinação de menor demanda e combustível mais caro. Já a easyJet estimou impacto adicional de cerca de 25 milhões de libras nas despesas com querosene apenas em março, mesmo tendo fixado previamente mais de três quartos de suas compras de combustível por meio de operações de hedge, segundo informações da BBC. Ao jornal, a companhia afirmou que o conflito gerou incertezas de curto prazo tanto em relação aos custos quanto à demanda dos passageiros.

O impacto não se limita à Europa. Na Ásia, a AirAsia reduziu cerca de 10% dos voos e elevou tarifas, além de sinalizar cortes adicionais de capacidade em rotas nas quais não seja possível compensar o avanço do combustível. Conforme divulgado pela Business Insider, o CEO Bo Lingam afirmou, em coletiva de imprensa, que a sobretaxa de combustível subiu até 20%, enquanto o preço médio das passagens avançou entre 30% e 40%. Lingam disse que o QAV da empresa subiu de US$ 90 por barril para US$ 200 por barril após o início da guerra, descrevendo isso como o maior desafio enfrentado pela companhia.

Desde o início de abril, a Vietnam Airlines suspendeu rotas domésticas, segundo informações da Reuters divulgadas pela Insider. A companhia também avalia reduzir entre 10% e 20% do volume mensal de voos no próximo trimestre caso os preços do combustível de aviação permaneçam na faixa de US$ 160 a US$ 200 por barril. Outras empresas locais, como a Vietjet Air e a Bamboo Airways, também anunciaram cortes na malha aérea diante da pressão dos custos operacionais.

Na Oceania, a Air New Zealand planeja cortar cerca de 5% da malha aérea — cerca de 1.100 voos no início de maio. Nos EUA, a United Airlines indicou redução de voos menos rentáveis diante da alta do petróleo, conforme memorando do CEO Scott Kirby, divulgado pela Insider.

Segundo o executivo, caso os preços permaneçam nos níveis atuais, o impacto adicional apenas com QAV pode chegar a US$ 11 bilhões por ano. Para efeito de comparação, ele destacou que, no melhor resultado da história da companhia, o lucro anual ficou abaixo de US$ 5 bilhões.

Já a Delta Air Lines afirmou estar parcialmente protegida pela estratégia de hedge e pela refinaria própria que opera na Pensilvânia, embora reconheça aumento relevante de custos. Segundo divulgado pela Business Insider, em conferência do JP Morgan de março, o CEO Ed Bastian afirmou que a estrutura não elimina totalmente o impacto da alta, mas oferece proteção significativa.

A companhia ainda não anunciou cortes amplos de voos relacionados ao combustível, embora tenha confirmado o encerramento da rota sazonal entre Los Angeles e Anchorage neste verão, ajuste que, segundo a empresa disse ao Insider, reflete adequações à demanda.

Aviação precisa da reabertura do Ormuz

De acordo com a AIE, exportações do Golfo são a principal fonte global de combustível de aviação e historicamente responderam por cerca de 75% das importações europeias. Apesar da aceleração recente das exportações dos EUA e de fornecedores alternativos como Nigéria, Coreia do Sul, Índia e China, esses fluxos substituem apenas parte da oferta perdida — até porque várias dessas refinarias também dependem do petróleo bruto do Oriente Médio.

Em cenários avaliados pela agência, caso menos da metade das importações do Oriente Médio seja reposta na Europa, pode haver escassez física em alguns aeroportos durante o verão do hemisfério norte, com potencial para cancelamentos de voos e destruição de demanda. Analistas ouvidos pela BBC destacam que grandes hubs tendem a ter prioridade no abastecimento, mas aeroportos menores podem enfrentar restrições temporárias. Mesmo com reposição de até três quartos do volume, o risco ainda existiria, embora possivelmente apenas a partir de agosto.

Uma porta-voz do Reino Unido disse para a BBC que o país trabalha com fornecedores e companhias aéreas para garantir a continuidade das operações, ressaltando que, por ora, não há interrupções no fornecimento. A associação Airlines UK informou ao jornal que mantém diálogo com o governo sobre eventuais medidas de apoio ao setor em caso de agravamento do cenário, incluindo flexibilizações regulatórias para proteger consumidores, comércio e competitividade.

O impacto já aparece nos custos do setor: o combustível de aviação normalmente representa entre 20% e 40% das despesas operacionais das companhias, e o preço de referência europeu atingiu um recorde histórico de US$ 1.838 por tonelada no início de abril, mais que o dobro do nível registrado antes do início do conflito, US$ 831.

A Comissão Europeia afirmou recentemente que não há evidências atuais de escassez na União Europeia, embora reconheça riscos potenciais no curto prazo. Ao mesmo tempo, entidades do setor, como o Conselho Internacional de Aeroportos e a Airlines for Europe, alertaram para a possibilidade de problemas de abastecimento caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado por mais tempo e defenderam ajustes regulatórios temporários para mitigar impactos sobre as companhias.

Diante desse cenário, o setor aéreo entra no radar dos investidores por combinar dois vetores críticos: a escalada do custo do combustível e o risco de restrições de oferta caso o Estreito de Ormuz continue fechado. A evolução do conflito e dos preços do petróleo tende a ser determinante para a capacidade operacional e a rentabilidade das companhias nos próximos meses.

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