BBI vê fim do bull market do agro e elege duas ações como ganhadoras

O banco projeta uma queda de 30% nos preços agrícolas nos próximos três anos
 (Scott Olson/Getty Images/Getty Images)
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Paula Barra
Paula Barra

Publicado em 29/07/2021 às 14:58.

Última atualização em 29/07/2021 às 15:19.

Com base em uma análise detalhada do comportamento dos preços dos grãos desde 1970, o Bradesco BBI afirma, em relatório da última quarta-feira, 28, que o ciclo otimismo do agronegócio está chegando ao fim.

Para o banco, há espaço para uma queda de cerca de 30% das commodities agrícolas até 2024 frente às cotações atuais. A projeção é mais pessimista que a do consenso do mercado, que prevê uma baixa de 15% no mesmo período (em linha com a estimativa anterior da instituição).

No relatório, o analista do banco Leandro Fontanesi aponta três fatores para essa leitura mais negativa agora. São eles:

Um) a visão de que a China provavelmente vai cortar sua enorme demanda por grãos entre o segundo semestre deste ano e 2022, diante das margens negativas da indústria de suínos (responsável por grande parte da demanda por milho e trigo).

Segundo Fontanesi, a última vez que as margens de suínos ficaram em patamares semelhantes foi em 2014, o que levou o país a reduzir a demanda por trigo e milho.

Dois) o banco espera que os preços do petróleo caíam para 62,00 dólares o barril em 2022 e para 60,00 dólares o barril em 2023, contra a cotação atual de 75,00 dólares. E, historicamente, o petróleo tem uma correlação positiva com as commodities agrícolas.

Três) as taxas de juros dos Estados Unidos provavelmente começarão a subir a partir de 2022, fator que historicamente  tem uma correlação inversa com os preços agrícolas, apontou o analista.

Ambev e M.Dias Branco: as ganhadoras neste cenário

Diante dessas projeções, o analista elevou a recomendação das ações da Ambev (ABEV3) para overperform, equivalente a compra, com novo preço-alvo em 21,00 reais, o que corresponde a um potencial de valorização de 24% frente ao patamar atual.

Fontanesi comenta que acredita que o consenso de lucro do mercado para Ambev está "excessivamente pessimista" para 2022 a 2024, tendo em vista a visão baixista sobre os custos agrícolas (que têm impactado materialmente as margens da companhia nos últimos dois anos) e perspectivas de que persistam os aumentos de preços praticados pela empresa.

Para ele, ainda que os preços das commodities demorem cerca de 12 meses para que sejam refletidos nos resultados da companhia, por conta dos "hedges" (proteções), o mercado provavelmente vai se atencipar aos ganhos mais fortes pela frente devido ao declínio dos preços agrícolas, o que reforça sua visão positiva agora.

O analista também reforçou sua recomendação equivalente a compra para os papéis da M.Dias Branco (MDIA3), além de ter atribuído um novo preço-alvo de 40,00 reais para o fim do ano que vem, o que corresponde a um potencial de alta de 28%.

De acordo com ele, a companhia, l[ider do mercado nacional de massas e biscoitos, sofreu forte compressão nas margens nos últimos trimestres, por conta do aumento dos custos agrícolas (responsáveis por 65% dos seus custos totais), apesar dos aumentos de preços relevantes desde o quarto trimestre do ano passado. No entanto, destaca que as cotações agrícolas mais baixas a partir do segundo semestre deste ano deverão apoiar uma recuperação na margem Ebitda da companhia para 16% no ano que vem, acima do consenso de 13% e dos 7% de 2021.

Por outro lado, ele cortou a recomendação de São Martinho (SMTO3) para neutra, com preço-alvo em 38,00 reais, um potencial de ganhos de 14%, citando que o açúcar (que tem uma projeção baixista) corresponde a cerca de metade do total da receita da companhia.

Para entender os ciclos agrícolas anteriores, o banco criou o Índice Agrícola, que pondera os preços de trigo, milho, soja, óleo de soja, açúcar e algodão com base em sua contribuição para a economia global.

Foram analisados os dados desde 1970 até agora. Nos estudos, foram observados oito ciclos de bull market (de alta) e cinco de bear market (queda).

A média dos ciclos de altas durou dois anos (três no máximo), com uma valorização média de cerca de 20% por ano, enquanto nos ciclos de baixas, a média foi de 3,5 anos (cinco no máximo), com uma queda anual, em média, de aproximadamente 10%. Desse resultado, o analista chegou na projeção atual de um declínio de cerca de 30% nos preços agrícolas nos próximos três anos.