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A ação dessa mineradora dobrou de valor após Maduro ser preso: entenda

A Gold Reserve teve concessões na Venezuela tomadas pelo governo chavista e tem quase US$ 1 bi a receber em indenizações

As ações da Gold Reserve registraram uma alta de 108,9% hoje, sendo cotadas a C$ 4,93 por volta das 14h36, em Brasília, partindo de um fechamento anterior de C$ 2,36. (sutan abraham/Getty Images)

As ações da Gold Reserve registraram uma alta de 108,9% hoje, sendo cotadas a C$ 4,93 por volta das 14h36, em Brasília, partindo de um fechamento anterior de C$ 2,36. (sutan abraham/Getty Images)

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 06h00.

O mercado financeiro reagiu de diferentes maneiras à intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro. As ações em Nova York subiram sem muito alarde e até o petróleo teve valorização no mercado internacional. Nada que tenha mudado radicalmente a realidade desses ativos da noite para o dia.

Não foi bem assim para a Gold Reserve Inc., uma mineradora canadense, que viu sua ação dobrar de valor em uma única sessão. A companhia já atuou na Venezuela e tem valores a receber do governo venezuelano, por conta de concessões expropriadas. 

Na sessão de ontem, as ações da Gold Reserve, negociadas no Canadá, fecharam em alta de 93%, valendo 4,57 dólares canadenses (R$ 17,95). Na máxima do dia, os papéis chegaram a subir mais de 100%.

Entenda o motivo da euforia

A Golden Reserve tem uma atuação histórica na Venezuela que remonta a décadas, quando a companhia se estabeleceu no país para desenvolver alguns dos maiores depósitos de ouro e cobre da América do Sul. Entre esses projetos está o Brisas, considerado estratégico para o setor mineral venezuelano, além de outras iniciativas que colocaram a empresa entre os principais investidores estrangeiros na mineração local.

Essa trajetória, no entanto, foi interrompida por sucessivas expropriações promovidas pelos governos venezuelanos. A Golden Reserve afirma que o projeto Brisas foi ilegalmente expropriado durante o regime de Hugo Chávez e que, mais tarde, sua participação na joint venture Siembra Minera teve o mesmo destino sob o governo de Nicolás Maduro. De acordo com a mineradora, esses ativos passaram a ser explorados sem autorização, em um ambiente marcado por insegurança jurídica e ausência de garantias para investidores internacionais.

Atualmente, segundo a própria empresa, essas áreas ricas em ouro estariam sendo exploradas com o uso de tecnologia chinesa e sob a influência do chamado Cartel de los Soles, grupo apontado como organização narcoterrorista. A Golden Reserve sustenta que a extração ilegal dos recursos beneficia financeiramente o regime de Maduro, enquanto impede qualquer retomada formal das operações pela companhia, que afirma não ter condições de prever quando ou se poderá retornar aos seus ativos no país.

O ICSID, braço do Banco Mundial para resolução de disputas sobre investimentos, determinou em 2012 que o governo da Venezuela pagasse US$ 740 milhões à Gold Reserve por encerrar a concessão de Brisas.

A mineradora declarou publicamente apoio à intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Em comunicado, afirmou que a iniciativa representa um passo para responsabilizar Nicolás Maduro por crimes contra o povo venezuelano e contra funcionários ligados à companhia.

A Golden Reserve também disse esperar que a intervenção abra caminho para uma transição política, a recuperação do país e a possibilidade de, no futuro, colaborar com a reconstrução econômica da Venezuela.

Mudança na percepção de risco

Com os recentes eventos na Venezuela, agentes de mercado esperam que uma nova conjuntura política permita o cumprimento de sentenças arbitrais bilionárias envolvendo mineradoras estrangeiras que atuavam na Venezuela. Algumas tramitam há mais de uma década.

Desde os anos 2010, sob a gestão de Hugo Chávez, o governo venezuelano promoveu uma série de nacionalizações que culminaram na estatização total da produção de ouro em 2011, revogando concessões e tomando ativos de empresas estrangeiras sem o pagamento de compensações adequadas. 

De acordo com o head de análise da The Link Investimentos, Artur Horta, o que se observa no momento é uma reprecificação de ativos e uma compressão acentuada do risco-país, atraindo capital especulativo e oportunista antes da implementação de reformas concretas. 

Horta destaca que a saída de um “governo ditatorial socialista para uma intervenção direta da maior potência capitalista” gera uma perspectiva positiva para os investidores, embora o cenário ainda esteja cercado de incertezas sobre como o povo e os políticos locais se organizarão sob o novo comando.

Entretanto, o especialista adverte que o recebimento imediato em dinheiro pode ser improvável para as mineradoras, dado que a Venezuela "é um país tecnicamente falido", sem reservas financeiras e isolado dos sistemas internacionais de pagamentos. 

Venezuela deve "arrumar a própria casa" primeiro

O analista avalia que é difícil que o país priorize indenizar empresas estrangeiras antes de realizar investimentos internos para "arrumar a própria casa"

Uma alternativa seria a concessão de benefícios fiscais, permitindo que as mineradoras voltem a explorar o ouro sem o pagamento de impostos até que a dívida seja quitada, o que criaria um cenário de "ganha-ganha" ao atrair novos investimentos para o setor, afirma Horta.

O horizonte de retorno operacional também é de longo prazo, já que o setor de commodities é cíclico e demanda aportes pesados.

Horta estima que o tempo mínimo para reativar maquinários, contratar pessoal e implementar projetos seja de pelo menos 18 meses, podendo estender-se de cinco a sete anos para pleno restabelecimento. 

Embora a valorização das ações na bolsa reflita um otimismo imediato, a consolidação desse valor depende da estabilização de uma Venezuela que agora possui suas maiores reservas estratégicas sob influência direta dos Estados Unidos e das escolhas deste novo comando.

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