Um risco estrutural emergente é a desmontagem da base da pirâmide corporativa (Montagem EXAME)
Chief Artificial Intelligence Officer da Exame
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 20h13.
O conselho de Geoffrey Hinton, Nobel de Física e pioneiro das redes neurais, é quase anacrônico para 2026: "Treine para ser encanador". A provocação do homem que ajudou a construir os alicerces da IA Generativa não é um desabafo ludista, mas um alerta pragmático sobre a tangibilidade do trabalho manual frente à volatilidade do capital intelectual na era sintética.
À medida que a inteligência artificial se integra à infraestrutura global, o cenário de riscos deixou de ser teórico para se tornar uma métricacrítica de balanço e resiliência operacional.
A Erosão da Prova Digital
O caso do banco em Hong Kong, que perdeu US$ 200 milhões em uma transação autorizada via videoconferência com deepfakes, elevou o nível de ameaça. O axioma "ver para crer" morreu.
Para as empresas, isso exige o fim da confiança baseada em canais únicos e a implementação de protocolos de autenticação multifatorial analógica. Relatos recentes que vi em grupos de executivos de empresas no Brasil confirmam que o "Golpe do CEO", onde criminosos mimetizam a autoridade máxima da companhia para exigir pagamentos urgentes, deixou de ser uma ameaça teórica para se tornar um ataque diário.
A Escalada do Phishing de Precisão
O FBI e agências de cibersegurança reportam que e-mails de phishing gerados por IA possuem taxas de conversão drasticamente superiores aos métodos tradicionais. A IA eliminou erros gramaticais e adicionou contexto personalizado, transformando o erro humano no maior gargalo de segurança.
O "Gargalo dos Seniores"
Um risco estrutural emergente é a desmontagem da base da pirâmide corporativa. Com a IA executando 80% das tarefas de profissionais juniores, as empresas enfrentam um vácuo sucessório: sem o treinamento básico "braçal", como formaremos a próxima geração de líderes seniores?
Dualidade e Governança
O FMI estima que 40% dos empregos globais serão impactados. No Brasil, o desafio é converter o ganho de produtividade em bem-estar social, evitando que a concentração de ferramentas de IA amplie o abismo da desigualdade e corroa o propósito do capital humano.
O Risco não é a Máquina, é o Incentivo
A clareza é o ativo mais escasso de 2026.
Muitos líderes ainda tratam a Inteligência Artificial como uma questão estritamente tecnológica, delegando ao CTO. Este é um erro. O verdadeiro perigo da IA não reside em uma "rebelião das máquinas" cinematográfica, mas em incentivos mal desenhados e em uma governança lenta demais para a velocidade da inovação.
A regulação, como vemos aqui na União Europeia, tenta correr atrás, mas as empresas não podem esperar por tratados internacionais para proteger sua cultura e seus ativos. A mitigação hoje passa por três pilares:
Transparência Radical, rotular o que é sintético e o que é biológico. Redundância Humanam manter o "human-in-the-loop" em decisões críticas (financeiras e éticas). Investimento em Soft Skills: se a IA faz o trabalho intelectual rotineiro, o valor migra para a negociação, empatia e o julgamento moral, competências que, por enquanto, não possuem código-fonte.