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Chatbots entram nos divórcios e dão mais trabalho aos advogados

Clientes usam IA para criar documentos e estratégias, mas erros e excesso de petições já provocam reações de tribunais nos Estados Unidos

Ilustração de um rosto humano estilizado cercado por telas e formas geométricas (Imagem gerada por IA/Exame)

Ilustração de um rosto humano estilizado cercado por telas e formas geométricas (Imagem gerada por IA/Exame)

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 3 de novembro de 2026 às 14h02.

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RESUMO +

Chatbots já participam da preparação de documentos em disputas familiares. Casos nos Estados Unidos e um debate na OAB mostram por que o uso dessas ferramentas exige verificação e análise profissional.

A inteligência artificial está chegando aos processos de divórcio pelas mãos dos próprios clientes. Em vez de apenas tirar dúvidas, algumas pessoas usam chatbots para elaborar documentos e definir estratégias que depois apresentam aos advogados ou à Justiça.

O fenômeno aparece mais claramente nos EUA. Em uma pesquisa do escritório americano Cordell & Cordell. Entre 133 advogados da própria firma consultados em 2026, 80% disseram ter recebido de clientes correspondências ou minutas que identificavam como produzidas com IA.

O dado descreve a experiência dos profissionais de uma única banca. Não significa que 80% dos clientes usem chatbots, nem que a autoria dos documentos tenha sido confirmada por uma auditoria independente.

Tribunal reage ao excesso de documentos

Na Flórida, uma decisão de 27 de maio de 2026 mostra outro problema: a facilidade de produzir grandes volumes de texto. No caso Robert Hinton Avery contra Danielle Beauzil, o tribunal de apelações registrou que Avery havia apresentado ao menos 145 requerimentos na primeira instância.

Uma resposta dele ao tribunal tinha 45 páginas geradas por IA, acompanhadas de um apêndice de 863 páginas. Os magistrados apontaram argumentos infundados e uso abusivo do processo.

A decisão determinou que aquele tribunal rejeitasse novas peças de Avery sem a assinatura de um advogado habilitado na Flórida. A medida não foi uma proibição geral de inteligência artificial: atingiu a atuação daquele litigante diante do histórico identificado pelos juízes.

O acórdão também ressalta que citar decisões reais para sustentar uma interpretação jurídica incorreta pode ser tão problemático quanto citar uma norma inexistente. A responsabilidade pelos documentos permanece com quem os apresenta.

Debate também chega à advocacia brasileira

No Brasil, a Comissão Especial da Advocacia Multiportas da OAB debateu, em outubro, os riscos de confiar em respostas de IA sem verificar sua veracidade e adequação. Entre os temas estavam autonomia profissional, proteção de dados e consequências processuais do uso inadequado.

A posição apresentada no encontro foi a de que a tecnologia pode auxiliar a atividade, mas não afasta a responsabilidade do advogado. Para a presidente da comissão, Eunice Schlieck, o conhecimento e o discernimento profissional continuam necessários.

O debate reúne duas questões diferentes: o uso da IA para organizar o trabalho e a adoção automática de suas conclusões. Os casos mostram o custo de tratar uma resposta bem escrita como substituta da análise dos fatos, das regras aplicáveis e dos limites de cada processo.


Perguntas frequentes

A pesquisa representa todos os clientes de advogados?

Não. O levantamento reúne relatos de profissionais de um único escritório.

O uso de IA elimina a responsabilidade profissional?

Não. No debate da OAB, a tecnologia foi apresentada como auxílio que exige conhecimento e discernimento do advogado.

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