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Bancos brasileiros veem privacidade como desafio do Drex, mas mostram otimismo com futuro do projeto

Banco Central anunciou mudança no cronograma de desenvolvimento da versão digital do real e citou privacidade como ponto ainda não resolvido em testes

Banco Central é o responsável pelo desenvolvimento do Drex (Banco Central/Divulgação/Divulgação)

Banco Central é o responsável pelo desenvolvimento do Drex (Banco Central/Divulgação/Divulgação)

João Pedro Malar
João Pedro Malar

Repórter do Future of Money

Publicado em 30 de maio de 2024 às 11h05.

Os grandes bancos brasileiros seguem otimistas com o futuro do Drex, projeto de moeda digital de banco central (CBDC) brasileiro, mesmo após o Banco Central ter anunciado neste mês uma mudança de cronograma que, na prática, adia o lançamento da iniciativa. À EXAME, algumas das principais instituições financeiras do Brasil, que também integram os testes do Drex, pontuam que o andamento do projeto segue positivo, mesmo com desafios.

Ao anunciar a mudança no cronograma do projeto, o BC explicou que a etapa de testes com o piloto da CBDC não terminará em maio e entrará em uma segunda fase, focada em testes de casos de uso e no funcionamento de contratos inteligentes.

A previsão é que essa fase termine no primeiro semestre de 2025, na prática representando um adiamento em relação à perspectiva inicial de lançar o Drex para a população de forma escalonada até o próximo ano. No anúncio, foi destacado ainda que os testes para encontrar uma solução para a garantia de privacidade de dados dos futuros usuários da plataforma do Drex seguem em andamento.

O desafio da privacidade

João Gianvecchio, head de digital assets do banco BV, avalia que"segurança e solução de privacidade dos dados dos usuários são dois dos principais requisitos do piloto do Drex quando se discute sobre a produção e disponibilidade ao mercado, pois eles garantem o sigilo bancários e todas as regras de compliance financeiro".

O principal problema encontrado no piloto até agora é que a tecnologia de registro distribuído (DLT), por trás dos blockchains e usada na rede escolhida para abrigar o Drex, permite que os membros da rede tenham acesso a dados como os valores, origem e destino de transações. Entretanto, isso viola as leis de proteção de dados no Brasil.

A questão, portanto, é como encontrar uma solução para esse dilema. "Existem desafios técnicos a serem superados nesta fase atual de amadurecimento em soluções de privacidade. As soluções, estudadas e analisadas internamente no banco BV, precisam de uma arquitetura de segurança que abrange aspectos relativos ao anonimato e à desvinculação de transações", explica o executivo.

"Até o momento, as soluções testadas pelos participantes do piloto não atendem todos os requisitos de privacidade sob ótica do Banco Central. No entanto, esta fase de testes pode se estender até que seja encontrada alguma alternativa viável", comenta.

Guto Antunes, head da Itaú Digital Assets, considera que "a privacidade continua como um dos grandes desafios do piloto e o que vemos é que as soluções estão evoluindo conforme feedbacks são apontados para atender aos requisitos do projeto pelo Banco Central".

Mesmo assim, ele acredita que "é natural que os obstáculos sejam superados conforme a tecnologia e as soluções vão amadurecendo neste mercado". É uma visão semelhante à de Jayme Chataque, head de digital assets e blockchain do Santander, que diz estar "otimista": "Há um número grande de especialistas mobilizados em torno deste tema e, em algum momento, encontraremos a solução".

"São 16 consórcios engajados no desenvolvimento do real digital e a maioria deles tem mais de uma empresa, com qualificados profissionais debruçados em torno do tema de privacidade de dados. Além dos consórcios, prestadores de serviço de tecnologia de dentro e fora do Brasil estão mobilizados. Este é um tema de interesse global", destaca. Por isso, ele acredita que "uma solução será encontrada".

Bruno Grossi, gerente de Tecnologias Emergentes do Inter, lembra ainda que soluções voltadas ao tema da privacidade em blockchains, em especial a prova de conhecimento zero (ZKP, na sigla em inglês), têm avançado rapidamente, e essas soluções "podem solucionar o dilema".

Mesmo que isso seja solucionado, ele acredita que ainda haverá um desafio na mudança de paradigma de fluxos de negócios com o Drex. "A migração do sistema financeiro nacional para uma plataforma blockchain não é uma releitura direta dos sistemas atuais. Para conseguir usufruir de todos os benefícios de um sistema em blockchain é necessário reescrever as lógicas de negócio em um novo paradigma".

Renata Petrovic, head de inovação aberta do Bradesco, avalia que "não há como saber ao certo quando todos os requisitos de privacidade poderão ser garantidos, pois as tecnologias disponíveis atualmente para esse fim ainda estão evoluindo. Porém, acreditamos que os casos de uso da fase 2 do Drex podem trazer novas informações para o debate".

E Luiz Fernando Lopes, gerente de Produtos Digitais na TecBan, aponta que algumas soluções testadas no próprio piloto do Banco Central em conseguido anonimizar dados, mas que ainda é preciso avaliar "cuidadosamente os resultados obtidos até agora para assegurar que a plataforma do Drex seja não apenas segura e escalável, mas também esteja alinhada com os altos padrões do mercado financeiro nacional. Dessa forma, estamos otimistas".

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O futuro do Drex

Os executivos de bancos consultados pela EXAME, todos envolvidos no piloto do Drex, mostram otimismo com o futuro do projeto mesmo com os desafios encontrados no caminho. Antunes, do Itáu, diz que a próxima fase do piloto envolverá "pontos importantes que serão explorados para comprovarmos os benefícios da aplicação de uma plataforma blockchain como infraestrutura".

"O objetivo nesta fase é explorar mais casos de uso e entender aspectos relacionados a governança da rede que podem ter comportamentos diferentes ao testados anteriormente, considerando que os participantes terão a possibilidade de incluir novos contratos inteligentes na rede para testar os modelos de negócio", explica.

Já a head de inovação aberta do Bradesco ressalta que o banco está "animado com a continuação do piloto", com uma segunda fase que poderá "gerar aprendizados internos, mas também contribuir para a maturidade da plataforma tecnológica e para o refinamento da regulação".

"O Banco Central projetou a rede do Drex para ser uma plataforma multi-ativo, incorporando serviços que irão beneficiar a população e fortalecer o ecossistema financeiro em geral. Da mesma forma que o Pix, o Drex tem o potencial de gerar novos negócios agregados para as instituições financeiras", pontua.

Grossi, do Inter, afirma ainda que a próxima fase do piloto permitirá que as instituições participantes criem e testem seus próprios contratos inteligentes, sem depender mais do Banco Central para isso, o que permitirá testar e "estruturar produtos inovadores, com fluxos mais complexos e adotando novos paradigmas inspirados em DeFi".

Gianvecchio diz que a expectativa do BV é "trazer sinergia com outros órgãos e autarquias como, por exemplo, o caso de uso de tokenização de financiamento de veículos junto às autoridades de trânsito”, ampliando os testes atuais no piloto. Na mesma linha, Chataque, executivo do Santander, vê a nova fase do piloto como "superpositiva, e faz parte do processo de aperfeiçoamento da plataforma tecnológica e da sua governança".

Já Luiz Fernando Lopes, da TecBan, vê a ampliação do piloto como algo que "não apenas amplia a aplicação da tecnologia, mas também contribui para uma base mais sólida e madura para a possível entrada em produção do Drex. Assim garantimos que, ao finalizar o piloto, tenhamos uma plataforma robusta e pronta para atender às diversas demandas do mercado financeiro".

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