Seleção brasileira: Amarelinha tentará o sexto título em 2026 (Julio Aguilar/Getty Images)
Colaboradora
Publicado em 19 de maio de 2026 às 09h48.
Pentacampeão, dono de uma das camisas mais pesadas da história das Copas, o Brasil convive há mais de duas décadas com uma pergunta que se repete a cada ciclo mundial: o que falta para a Seleção voltar a ser campeã?
Desde o título conquistado em 2002, a Seleção Brasileira acumulou eliminações traumáticas, mudanças constantes de comando, gerações talentosas sem coroação e uma sensação crescente de distância em relação às principais seleções europeias. E, é claro, um 7x1 que entrou para a história, mas não do jeito esperado.
Voltar ao topo do mundo, no entanto, não passa apenas por um time repleto de craques. A mudança, mais complexa, é estrutural e até mesmo cultural.
Durante décadas, o Brasil construiu sua história apoiado no talento de seus jogadores. O chamado "jogo bonito", criatividade, improviso e atletas capazes de decidir jogos sozinhos fizeram a seleção dominar diferentes eras do futebol.
Cada um em sua época fez história: Pelé, Garrincha, Ronaldo, Ronaldinho... O problema é que o futebol mudou e já não depende apenas de talentoss individuais, ainda que às vezes isso possa definir um jogo.
Hoje, seleções campeãs unem qualidade individual à organização coletiva, planejamento físico, análise de desempenho, intensidade tática e continuidade de trabalho.
Não é coincidência que os últimos campeões mundiais tenham apresentado identidades claras de jogo.
O Brasil segue produzindo jogadores de elite. Basta olhar para nomes como Neymar, Vinicius Jr., Rodrygo, Endrick, Estevão, Raphinha ou João Pedro. O país não sofre com falta de talento — o desafio está em transformar excelência individual em um projeto coletivo.
Isso fica claro quando todos esses atletas citados jogam muito bem em seus clubes, mas, quando chegam à Seleção, não conseguem brilhar.
Em muitos momentos, o time pareceu oscilar entre diferentes ideias sem consolidar nenhuma completamente. Em jogos grandes, isso ficou evidente: dificuldade para controlar partidas decisivas, dependência excessiva de jogadas individuais e pouca adaptação diante de adversários organizados.
A Argentina, campeã do mundo em 2022, ficou marcada pela capacidade de responder bem a momentos de pressão e por um jogo coletivo amplamente elogiado ao longo do torneio. Inclusive, é fácil saber como os "hermanos" vão jogar e qual deve ser a equipe titular.
A Albiceleste iniciou o Mundial de 2022 com uma derrota para a Arábia Saudita. Mas teve emocional para reagir e vencer os duelos seguintes, até mesmo os que tinham grande pressão, como a final contra a França.
Já a própria França combina força física, profundidade de elenco e transição.
A Espanha, por sua vez, moldou seu jogo por meio da posse e da técnica. Mesmo quando mudam peças, suas estruturas permanecem.
O Brasil precisa redescobrir o que quer ser em campo. Não necessariamente reviver o “joga bonito”, nem copiar modelos europeus, mas encontrar uma identidade própria capaz de unir criatividade brasileira com exigências modernas do futebol.
Existe atualmente no Brasil uma discussão importante sobre formação de atletas, calendário nacional, desenvolvimento tático nas categorias de base e profissionalização da gestão esportiva.
Enquanto centros europeus investem pesado em ciência esportiva, metodologia integrada e evolução técnica desde cedo, o futebol brasileiro ainda convive com problemas antigos: excesso de jogos, pouca continuidade de projetos, pressão imediatista e mudanças frequentes de treinadores.
Voltar a ser campeão do mundo passa por todo o futebol brasileiro e não apenas pelo ciclo da Copa do Mundo. É preciso uma organização que começa bem antes da convocação final e passa pelos clubes, pelas categorias de base, pela preparação física, pela formação dos jogadores e, por fim, pela capacidade de desenvolver atletas completos para o futebol atual.
Inclusive, poucas coisas simbolizam melhor a ansiedade do futebol brasileiro do que sua relação com treinadores. Mudanças rápidas, projetos interrompidos e ciclos reiniciados frequentemente dificultam qualquer construção de longo prazo. O Brasil também precisou apostar em um treinador estrangeiro, já que os nomes brasileiros estavam escassos.
Seleções campeãs costumam ter continuidade, o que não significa manter um treinador independentemente de resultados ruins, mas criar um ambiente em que ideias possam amadurecer.
O próximo título brasileiro dificilmente virá apenas de uma “solução mágica” no banco de reservas. Ele dependerá de um processo que combine planejamento, coerência de convocações, adaptação tática e confiança.
Há também um aspecto que está começando a ser falado mais agora, mas que sempre foi decisivo: o psicológico.
Copa do Mundo é um torneio curto, imprevisível e emocionalmente pesado. Muitas vezes, o vencedor não é apenas o melhor time tecnicamente, mas aquele que administra melhor pressão, tensão e momentos adversos.
O Brasil já mostrou qualidade suficiente para competir em diferentes edições recentes. Porém, em partidas eliminatórias equilibradas, pequenas questões emocionais custaram caro.
Sim. E talvez mais rápido do que parece. O país continua formando jogadores de elite, possui profundidade de elenco rara e mantém peso histórico capaz de influenciar qualquer competição.
A questão central é transformar potencial em projeto. Voltar a ser campeão do mundo exigirá menos nostalgia e mais adaptação. Menos dependência de genialidades isoladas e mais construção coletiv, com menos improviso e mais visão de longo prazo.
O hexacampeonato não depende apenas de encontrar “o novo fenômeno”. Depende de o Brasil conseguir fazer algo que, ironicamente, o futebol moderno cobra cada vez mais: jogar como um time inteiro, e não apenas como talentos individuais.