Gerações: torcedores comentam diferença entre as seleções brasileiras (Foto: IA)
Colaboradora
Publicado em 8 de junho de 2026 às 10h02.
A Seleção Brasileira sempre foi capaz de despertar sentimentos que vão além do futebol.
Para algumas gerações, ela representava orgulho nacional, confiança absoluta e a certeza de que o Brasil entrava em campo para vencer. Para outras, tornou-se símbolo de frustrações, desconfiança e até mesmo traumas.
Da era de Pelé ao histórico 7 a 1 contra a Alemanha, a forma como os torcedores enxergam a Amarelinha mudou, assim como o próprio futebol. Histórias de diferentes gerações ajudam a explicar como essa relação foi se transformando ao longo das décadas.
Muito antes de Neymar, Ronaldo ou Ronaldinho Gaúcho, a Seleção era representada por um nome que atravessou gerações: Pelé.
Para o torcedor Daniel Carlos da Costa, 78 anos, acompanhar o Brasil nas décadas de 1960 e 1970 era viver uma realidade completamente diferente da atual. Segundo ele, a camisa amarela carregava um respeito que poucos times conseguiram alcançar na história do esporte.
"O mundo respeitava a camisa amarela do Brasil e, por onde a seleção passava, o público enchia os estádios para ver o Brasil jogar, principalmente um gênio chamado Pelé", diz Costa em entrevista à EXAME.
Pelé: jogador brasileiro segue como o mais novo a vencer uma Copa do Mundo (Alessandro Sabattini/Getty Images)
Na visão dele, aquela foi a época em que a Seleção reunia tantos talentos que os técnicos tinham dificuldade para definir quem ficaria fora das convocações.
"Aquela época foi a era de ouro da Seleção Brasileira, quando só havia craques. Os técnicos não sabiam quais jogadores deveriam ficar de fora. Quando a bola rolava, o objetivo era chegar ao gol adversário, e não ficar trocando passes na defesa, como acontece em muitos jogos de hoje."
Para ele, o futebol brasileiro perdeu "parte da aura" que possuía na época.
"Antes, os adversários tremiam quando batiam de frente com a nossa seleção. Hoje, eles já não têm o mesmo respeito", afirma.
Se a geração de Pelé cresceu acostumada a ver o Brasil campeão, a de Sueli de Azevedo, de 49 anos, viveu uma longa espera. Em 1994, a Seleção chegava aos Estados Unidos carregando um jejum de 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo.
Grávida da filha Marcela, ela acompanhou a campanha cercada de amigos, familiares e vizinhos. A lembrança da final contra a Itália continua viva mais de três décadas depois.
"Quando Roberto Baggio bateu o pênalti para fora, foi aquela explosão. Todo mundo se abraçando, todo mundo saindo nas ruas para comemorar", diz.
Apesar do título, aquela Seleção enfrentava críticas. O estilo pragmático adotado por Carlos Alberto Parreira era constantemente comparado ao futebol mais artístico que havia marcado gerações anteriores.
"Os brasileiros estavam acostumados a ver o futebol brasileiro como aquele futebol artístico. Mas eles foram mostrando que, pelo pragmático também, iriam conseguir levar a gente para uma final", afirma.
Para Sueli, o tetra teve um significado que ultrapassou as quatro linhas. O país ainda tentava lidar com a morte de Ayrton Senna e enfrentava um período de instabilidade econômica.
"Aquele título veio como uma esperança para o Brasil. Nós precisávamos muito daquele título."
A conquista também ficou marcada em sua vida pessoal. Exatamente um mês depois da final, nasceu sua filha.
O sentimento de confiança voltou a atingir o ápice em 2002. Para Andrés Luis Botário, 45 anos, o pentacampeonato representou a última vez em que o torcedor brasileiro acreditou plenamente na superioridade da Seleção.
Curiosamente, a equipe chegou à Copa desacreditada após uma campanha complicada nas Eliminatórias.
"Ninguém esperava muito daquele time. A classificação tinha sido complicada e a Seleção não passava tanta confiança assim. Durante a Copa, o time foi se encaixando e dando show. Parecia que a cada jogo a confiança aumentava."
Com Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Cafu liderando a equipe, o Brasil encantou os torcedores.
Ronaldo Fenômeno: jogador foi destaque na Copa de 2002 (Claudio Villa/Getty Images)
"Você ligava a TV sabendo que tinha craque em todo lugar. O Ronaldo fazia gol, o Rivaldo resolvia jogo, o Ronaldinho inventava umas jogadas malucas."
Para Andrés, o pentacampeonato consolidou uma sensação que hoje parece distante.
"Naquela época, a gente entrava em qualquer Copa achando que podia ser campeão. Talvez hoje exista esperança, mas não aquela certeza que o torcedor brasileiro tinha antigamente."
Poucas pessoas conseguem comparar tantas fases da Seleção quanto a jornalista Suleima Sena, 44 anos, que viveu o tetra, o penta e também o trauma do 7 a 1.
Para ela, a maior transformação não aconteceu dentro de campo, mas na relação emocional entre o Brasil e sua seleção. A jornalista lembra que, durante a Copa de 1994, o país inteiro parecia respirar futebol.
"Quando o Brasil entrava em campo, especialmente em Copa do Mundo, o país simplesmente parava. Naquela época, os jogadores pareciam fazer parte da nossa família."
Segundo Suleima, essa relação começou a mudar gradualmente ao longo dos anos.
"O torcedor ficou mais distante, mais crítico e menos identificado. Hoje, quando você conversa com jovens jogadores, o sonho muitas vezes é atuar em clubes como Real Madrid ou disputar uma Champions League. Ali existia algo que ia além do futebol. Existia um sentimento coletivo de pertencimento."
Se para os mais velhos a principal lembrança é um título, para muitos jovens o momento mais marcante foi uma derrota.
Gabrielle Botario, de 24 anos, estava reunida com familiares na casa de uma prima quando assistiu à semifinal da Copa do Mundo de 2014 contra a Alemanha. A cada gol sofrido, a sensação era de incredulidade.
"Conforme os gols iam saindo, eu ficava mais incrédula da situação. Nunca me senti tão humilhada."
Na avaliação dela, o resultado foi ao mesmo tempo um acidente esportivo e um divisor de águas na história da Seleção. O impacto foi tão grande que ela se afastou da Amarelinha por um período.
David Luiz: jogador esteve na Seleção em 2014
"A seleção alemã realmente estava em um bom momento, mas não precisava ser necessariamente uma derrota tão traumatizante para o Brasil. Demorei para querer voltar a assistir aos jogos. Acho que só voltei a ver de fato depois das Olimpíadas."
Para Gabrielle, a principal consequência do 7 a 1 foi a mudança na forma como os brasileiros passaram a enxergar a equipe nacional.
"Não é mais uma relação de fé e confiança, é um 'vamos ver até onde vai'", diz.