Soja no Pantanal: sociedade precisa debater sobre os riscos da atividade

Alexandre Bossi, executivo do mercado financeiro e presidente da SOS Pantanal, afirma que, desregulado, o cultivo de soja na região pode provocar danos irreversíveis ao bioma, como já aconteceu
 (Mayke Toscano/SECOM-MT/Divulgação)
(Mayke Toscano/SECOM-MT/Divulgação)
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Alexandre Bossi*Publicado em 26/06/2022 às 12:22.

Foi com surpresa que recebemos a informação sobre plantações de soja dentro da planície pantaneira sul mato-grossense. Não se tratava de plantações localizadas na bacia do rio Paraguai ou nas bordas do Pantanal, mas sim registros claros dentro do bioma. Ficamos surpresos pois acreditávamos que era algo inviável economicamente não só pela logística precária, mas principalmente pelo solo fraco, regime de águas extremo, alto calor e baixa altitude, onde, uma história de práticas de pecuária extensiva de mais de 200 anos, evidenciou a vocação da planície

Ao constatarmos que era verdadeira a informação, consultamos as leis e percebemos que diferente do vizinho Mato Grosso, não é proibido na planície pantaneira sul-mato-grossense o cultivo de soja. Consultamos também o órgão regulador e ele nos confirmou que se não é proibido, será permitido.

Procuramos então o governo estadual do MS e percebemos que apesar de a pauta ser bastante relevante e ter a simpatia daqueles com quem conversamos, ela não seria prioritária, ao menos por enquanto.

Entendo o momento político, porém nosso receio é que o tema seja tratado como foi com a soja e a proteção dos banhados em Bonito, município localizado também no Mato Grosso do Sul. Lá a morosidade da decisão pela conservação fez com que algumas áreas de banhados e de nascentes dos belos rios transparentes da região fossem irreversivelmente afetados prejudicando o turismo da região.

No Pantanal por sua vez, a soja ainda é assunto bastante novo, o que nos dá tempo para que a pauta seja discutida pela sociedade. O estado do Mato Grosso do Sul possui 35 milhões de hectares e plantou na safra de 2021, 3.7 milhões de hectares de soja. Além disso, possui outros 1 milhão de hectares plantados eucaliptos e mais 1 milhão de hectares plantados de cana. Possui 8 milhões de hectares de áreas degradadas no Planalto que poderiam ser convertidos em boa parte para plantações de soja.

Ao lançar a campanha no dia 5 de junho contra a soja no Pantanal do Mato Grosso do Sul, o SOS Pantanal instituto que presido, quis trazer essa discussão para opinião pública. Não é trivial permitir que a soja entre na planície pantaneira sem se discutir; um bioma classificado pela Constituição de 88 como “Patrimônio Nacional", e pelo código florestal como de "uso restrito". O vizinho Mato Grosso já proíbe a plantação de soja no seu Pantanal.

A justificativa de que plantar soja no Pantanal é inviável economicamente e por isso o assunto não precisa ser discutido não nos parece razoável. Como diz um amigo meu: plantar soja no Amapá até 20 anos atrás era inviável, porém as coisas mudam e a tecnologia de plantio assim como a logística evoluem, viabilizando a plantação em locais antes impensáveis.

Do mesmo modo, é errado dizer que trazer essa discussão seja tirar direitos do produtor ou de sua propriedade privada. Acreditamos que é dever do Estado zelar pelo zoneamento socioeconômico e ambiental das regiões e dos biomas e pautar o que é possível ou não. Assim como nas cidades existem zonas industriais, residenciais e comerciais com restrição de uso das propriedades privadas, nós devemos pensar e discutir sobre o zoneamento e o uso dos nossos biomas e regiões.

O deputado Estadual Paulo Duarte reagiu positivamente à nossa campanha e já comunicou publicamente que irá pautar um projeto de lei ainda esse ano discutindo o plantio de soja no Pantanal do Mato Grosso do Sul. Acreditamos que esse é o momento de diferentes setores da sociedade se manifestarem sobre a entrada da soja no Pantanal. Deixar para depois pode ser tarde demais.

Vivemos em uma democracia e o debate público e transparente sobre esse tipo de tema é fundamental para o presente e o futuro do Estado do Mato Grosso do Sul e do País.

*Alexandre Bossi é executivo do mercado financeiro e presidente do SOS Pantanal